terça-feira, 18 de novembro de 2008

A vida como ela é (18/11)

O entusiasmo com o G20, a novíssima e incensada instância de poder mundial que supostamente viria para substituir o G7, sofreu um baque bem na largada. Da BBC Brasil hoje de madrugada:

Brasil e Argentina defendem barreiras para importações

Dois dias depois de assinarem a declaração conjunta do G20, que inclui uma rejeição ao protecionismo e a promessa de passar um ano sem criar barreiras ao comércio, autoridades do Brasil e da Argentina defenderam o aumento da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul para produtos como vinhos, pêssegos, lácteos, têxteis, couro e móveis de madeira, entre outros. A decisão de aumentar barreiras para estes itens faz parte do comunicado divulgado nesta segunda-feira pela Secretaria de Indústria do governo argentino, após reunião, em Buenos Aires, entre negociadores dos dois países. "(Os dois governos) decidiram levar à próxima reunião do Mercosul (em dezembro, em Salvador) os requerimentos para o aumento da TEC para vinhos, pêssegos, lácteos, têxteis, produtos de couro, móveis de madeira, entre outros", diz o texto. Perguntado pela BBC Brasil sobre esta iniciativa, anunciada após reunião do G20, em Washington, um assessor da Secretaria de Indústria da Argentina afirmou que "não há contradição", já que a idéia de aumentar a TEC não significa medida ampla, mas sim "específica para produtos sensíveis à entrada de similares produzidos fora do bloco". O assessor ainda destacou: "Isso não é protecionismo. É defender nossa produção. Todos os países do mundo estão cuidando de suas indústrias sensíveis, vulneráveis neste momento (de crise financeira internacional)".

Leia a reportagem. Insensíveis, esses burocratas, tão preocupados com a vida como ela é, tão impermeáveis ao salamaleque dos patos mancos. Recorde-se o que escrevi dois dias atrás em Capitulação, ao argumentar sobre os efeitos danosos que um compromisso sério de liberalização comercial teria para a economia brasileira:

(...) somos um país de sorte. Essa reunião do G20 daqui a pouquinho terá caído no vazio.

Só não achei que seria tão rápido. Nem que a coisa partisse exatamente do Brasil. Eu achava que quem ia enterrar o G20 seriam os Estados Unidos, quando Barack Obama estabelecesse algum mecanismo para proteger a indústria automobilística dos EUA da concorrência estrangeira. Quando ele finalmente mandar para casa os republicanos lunáticos. Um pouco na linha do que está em Cada um por si:

Quanto mais cedo os países acordarem para a realidade, melhor. A hora é, essencialmente, de cada um cuidar da própria casa. Cada um com os seus problemas.

Talvez a emoção despertada pela reunião do G20 em Washinton tenha sido excessiva e precipitada. Vamos aguardar os próximos capítulos. E leia alguns bons motivos para salvar a indústria automobilística americana em A Bridge for the Carmakers, The Future Is in Sight. They Just Need Help Getting There, de Jeffrey Sachs, o convertido.

http://twitter.com/alonfe

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Agora só falta enterrar novamente a Rodada Doha, cuja retomada foi saudada depois da reunião do G20. Ficam dúvidas. Alguém pergunta o que a China acha disso tudo? E se pergunta, consegue resposta antes de uns 2000 anos? Até que eles respondam, os demais emergentes continuarão a vender matérias-primas a preços menores do que importam produtos industrializados? O Brasil e a Argentina vão proteger seus mercados. Índia, Rússia e China vão proteger seus mercados. Os EUA vão proteger seu mercado. Então para que essa onda toda em cima do G20 e Rodada Doha?

Swamoro Songhay

terça-feira, 18 de novembro de 2008 10:31:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Caro Alon, parece que não foi só vc quem percebeu a inutilidade desta reunião...

terça-feira, 18 de novembro de 2008 12:37:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

Jeffrey Sachs é um eterno convertido, Alon.

Participei de uma coletiva com ele ainda nos tempos de estudante. Bresser e Serra estavam lá para cumprimentá-lo num seminário do Instituto Fernand Braudel. Como não o conhecia, li tudo que ele tinha publicado. Na entrevista ele falou tudo ao contrario. Quando perguntei se tinha mudado de opinião, respondeu algo parecido com "esqueça o que escrevi"...

Já viu esse filme antes?

quarta-feira, 19 de novembro de 2008 14:24:00 BRST  

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