sábado, 1 de novembro de 2008

Idéias mortas (01/11)

Escrevi meses atrás sobre um fato intrigante: a omissão, pelos políticos, de certas idéias nos períodos eleitorais. Está em Pensamento único de sinal trocado. Um trecho:

O elitismo, de todos os matizes políticos, foi derrotado pelos fatos. E a prova é que vivemos um período de pensamento único, só que de sinal trocado. Não há hoje político que dispense de seu discurso a ênfase nos programas sociais. Melhor ainda: não há político que, no poder, abra mão de praticar algum tipo de assistencialismo. Se isso é bom ou ruim, trata-se de uma discussão para acadêmicos. E os há para todos os gostos. Na vida real, entretanto, do Democratas ao PCdoB, passando pelos criadores do “bolsa esmola”, só o que se vêem são candidatos prometendo gastar mais e mais dinheiro com os pobres. Repassando renda ou investindo em serviços públicos.

Tem também Quando o antipopulismo encontra a vida real. Veja só:

Em Brasília, o discurso da oposição é antipopulista, anticlientelista e antipaternalista. Esses “anti” são por ela apresentados como a síntese da modernidade. Mas na cidade de São Paulo, governada pelo Democratas em parceria com o PSDB, toda mãe que dá à luz em hospital da rede pública ganha da prefeitura de presente um enxovalzinho para o bebê. É uma coisa bem bacana. É um sinal de respeito e consideração do estado (no caso o município) para com a cidadã, seu bebê e sua família. O programa chama-se “Mãe paulistana”, e claro que não se limita a isso. Ou seja, você deve levar apenas até certo ponto em consideração o que os políticos dizem. Mais importante é prestar atenção no que eles fazem. É por isso também que a situação da nossa oposição talvez não seja tão ruim. Quando chegar novamente o tempo da eleição, a oposição dificilmente vai repetir o erro do ano passado. Ela certamente vai mandar os antifiscalistas [leia o post acima para ver que há contestações ao meu usso dessa palavra], os redutores do estado e os histéricos do "anti" catarem coquinho. Vai cuidar de tentar ganhar o voto das pessoas comuns. Ainda bem. Para ela.

Gilberto Kassab fez com competência o que eu havia previsto nessas últimas linhas (o texto tem um ano): venceu em São Paulo e manteve o Democratas na linha de frente da política brasileira. Quem acompanhou, percebeu que o candidato de José Serra passou longe de conceitos como a redução de gastos públicos ou a privatização de ativos da Prefeitura. Isto é que é bom na política: o instinto de sobrevivência leva o bom político a farejar a quilômetros o (mau) cheiro das idéias mortas, em decomposição. Já os ideólogos vivem situação oposta: como retiram sua força não dos votos, mas da solidez do discurso, precisam agarrar-se às próprias idéias, ainda que estas estejam a caminho do túmulo. Amiúde, preferem ser enterrados com elas. De um texto que despertou aqui alguma polêmica há pouco mais de dois anos (Abaixo a coerência):

A doença mais terrível no intelectual é a necessidade patológica de estar sempre certo. É também a que provoca mais sofrimento nele. Manifesta-se com mais gravidade no intelectual formal, o que faz carreira universitária, escreve livros, dá palestras. E que, além de tudo, precisa que o "estar certo" de hoje faça sentido à luz do que já "esteve certo" lá atrás. Os intelectuais formais são, por assim dizer, os oficiais na guerra das idéias. Já os jornalistas-intelectuais (uma redundância) são os soldados rasos. Um general pode ganhar uma batalha, e mesmo a guerra, ainda que perca muitos de seus soldados. Já estes precisam estar sempre atentos à possibilidade de a morte cruzar seu caminho. Pois correm o risco de virar um registro no monumento à vitória ou no túmulo do soldado desconhecido.

