domingo, 9 de novembro de 2008

The show must go on (09/11)

Mais pronunciadamente à direita do que à esquerda, mas em todo o espectro da política, ouvem-se as inevitáveis previsões de que um dos maiores problemas de Barack Obama será atender às demandas despertadas por ele na campanha eleitoral. Você certamente se lembra de ter ouvido algo parecido aqui no Brasil, com Luiz Inácio Lula da Silva. "Quero ver ele conseguir cumprir tudo o que prometeu, quero ver ele resolver todos os problemas que apontou." A imprensa esteve entupida desse tipo de bobagem no fim de semana. O que talvez as pessoas não percebam agora para analisar os Estados Unidos (assim como não perceberam para analisar o Brasil seis anos atrás) é que o eleitor comum não se inclinou por Obama em busca de um messias, ou de um resolvedor-geral imediato de encrencas. A maioria do eleitorado americano optou por ele para liderar o país numa época difícil, para mudar de rumo. Uma ótima reportagem do The New York Times feita em Levittown, na Pensilvânia, ajuda a compreender melhor. A área é esmagadoramente branca, operária e de classe média. Aliás, a reportagem mostra, mais uma vez, o quanto a questão racial ocupou lugar secundaríssimo este ano nos critérios de escolha do nome para morar na Casa Branca. Como já se afirmou aqui (Esquerda e direita e Barreira, e não motivo), o fato de Obama ser negro foi um obstáculo a ser superado pelo eleitor médio nos Estados Unidos, não foi o motivo para que esse eleitor votasse nele. Mas, fazer o quê? The show must go on. A turma não está deleitada discutindo o cachorrinho que as Obamas vão levar para a Casa Branca? E tem outra coisa, especificamente aqui no Brasil: se o pessoal não for discutir a cor de Barack Obama vai ter que debater aspectos mais incômodos. Que o país mais rico do mundo não consegue oferecer, para quem não tem (muito) dinheiro, saúde de qualidade pelo menos igual à brasileira. Que ali o sistema privado de previdência mostrou não garantir a mínima segurança para quem vai se aposentar. Que o mercado deixado à própria sorte leva a economia à catástrofe. Que a intervenção do Estado é a única maneira de salvar a sociedade da cobiça ilimitada dos capitalistas. Dito isso, escolha você mesmo qual das duas opções é mais conveniente ficar martelando na cabeça das pessoas: 1) que os Estados Unidos são um país tão legal que elegeram um negro para a Presidência da República, ou 2) que a direita empurrou os Estados Unidos para um buraco tão fundo que a sociedade americana, reconhecidamente marcada pelo racismo, preferiu até escolher um negro em vez de arriscar eleger novamente alguém do Partido Republicano.

http://twitter.com/alonfe

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4 Comentários:

Blogger Richard disse...

Sim Alon, os eleitores americanos votaram na mudança, a mesma para qual elegemos Lula. Só que este não mudou nada (ou quase nada) e acabamos no mesmo buraco (mais próximo da borda, é verdade) deles.
É compreensível que existam dúvidas quanto a real capacidade (ou vontade) de Obama em resolver a crise. Mas nele, ainda há esperança... já em Lula, só a certeza de que vai esperar pra ver em qual canoa deve embarcar.
Não foi para isto que votei em Lula!!!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008 12:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Acho que uma coisa interessante para colocar. Não martelar na cabeça das pessoas, pois, pode ser que logo logo não haja nem mais cabeças inteiras para levarem cacetadas. Trata-se, simplesmente de dizer que eleitores americanos elegeram um americano para presidente. E que, assim, derrotaram outro americano. Mais fácil e mais correto.

Swamoro Songhay

segunda-feira, 10 de novembro de 2008 14:23:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Caro Richard, se o governo Lula "não mudou nada "ou quase nada)", como explicar a virulência da oposição ou, o que é muito mais importante, a blindagem que as relações sul-sul estão nos proporcionando frente aos efeitos mais agudos da crise; ou a mobilidade de renda e classes dos últimos anos; ou a retomada do crescimento lastreada no mercado interno; ou o acesso dos pobres ao ensino superior; ou o novo modelo de financiamento da educação pública de primeiro e segundo graus; ou a manutenção de sistemas públicos de pensões e de saúde; ou a gradativa reconstrução do aparato de Estado; ou a criação de mercado creditício de massas; ou o realismo cambial; ou a quitação da dívida externa; ou as reservas de US$ 200 bilhões; ou o nível de financiamento público ao setor privado; ou o PAC; ou a expansão do saneamento básico, que o insuspeito Estadão editorializa envergonhadamente hoje?

segunda-feira, 10 de novembro de 2008 16:28:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Bem, a China tem US$ 1,0 tri em reservas e está com problemas; a Argentina está estatizando fundos de aposentadoria por falta de recursos; os grupos Sul-Sul não propuseram até agora nada que não seja assento permanente no CS da ONU e nos órgãos multilaterias como FMI e Banco Mundial; a queda dos preços do petróleo causam mais problemas à Venezuela. Onde está a força real dos emergentes? Em seu mercao interno, que ao ser revitalizado, atrairá capitais e exportações dos países ricos. Dai a pressa em que os EUA e Europa saiam rápido da crise.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 13 de novembro de 2008 14:47:00 BRST  

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