sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Crise e oportunidade (12/12)

O presidente e a candidata dele à sucessão, Dilma Rousseff, estão diante de uma chance de ouro

Pela primeira vez em seis anos, o governo Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma combinação potencialmente explosiva de dificuldades econômicas e políticas. No segundo item, cada dia que passa traz novos ventos na sucessão das mesas da Câmara e do Senado. O PMDB senatorial espera sair da próxima semana com um nome para disputar a cadeira hoje ocupada por Garibaldi Alves (PMDB-RN). Um nome para chamar de seu, mesmo que não seja José Sarney. O PMDB é estimulado pela oposição, inclusive pelo volúvel PSDB, que parece hoje menos próximo da candidatura Tião Viana (PT-AC) do que estava ontem. Mas, como no Parlamento, especialmente no Senado, a política muda tão rapidamente quanto as nuvens no céu, é bom acautelar-se.

Como se escreveu aqui uma semana atrás, o cenário no Senado para o governo oscila entre o pior e o menos pior. Uma possibilidade é o PT se eleger com apoio da oposição, derrotando o PMDB. Outra é o PMDB vencer com apoio da oposição, derrotando o PT. Difícil será saber qual das duas visões deve incomodar mais o governo. A única coisa certa até agora é que mantida a divisão PT-PMDB a oposição vencerá, dado que a estratégia petista-palaciana outorgou ao PSDB e ao Democratas o papel de fiel da balança. Os corredores que se estendem a partir do Salão Azul registram, por exemplo, que há a hipótese de Demóstenes Torres (DEM-GO) comandar a Comissão de Constituição e Justiça, com Tasso Jereissati (PSDB-CE) cotado para presidente da Comissão de Assuntos Econômicos. Seriam sem dúvida dois anos emocionantes para Lula até 2010.

Vamos esperar os próximos movimentos na política. Enquanto isso, na economia, o governo se movimenta para tentar colocar mais dinheiro nas mãos das pessoas, buscando impedir que a roda trave. Ontem, Lula se reuniu com empresários para anunciar um pacote de medidas. Mas, ao tentar agir, o presidente se vê às voltas com a muralha dos juros. Tanto a Selic, mantida pelo Banco Central em inacreditáveis 13,75%, quanto os juros ao consumidor, que vêm batendo todos os recordes. Aliás, quando o noticiário informa que o Copom manteve a taxa de juros inalterada trata-se de uma meia-verdade. Com todos os dados sobre a inflação apontando queda vertical, o que o BC fez na verdade foi aumentar os juros reais.

O governo anda excessivamente prisioneiro de suas escolhas passadas. Lula beneficiou-se até agora da autonomia operacional do Banco Central, mas acabou outorgando ao BC e ao sistema financeiro um poder que ameaça engolir a administração, já que o mundo mudou, o dinheiro sumiu e não há sinais de que os bancos estejam dispostos a promover o desempoçamento da liquidez. Até porque os bancos, como outras empresas, adotam neste momento uma posição defensiva. Se não for absolutamente necessário, preferem não emprestar, já que sempre será possível emprestar para o governo, especialmente com a crescente pressão sobre o déficit. Vamos ver o quanto a ação dos bancos estatais pode ajudar a desbloquear o quadro. E vamos ver quanto do dinheiro a mais que o governo pretende colocar nas mãos das pessoas vai ser gasto. E quanto vai ser guardado.

É improvável que as pessoas decidam gastar o próprio dinheiro em tempos bicudos. Mais recomendável seria prover crédito abundante e quase de graça, mas vinculado a consumo e investimento. E não simplesmente colocar dinheiro nas mãos das pessoas e das empresas. Numa situação de falta de confiança, a tendência primeira é pagar dívidas ou economizar. Então o dinheiro barato deve estar disponível sim, mas com a condição de que a pessoa (ou empresa) gaste ou invista.

São desafios operacionais, que porão à prova a capacidade de Lula e seu governo navegarem na tempestade. Ou em duas tempestades combinadas, a política e a econômica. Mas como crise é sempre sinônimo de oportunidade, o presidente e a candidata dele à sucessão, Dilma Rousseff, estão diante de uma chance de ouro. Podem dar um drible nas dificuldades e começar 2009 com o pé direito (ou esquerdo, se preferirem): na política, basta reequacionar a sucessão nas mesas do Congresso de modo a tirar da oposição o papel protagonista; na economia, basta enquadrar os bancos e fazer jorrar a torneira do crédito barato.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Uma reforma política URGENTE

