quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Muita conversa, pouco serviço (20/11)

Em busca do remédio infalível para livrar a cara da autoridade cuja competência e desempenho estão em xeque? É fácil. Pesque no receituário algum item de agenda caro aos formadores de opinião e pronto. É cura na certa. E se você tiver habilidade, e operar bem, poderá acumular pontos no programa de blindagem que lhe permitirá, no futuro, escapar de outras armadilhas colocadas pela vida real.

Tome-se o exemplo do Ministério da Saúde. Tão logo assumiu, o titular da pasta abraçou a bandeira da liberalização do aborto. Foi o que bastou para que o lançassem na coluna dos modernos, renovadores e competentes. Bem, mas a gestão dele acumula derrotas políticas estratégicas, como a perda da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) no Congresso e a rejeição, pela Conferência Nacional de Saúde, do modelo de fundações que o ministro defende como essencial para flexibilizar a contratação de mão-de-obra. Até o debate sobre o aborto caiu no vazio. E daí?

E daí que nada. A dengue vai numa escalada nunca vista, sem que se notem os resultados da ação ministerial para combater a doença. Quando a praga explodiu no Rio de Janeiro meses atrás, o ministro apressou-se em culpar o prefeito, adversário político do governador, que por sua vez é aliado do ministro. Quando a doença deu as caras em outros lugares, não se notou a mesma fúria acusatória. Compreende-se.

Mas, de novo, e daí? Afinal, o ministro é a favor do aborto. E agora mandou avisar que é também contra o fisiologismo. Outra droga tiro e queda. 100% de efetividade. O sujeito está metido em problemas políticos que não sabe resolver? É incapaz de conseguir apoio parlamentar para suas propostas e planos de ação? Calma, que nada está perdido. Culpe-se o fisiologismo que infesta a política nacional. Sem nunca, é claro, esquecer de citar o PMDB. Só para fixar, por associação. Sabe como é: falou em fisiologismo, tem que falar no PMDB.

Se houvesse espaço para dúvidas, para crítica, alguém poderia levantar a lebre. Os deputados e senadores são por acaso fisiológicos apenas na relação com o Ministério da Saúde? E os demais ministérios? Pois é. Se há os ministérios que andam e os que não andam, e se o fisiologismo é o que supostamente impede estes últimos de caminhar, conclui-se necessariamente que as pastas bem administradas, que conseguem executar o orçamento com eficiência e mantém boa relação com o Congresso, são comandadas com viés fisiológico, aceitam o fisiologismo como regra na relação entre os poderes.

Por esse raciocínio, concluir-se-ia que o ministério de Luiz Inácio Lula da Silva está loteado entre os incompetentes e os fisiológicos. Uma conclusão estúpida. É o que em lógica se chama demonstrar por absurdo. Pegue uma premissa e desenvolva. Se os passos lógicos estiverem certos e se você chegar a uma tese sem sentido, comece a desconfiar da premissa que você adotou. A lógica, portanto, sugere duvidar da hipótese de que o ministério da Saúde não anda por resistir ao fisiologismo dos políticos.

Mas uma coisa é a lógica. Outra é o marketing. Se, por exemplo, o ministro da Saúde diz que a Funasa é um foco de corrupção, seria lógico pedir que detalhasse a acusação, apontasse os possíveis culpados e mobilizasse a Polícia Federal e o Ministério Público para as devidas providências. Se ele não fizesse isso, deveria automaticamente ser posto em maus lençóis. Mas não. Como o ministro é a favor do aborto e contra o fisiologismo, e como a disputa dele é com o PMDB, não precisa explicar nada. Não precisa fazer nada. Apenas ficar firme na performance.

Esta coluna está pegando no pé do ministro da Saúde, por falar muito e fazer pouco. Por dar pouca conseqüência ao discurso. É a minha modesta opinião, que naturalmente pode ser contestada. Com fatos. Registre-se, em favor do criticado, que há outros como ele na Esplanada. Não vou citar nomes para não correr o risco de ser deselegante, se porventura omitir algum. E também para não desperdiçar assuntos que podem ser matéria-prima de futuras colunas.

Na divisão dos poderes, os encarregados de falar — no vídeo, no áudio ou no impresso — são o Legislativo e Judiciário. Ao Executivo cabe executar, especialmente o orçamento. Quer encontrar um ministro que esteja fazendo pouco? Procure algum que esteja falando muito.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Interessante mesmo. E como diziam e ainda dizem: parece que apontam no dragão e acertam em São Jorge. Ou, a dengue está de volta, doenças extintas e outras quase, estão de volta e São Jorge só preocupado em apontar a lança para o dragão.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 20 de novembro de 2008 12:29:00 BRST  

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