Troque "jornalistas-intelectuais" por "políticos" e está valendo. Mas vamos em frente. Dois textos sensacionais do The New York Times, um de ontem e um de hoje, apontam o principal risco presente no cenário econômico americano: de que a confiança do consumidor tenha sofrido um abalo de proporções sísmicas. O que poderá levar num primeiro momento à deflação e depois à depressão crônica. Da edição de hoje do NYT (Specter of Deflation Lurks as Global Demand Drops):

As dozens of countries slip deeper into financial distress, a new threat may be gathering force within the American economy — the prospect that goods will pile up waiting for buyers and prices will fall, suffocating fresh investment and worsening joblessness for months or even years. The word for this is deflation, or declining prices, a term that gives economists chills. Deflation accompanied the Depression of the 1930s. Persistently falling prices also were at the heart of Japan’s so-called lost decade after the catastrophic collapse of its real estate bubble at the end of the 1980s — a period in which some experts now find parallels to the American predicament. “That certainly is the snapshot of the risk I see,” said Robert J. Barbera, chief economist at the research and trading firm ITG. “It is the crisis we face.” With economies around the globe weakening, demand for oil, copper, grains and other commodities has diminished, bringing down prices of these raw materials. But prices have yet to decline noticeably for most goods and services, with one conspicuous exception — houses. Still, reduced demand is beginning to soften prices for a few products, like furniture and bedding, which are down slightly since the beginning of 2007, according to government data. Prices are also falling for some appliances, tools and hardware.

Leia a reportagem completa. É isto: o espectro da deflação espreita enquanto cai a demanda global. E o que fazer? Um caminho razoável está exposto no belíssimo artigo de hoje do Prêmio Nobel Paul Krugman no mesmo NYT (When Consumers Capitulate). Ele começa assim:

The long-feared capitulation of American consumers has arrived. According to Thursday’s G.D.P. report, real consumer spending fell at an annual rate of 3.1 percent in the third quarter; real spending on durable goods (stuff like cars and TVs) fell at an annual rate of 14 percent. To appreciate the significance of these numbers, you need to know that American consumers almost never cut spending. Consumer demand kept rising right through the 2001 recession; the last time it fell even for a single quarter was in 1991, and there hasn’t been a decline this steep since 1980, when the economy was suffering from a severe recession combined with double-digit inflation. Also, these numbers are from the third quarter — the months of July, August, and September. So these data are basically telling us what happened before confidence collapsed after the fall of Lehman Brothers in mid-September, not to mention before the Dow plunged below 10,000. Nor do the data show the full effects of the sharp cutback in the availability of consumer credit, which is still under way. So this looks like the beginning of a very big change in consumer behavior. And it couldn’t have come at a worse time. It’s true that American consumers have long been living beyond their means. In the mid-1980s Americans saved about 10 percent of their income. Lately, however, the savings rate has generally been below 2 percent — sometimes it has even been negative — and consumer debt has risen to 98 percent of G.D.P., twice its level a quarter-century ago. Some economists told us not to worry because Americans were offsetting their growing debt with the ever-rising values of their homes and stock portfolios. Somehow, though, we’re not hearing that argument much lately.

Leia o artigo completo. Registre-se a observação de Krugman de que a crise de liquidez nos mercados financeiros se acoplou a um declínio, preexistente, de confiança do consumidor. Declínio que portanto não foi desencadeado pela crise de liquidez, mas provavelmente pelo excesso de endividamento e pela escassez de poupança das pessoas e das famílias. Aproveito para recordar novamente o trecho de Um mundo cada vez mais perigoso:

A economia dos Estados Unidos tomou um tranco porque o país mais rico do mundo não produz riqueza suficiente para, simultaneamente, 1) alimentar o altíssimo nível médio de consumo de seus cidadãos, 2) manter uma máquina militar atuante e capaz de garantir sua hegemonia planetária na era das guerras assimétricas e da emergência de múltiplos países candidatos a potência e 3) poupar e captar poupança suficiente para alavancar um crescimento sustentado. Há quem busque as explicações para a crise na esfera da circulação e das finanças. Eu, que não sou especialista, prefiro enveredar pela observação da produção e do estado da economia nacional da superpotência.