Senhores, aproveitando o momento de turbulência, não seria a hora de criarmos um partido independente com prazo de extinção previsto e registrado, que participasse junto a toda a comunidade séria deste país (ELA EXISTE!!), reestruturando toda essa lama vigente ?
Começaríamos por definir que os custos de manutenção dos representantes seria arcado pelos representados, assim é que metalúrgicos, médicos, pedreiros, advogados, empresários, cantores, jornalistas, desocupados, milionários e assessores atuantes na esfera política seriam sustentados por seus apoiadores, fossem eles sindicatos , associações ou simpatizantes. Na esfera estadual haveríamos de reunir esses representados em torno de nomes que se destacassem na esfera municipal e na esfera federal nomes com representatividade nos seus estados. Estaríamos assim permitindo uma maior folga para redução da carga tributária em valor equivalente à remuneração expressiva de toda essa casta de políticos (vereadores, deputados e senadores) que em sua maioria não oferece o devido retorno ao país.
Acredito que essa economia já possibilite uma melhoria no falido sistema educacional, herança de décadas de desídia. O controle de operosidade e custo desses políticos seria então objeto de permanente atenção dos representados impedindo-se muita das irregularidades hoje praticadas. Esse novo parlamento e encarregaria então de a perfeiçoar a Carta Magna e o desmoralizado e desacreditado sistema jurídico vigente. Manteríamos o sistema eleitoral existente e poderíamos eventualmente criar um Conselho Nacional de Ilustres para supervisionar a atuação das instituições e orientar o Congresso na elaboração, controle, execução e avaliação de custos dos principais programas governamentais e de empresas estatais. Senhores, sei da dificuldade de implementar uma mudança com esse alcance, sei também das forças que teríamos que enfrentar mas não se realizam coisas significativas sem esforço, portanto lanço uma semente para homens de valor, de brio e de coragem iniciarem a grande tarefa.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008 10:02:00 BRST  
Anonymous the talk of the town disse...

Alon,

Vc incorre em alguns erros.

1 - O Copom não abaixou os juros, mas "de facto" ele abaixou (e vc pode enxergar isso na curva de juros futuros) com aquele comunicado estranho ou estranho comunicado. De passagem, se vc, como jornalista, quer se aventurar no campo economico, então saiba pra começar, na hora que vc (consumidor ou empresa) vai pegar um emprestimo no banco, o que vale mesmos, é a taxa de juros futuros. Então a queda já ocorreu, com a sinalização inequivoca de queda futura. Podia ser mais, mas a ultima coisa que queremos nesse momento são ruidos, não é?

2 - A sucessão no Senado (e claro no Congresso, visto que por mais que invistam na tese do "descolamento" (ups, eu já ouvi isso em algum lugar...) isso não existe. Eu apostaria as minhas poucas fichas, que o que tá pegando mesmo é a presidencia do PMDB (algo que, diga-se de passagem, nunca vi vc citar nas suas analises). O PMDB do Senado (varias facções, varias...) quer perder ganhando (no melhor estilo Lula de ser), ceder o Senado e tirar a presidencia do PMDB das maos do Temer (ups, I did it again, ele é Serrista?). Dizem que tb o Tarso do MJ. Mas isso é um bode na sala, ou um flare, chame como quiser.

De qualquer forma, vc acerta (em parte) qdo diz que é uma oportunidade. A Dilma tem a possibilidade de mostrar ao mundo politico que consegue ser habilidosa ao ponto de fazer o elefante atravessar a sala repleta de cristais. E pode mostrar ao mercado financeiro que é uma boa gestora, mas principalmente não é sectaria (como o resto do PT) ao "capitalismo financeiro" (não se engane, ele não vai ser varrido do mapa).

O Lula poderia criar um Comite de Crise, isso se ninguem tivesse soprado no ouvido dele a "marolinha" ou a "tese do descolamento"...

Alias quem foi mesmo esse idiota que engessou as ações do governo num momento que mais vale a flexibilidade do que a força.

Abraços,

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008 15:29:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Nesse momento não estariam surgindo fortes indícios de fim um ciclo, ou de um dado período? Pode ser que mesmo sem a crise financeira, as pressões políticas surgissem com força. Só que, agora, estão conjugadas com a necessidade de gestão eficaz para garantir o menor estrago possível na economia real.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008 17:15:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Será que eu errei mesmo? O Copom "sinalizou" que vai baixar os juros. Então por que não baixou? E, mesmo que baixe os 0,25 pp esperados, isso, ao contrário do que vc diz, representará aumento de juro real, dado que a inflacão está em queda mais rápida ainda (vou escrever um post sobre isso). Quanto ao PMDB, eu penso que a presidência do partido é muito importante, mas há uma disputa maior ainda pelo poder que o comando Senado concentra.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008 17:47:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Não seria a hora de aumentar o bolsa família?

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008 20:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O incentivo ao consumo,sugere menos um estimulo a estroinice e mais uma postura psicológica de fé nos fundamentos econômicos,no zêlo pelo bem-estar da sociedade e na confiança nos rumos da nação.Um antídoto à campanha terrorista-derrotista,da grande mídia.

sábado, 13 de dezembro de 2008 19:52:00 BRST  

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