domingo, 30 de novembro de 2008

A luta para entrar no barco (30/11)

Não é só entre jornalistas (e entre políticos) que de vez em quando o debate descamba. Está sendo interessante acompanhar a polêmica entre o economista e colunista Paul Krugman, no The New York Times, e seus adversários colunistas, ou economistas. Dois deles foram especialmente contemplados pelo Nobel com bons argumentos e boas estocadas nos últimos dias: Amity Shlaes, escrevendo no Wall Street Journal, e George F. Will, no The Washington Post. Em meio à refrega, Krugman trouxe para o ringue a frase de Upton Sinclair, um escritor americano que tinha inclinações à esquerda:

It is difficult to get a man to understand something, when his salary depends upon his not understanding it.

É difícil levar alguém a entender algo quando seu salário depende de que não entenda. Eu registro aqui o "teorema de Upton Sinclair", como definiu Krugman em seu blog, apenas para dar idéia da alta temperatura. Você que me conhece sabe que eu prefiro o oposto, esfriar a polêmica e evitar que os argumentos cozinhem e se desnaturem no fogo das paixões. Foi o que escrevi em Este é um blog moderado. Habituem-se:

Um argumento que rejeito sistematicamente é o pecuniário. Algo mais ou menos na linha "fulano de tal só defende isso pois tem um emprego no -ou recebe dinheiro do- governo de sicrano". Há certos debates de que participo. De outros, não. Não entro em polêmicas que, a prevalecer a lógica, tendem a um beco sem saída. As aspas acima são um exemplo. Vamos trabalhar com a situação em que o personagem A acusa o personagem B de escrever textos (ou dar declarações) favoráveis ao governo de C porque leva algum tipo de vantagem monetária, direta ou indireta. Ora, se é razoável supor que B apoia C porque leva alguma vantagem, é também legítimo acolher a hipótese de que A só se opõe a C por não ter tido acesso aos benefícios recebidos por B. Pau que dá em Chico dá em Francisco.

Mas será possível discutir política assim, só no plano nas idéias? Tentemos. O conservadorismo econômico, em baixa, procura se levantar da lona antes que o juiz conte até dez. Uma vez de pé, a pancadaria só vai aumentar, precavenham-se. A agitação contra o empréstimo dos bancos públicos para a Petrobrás é um sintoma. Qual é a essência do debate econômico nesta crise? Se o Estado deve ou não se meter no mercado, estimulando a criação de empregos e garantindo uma certa renda para o trabalho. Quem acha que sim diz que em situações tendentes à depressão é preciso garantir emprego e renda para que o trabalhador/consumidor projete uma renda futura e tenha confiança para comprar. São situações em que a taxa de juros perde poder de tração, como aconteceu por exemplo na recessão japonesa dos anos 90, quando a economia parou de crescer mesmo depois de os juros ficarem negativos. Já a oposição a esse ponto de vista sustenta que o Estado proporcionar níveis de emprego e renda "artificiais" é prejudicial, pois reduz a produtividade do capital, já que incrementa custos, incremento que não será compensado pela criação do valor correspondente. Isso foi pinçado por Krugman do texto de Will. E o capital ficar assim, de breque de mão meio puxado, atrasaria a volta ao dinamismo econômico. Para detalhar mais o último ponto de vista: trata-se de reduzir o preço do trabalho e eliminar, por meio da consolidação, estoques menos produtivos de capital, para abrir caminho à recuperação. Onde está a razão no duelo intelectual? Dependendo do ângulo do observador, pode estar em qualquer um dos dois pólos. Ou em algum ponto intermediário. Pois não há uma "razão" única. O que há é a luta de classes, ainda que a expressão possa doer nos estômagos mais sensíveis. Cada um, cada lado, cada personagem peleja para que os recursos da sociedade, recolhidos pelo Estado, ajudem a atravessar a tempestade, a escapar do naufrágio. É uma disputa por vagas no bote salva-vidas. Até porque, recorde-se, não se ouviram dos radicais do mercado críticas na fase da crise, semanas atrás, em que se tratava de os Estados intervirem enlouquecidamente para salvar bancos. Agora, bem alojados no banquinho e enrolados no cobertor quentinho, dão pancadas com o remo nas mãos, nos braços e nas cabeças dos infelizes que se agarram ao barco para tentar sair da água.

http://twitter.com/alonfe

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11 Comentários:

Anonymous Luca disse...