Mas vamos voltar ao texto do Krugman:

Some background: one of the high points of the semester, if you’re a teacher of introductory macroeconomics, comes when you explain how individual virtue can be public vice, how attempts by consumers to do the right thing by saving more can leave everyone worse off. The point is that if consumers cut their spending, and nothing else takes the place of that spending, the economy will slide into a recession, reducing everyone’s income. In fact, consumers’ income may actually fall more than their spending, so that their attempt to save more backfires — a possibility known as the paradox of thrift. At this point, however, the instructor hastens to explain that virtue isn’t really vice: in practice, if consumers were to cut back, the Fed [Federal Reserve, banco central americano] would respond by slashing interest rates, which would help the economy avoid recession and lead to a rise in investment. So virtue is virtue after all, unless for some reason the Fed can’t offset the fall in consumer spending. I’ll bet you can guess what’s coming next.

Ou seja, se cai a confiança do consumidor, a redução dos juros pode servir de antídoto. A não ser que:

For the fact is that we are in a liquidity trap right now: Fed policy has lost most of its traction. It’s true that Ben Bernanke hasn’t yet reduced interest rates all the way to zero, as the Japanese did in the 1990s. But it’s hard to believe that cutting the federal funds rate from 1 percent to nothing would have much positive effect on the economy. In particular, the financial crisis has made Fed policy largely irrelevant for much of the private sector: The Fed has been steadily cutting away, yet mortgage rates and the interest rates many businesses pay are higher than they were early this year. The capitulation of the American consumer, then, is coming at a particularly bad time. But it’s no use whining. What we need is a policy response. The ongoing efforts to bail out the financial system, even if they work, won’t do more than slightly mitigate the problem. Maybe some consumers will be able to keep their credit cards, but as we’ve seen, Americans were overextended even before banks started cutting them off.

Em resumo, o Banco Central perde "capacidade de tração" em meio a uma crise de liquidez. Se não há confiança, de pouco ou nada adianta (só) baixar os juros. Como o próprio Krugman lembra novamente, o Japão atravessou uma década de recessão com juro baixo. O que fazer, então? A conclusão de Krugman, simples e irrepondível:

No, what the economy needs now is something to take the place of retrenching consumers. That means a major fiscal stimulus. And this time the stimulus should take the form of actual government spending rather than rebate checks that consumers probably wouldn’t spend. Let’s hope, then, that Congress gets to work on a package to rescue the economy as soon as the election is behind us. And let’s also hope that the lame-duck Bush administration doesn’t get in the way.

Ou seja, numa situação em que a crise de confiança do consumidor se junta a uma crise de liquidez, pouco adianta colocar dinheiro na mão das pessoas. Elas não vão gastar. O medo vai levá-las a poupar. A saída é aumentar o investimento público para destravar a roda da economia. Parece razoável. Se você tem elementos para contestar o Krugman, faça-o por favor. Mas se você está apenas interessado em provar que continua 100% certo, contra todos os fatos e argumentos, por favor não queira nos levar junto com você para o túmulo. Não temos vocação para mulher de faraó. Nós precisamos que a economia ande, pois temos contas a pagar no fim do mês. E leia também Hora de gastarEstou pronto a apoiar e O Brasil (governo) deveria se endividar mais?.

PS: Gente reclama que ponho aqui textos em inglês. Faça como eu: use dicionários e tradutores online. Uma boa ferramenta de tradução é o Google Tradutor. É só copiar e mandar traduzir. Veja por exemplo como ficou a tradução do último trecho citado do artigo do Krugman:

"Não, aquilo que a economia precisa agora é algo para tomar o lugar de retrenching consumidores. Isso significa um grande estímulo orçamental. E desta vez, o estímulo deve assumir a forma atual de gastos públicos em vez de abatimento verifica que os consumidores provavelmente não iria gastar. Vamos esperar, então, que o Congresso começa a trabalhar em um pacote para salvar a economia, logo que a eleição está atrás de nós. E vamos também espero que o pato-manco administração Bush não ficar no caminho."

