segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Acordo essencial entre PT e PSDB (22/12)

O movimento mais recente dos ensaios para 2010 foi a reanimação da alternativa Ciro Gomes. Não nas pesquisas, onde parece ter perdido algum terreno para a bem exposta Dilma Rousseff. Mas na disposição política demonstrada por seu partido, o PSB, de confrontar o PT. Um sinal da nova atitude é a candidatura de Aldo Rebelo (SP) à Presidência da Câmara dos Deputados. O candidato é do PCdoB, mas veio dos aliados socialistas o impulso decisivo para que aceitasse entrar numa batalha de escassas possibilidades.

O PSB dá sinais de que caminha para afirmar uma identidade nas eleições de 2010. O que é essencial para a legenda defender -e se possível ampliar- seus espaços de poder regionais. O PSB desconfia de que não terá do PT a contrapartida local a um eventual apoio nacional dos socialistas aos petistas. E tem motivos para desconfiar. O recente caso de Salvador (BA), onde o PT trabalhou ativamente para tentar derrotar o PMDB, esteio da vitória de Jaques Wagner em 2006, deve ter deixado muita gente de barba de molho.

Já para o PT, a renovada disposição de luta do PSB preocupa apenas parcialmente. As planilhas do partido de Lula contabilizam o apoio certo do PSB, no primeiro ou no segundo turnos em 2010. O cálculo petista é levar Dilma Rousseff à rodada decisiva contra José Serra e, aí, arrastar as fichas dos eventuais votos dados a Heloísa Helena (PSOL). E receber por inércia o apoio do bloco PSB-PCdoB-PDT (se este último resistir aos cantos palacianos e até lá ainda fizer parte do bloco).

O cálculo petista contém boa dose de realismo, pois muita coisa precisaria mudar para que Ciro e Serra pudessem sentar à mesa e discutir um eventual apoio. As possibilidades serão maiores se o candidato do PSB for Eduardo Campos, mas o recente conclave da cúpula socialista indica que a aposta, neste momento, se dá em torno de Ciro. Que até voltou a dar entrevistas e a colocar a cara no noticiário. O PSB acha hoje que Ciro pode muito bem tirar Dilma do segundo turno e se transformar ele próprio no destino para os votos petistas órfãos.

Um bom cenário para a aproximação entre PSDB e PSB seria com Aécio Neves candidato pelos tucanos à sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva. O governador de Minas emite sinais quase diários a esse respeito. Toda vez que fala na sucessão repete a necessidade de seu partido ampliar as alianças para além do bloco com o Democratas e o PPS. A tese de Aécio é conhecida: ele, e não Serra, seria mais capaz de cindir estruturalmente a hoje base governista, sem o que uma vitória em 2010 ficaria, na opinião do mineiro, muito difícil.

Serra reage à concorrência interna com dois argumentos e dois movimentos. O primeiro argumento é que dificilmente o PSDB vai conseguir arrastar nacionalmente, em bloco, algum aliado de Lula. O segundo é que a ausência de verticalização abre o caminho para que o lulismo seja desmontado regionalmente. O primeiro movimento é aproximar-se do PT e do presidente, buscando a vacina contra a possibilidade de um rótulo antilulista daqui a dois anos. O segundo é sinalizar que Lula será tão bem tratado na condição de "ex" como o é hoje Fernando Henrique Cardoso.

De quebra, Serra aproveita para enfraquecer Ciro, o PSB, e outros vetores historicamente próximos de Lula. Como por exemplo o assim chamado "PMDB do Senado". No que o tucano tem obtido grande sucesso. E a um custo político quase zero. Nas últimas listas de melhores amigos elaboradas no Palácio do Planalto, os dois lugares de destaque são ocupados por Serra e pelos antigos amigos deste no PMDB.

O Planalto e o Bandeirantes estão de mãos dadas na dança para garantir que a disputa em 2010 seja entre ambos. Em São Paulo, aposta-se na tese de que a sociedade brasileira não gostaria de dar mais um mandato (ou dois) ao PT, ainda que admire Lula. Em Brasília, os prognósticos são de que o Brasil não gostaria de voltar aos tempos tucanos. Mas, divergências à parte, há um acordo essencial entre os controladores das máquinas petista e tucana: não querem mais ninguém no jogo. E contam para isso com o medo que costuma acometer os políticos brasileiros sempre que confrontados com a possibilidade de precisarem atravessar o deserto, de ficarem fora do grande banquete.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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3 Comentários:

Blogger Richard disse...

Tomara que Heloísa Helena quebre esta lógica... ou que, na reta final, as pessoas se perguntem da real necessidade de se eleger 1 dos atores desta comédia (Serra, Dilma ou Ciro).

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 17:29:00 BRST  
Blogger Briguilino do Blog disse...

Serra é o adversário dos sonhos para o PT. O candidato mais fácil de ser batido.
E tem mais, no dia 22/05/2006 eu disse que Dilma seria a proxima presidente e afirmo que se a chapa for Dilma/Ciro será vitoriosa no 1ºturno.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 21:42:00 BRST  
Anonymous Marcos disse...

O que mais chama a atenção no post do Alon é:

"O primeiro movimento é aproximar-se do PT e do presidente, buscando a vacina contra a possibilidade de um rótulo antilulista daqui a dois anos"

É um feito politico notável.
Não conheço nada parecido por essas bandas.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008 11:51:00 BRST  

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