O debate sobre o fato de a Petrobrás tomar recursos destinados originalmente a financiar moradia para a população alimenta esta saudável discussão das prioridades adotadas por quem é Governo.

domingo, 30 de novembro de 2008 20:41:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

A tomada de recursos pela Petrobrás junto à CEF não tem ligação alguma com a dimensão das carteiras hipotecária ou de financiamento à construção civil daquele banco.
Quanto ao post, no alvo!

domingo, 30 de novembro de 2008 22:15:00 BRST  
Blogger Briguilino do Blog disse...

Não vejo NINGUÉM dizendo que a causa desta crise foi porque o mundo tem esnergia de sobra (petroleo), exatamente o contrario do que foi previsto a 30 anos atrás pelos estrategistas dos EUA - governo Carter.
Apenas discutem e combatem os sintomas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008 09:14:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Ué, e eu que pensava que a causa da crise estava na desenfreada alavacangem de bancos e financeiras (Basiléias de 50, 60), somada à criação de derivativos tóxicos, adicionada a super-acumulação de capitais e a super-consumo à base de endividamento, tudo regado a desregulamentação total. E agora me dizem que a origem está na super-oferta de energia fóssil!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008 11:36:00 BRST  
Blogger Briguilino do Blog disse...

Pois é Artur Araújo, pense um pouco por que esta "alavancagem desenfreada, por que a criação de derivativos tóxicos, por que a super acumulação de capitais?
Se estivesse faltando energia (petroleo principalmente) os capitalistas estariam investindo em que?
Amigo olhe para a direção contrária, reme contra a maré (neste caso) e chegara a conclusão correta da causa da crise. Não fique apenas comentando as consequencias!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008 12:07:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Caro Brigulino, o capital investiu, investe e investirá em petróleo independente de um cenário de escassez ou abundância, até pq TODAS as previsões e cenários sobre reservas, desde o século XIX, seja de crise de abundância ou de escassez, foram desmentidas na prática. Idem, com relação aos preços, seja spot, seja Golfo, seja o que seja. Por dever de ofício, acompanho esse mercado de loucos há mais de 6 anos e NUNCA vi uma previsão se concretizar, até mesmo adotando margens de erro de 25 a 30% em horizontes de 12 meses.
O excedente de capitais que deu fôlego às bolhas não é oriundo de uma sub-aplicação em energia, não há correlação alguma que eu conheça.
Trata-se de uma crise clássica: superprodução, alta geração de volume de lucros, queda tendencial da rentabilidade na produção, super-acumulação, frenesi financeiro, bolha, furo na bolha, destruição de forças produtivas e esterilização de capitais. Do jeitinho que o Barbudo descrevia no Livro III de seu opúsculo, sem tirar nem pôr.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008 21:54:00 BRST  
Blogger Briguilino do Blog disse...

Prezado Artur, o problema não foi "uma sub-aplicação em energia", e sim o desenvolvimento de novas tecnologias de exploração e descobertas de novas reservas. Muito acima das previsões catastroficas feitas a 30 anos atrás. Pesquise um pouco sobre estas previsões e depois imagine o cenário atual caso elas tivessem sido confirmadas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008 10:01:00 BRST  
Anonymous Luca disse...

Caro Artur, segue notícia de 03/12/2008 da redação Terra:

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu nesta quarta-feira que o empréstimo feito pela Petrobras junto à Caixa Econômica Federal tira parte da liquidez de empresas pequenas."

CQD

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008 15:30:00 BRST  
Anonymous Artur Araujo disse...

Luca, SE o admitiu - e prefiro ver se a notícia é confirmada ou desmentida - errou. É só conhecer como funcionam as várias carteiras de empréstimo de um banco para saber que não são vasos plenamente comunicantes e que se alocam recursos a cada uma conforme um mix de rentabilidade e risco.

QED

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008 19:46:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

É, parece que Lula falou bobagem mesmo. E que o presidente da República não gosta mesmo de apertar bancos, isso é coisa que sabe faz tempo. E se a Caixa está com pouco dinheiro para emprestar, que capte, oferecendo melhores condições.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008 20:15:00 BRST  
Anonymous Paes Lima disse...

Foi o que disse o Roubini em texto no Financial Times:

Traditionally, central banks are the lenders of last resort but they are becoming the lenders of first and only resort, as banks are not lending. Central banks are becoming the only lenders in the land. With consumption by households and capital spending by corporations collapsing, governments will soon become the spenders of first and only resort as fiscal deficits surge. The financial crisis has already become global as financial links transmitted US shocks globally. The overall credit losses are likely to be close to a staggering $2,000bn. Thus, unless financial institutions are rapidly recapitalised by governments the credit crunch will become even more severe as losses mount faster than recapitalisation.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008 20:51:00 BRST  

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