Admito que é meio tosco. Mas funciona.

http://twitter.com/alonfe

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6 Comentários:

Anonymous the talk of the town disse...

A armadilha da liquidez é um dos grandes problemas das ciencias economicas: http://en.wikipedia.org/wiki/Liquidity_trap

Ainda nao temos respostas diretas assim, como vc colocou (estimulo fiscal basta). Nao foi o caso de 1929, qdo a economia real desmoronou. Aqui o problema é financeiro, e por derivação atinge a economia real. Nao sabemos qto, nem por qto tempo.

A verdade é que as inovaçoes no mercado financeiro, ineguavelmente, permitiram atenuar as curvas dos ciclos economicos. Nunca tivemos um ciclo tao longo de crescimento.

Agora, estamos no escuro sem perpesctiva de luz. Qto tempo vai demorar pra nos recuperarmos? Os estimulos fiscais realmente terao o poder de recuperar a economia apos tantos anos de atrofia do governo? O governo ainda sabe gastar? Qdo tivermos taxas de juros negativas em diversos paises (já temos nos EUA) o que mais restara? O panico?

Entao, acho que, principalmente os jornalistas (que por obrigaçao nao podem ser especialistas em nada) deveriam hj, fazer como muita gente boa na economia esta fazendo, aceitando que a unica certeza é que existe um grande, enorme, gigantesco ponto de interrogaçao sobre o futuro da economia global.

PS.: Lembra qdo o PAC foi lançado e demorou mais ou menos 1 ano pra "pegar no breu"? E em algumas areas (saneamento, ferrovias, etc) ate hoje ainda nao decolou? Minha visão é que poucos governos ainda sabem gastar, vai levar tempo para reaprenderem, e será que até lá, no longo prazo, não estaremos todos mortos?

Abraços,

sábado, 1 de novembro de 2008 16:11:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Intuo, não sei bem porque, que ao lançar de luva deste post NÃO se sucederão nem visita dos padrinhose nem escolha de armas e local. Parece-me que, nas planícies de Michigan ou nos vetustos edifícios da PUC-Rio, os sabres andam ensarilhados e os bacamartes passam por limpeza e limagem. Na FSP de hoje, p. ex.,Gustavo Franco reivindica a herança do lorde alegre!!
Talvez seja só impressão, mas é forte como ela só...

sábado, 1 de novembro de 2008 19:47:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Textos em ingles é uma atitude elitista, hehehe.

Voce disse "só o que se vêem são candidatos prometendo gastar mais e mais dinheiro com os pobres". A questão é que as classes A, B e C são numerosas. Muitos votos.

Se um dia o voto deixar de ser obrigatório, esses potenciais eleitores votarão menos. Logo as promessas serão diferentes.

domingo, 2 de novembro de 2008 02:53:00 BRST  
Anonymous Vera disse...

O objetivo desse post é posicionar-se como um "intelectual", isto é, aquele que está sempre certo?

domingo, 2 de novembro de 2008 14:05:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Tenho 50 anos. Na primeira metade deles ouvia/lia que as pessoas deviam poupar e o Estado a usava para investir. Agora, ouço/leio que as pessoas devem consumir e que sem consumo não há salvação. Na minha modesta opinião, produz-se e consome-me muita tranqueira. Para mim, essa crise veio como freio de arrumação. E vai servir para alguma coisa. Ah, vai.

domingo, 2 de novembro de 2008 18:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Três observações:

1)Antifiscalista está posto no seu texto como sinônimo de "antiimposto". Não sei se o sentido é esse mesmo.

2) A direita no Brasil sempre foi populista do ponto de vista fiscal.

3) Dois ícones do liberalismo fizeram políticas fiscais expansionistas: Ronald Reagan, que aumentou o deficit fiscal americano, e Margareth Thatcher.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008 11:14:00 BRST  

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