segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Heterodoxia arriscada (04/11)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Vive-se a situação típica que antecede grandes guerras. Todos podem ser aliados de todos, assim como todos podem ser adversários de todos. Daí que a posição do governo seja de risco

Por Alon Feuerwerker
alonfeuerwerker.df@diariosassociados.com.br

O Palácio do Planalto está na iminência de fazer uma manobra heterodoxa: trazer para ele a coordenação política da sucessão nas Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado e, simultaneamente, apagar as linhas divisórias entre situação e oposição no processo. Se der certo, a operação ficará como demonstração de habilidade política e poder de fogo. Se não der, o fracasso abrirá um rombo no casco governista.

O presidente da República apreciará se o petista Tião Viana (AC) herdar a posição de Garibaldi Alves (PMDB-RN) no comando do Senado. Legítimo. O problema é que uma vitória de Viana depende principalmente do apoio do PMDB, que tem a maior bancada de senadores e por isso, teoricamente, possui a prerrogativa de indicar um dos seus. Daí que algum bem-intencionado nas hostes governistas tenha tido a idéia lá atrás: “Vamos pressionar, vamos condicionar a eleição do Michel Temer (PMDB-SP) na Câmara à aceitação do Tião pelo PMDB no Senado.

Talvez tenha sido um mau passo colocar as coisas assim, pois o PMDB do Senado, como já se escreveu aqui por vezes, é adversário do seu congênere da Câmara. Para usar a terminologia brasiliense, os senadores do PMDB não estão confortáveis com a possibilidade de precisar comer pela mão de Temer. Desconfiam que o jogo assim armado vai abrir uma avenida para serem marginalizados na disputa partidária. Ficariam por exemplo, segundo seus temores, numa posição coadjuvante para discutir e negociar as alianças estaduais e nacional daqui a dois anos.

Para piorar, esse roteiro colocou o governo, que não havia sido chamado para a encrenca, como padrinho de Temer contra as supostas resistências dos senadores do partido dele. Resistências que aliás nunca houve. Não se sabe de senador peemedebista que esteja contra a eleição do presidente do PMDB para o comando da Câmara. Ou de senador que queira, agora, meter-se na sucessão de Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Como se rolo pouco fosse bobagem, alguém do governo teve a segunda grande idéia: espalhar que o Planalto está disposto a dar uns cargos aos senadores do PMDB em troca da submissão. Foi uma péssima sinalização, criou o constrangimento público de carimbar o PMDB do Senado como fisiológico, enquanto o da Câmara mereceria, do governo e do PT, um tratamento mais, digamos, partidário. Como dois anos atrás, no acordo entre as siglas que sacramentou a seqüência Chinaglia-Temer.

A terceira idéia heterodoxa foi o PT do Senado acenar com a possibilidade de, enrolado na bandeira da ética, unir-se à oposição (inclusive à dissidência peemedebista) para derrotar o PMDB. Se o próprio governo e o partido do presidente da República colocam a coisa nesses termos, o PMDB pode fazer o cavalo de pau ele próprio, unindo-se ao PSDB e ao DEM para derrotar o Planalto. Com toda a legitimidade.

Uma decorrência será entregar à oposição o papel de tertius no Senado, vitaminando o cacife de tucanos e democratas. Ambos ficariam na confortável situação de poder rascunhar seus melhores cálculos sobre o pior cenário possível para Lula — e para os planos deste de eleger o sucessor daqui a dois anos.

Uma parte da oposição pensa ser preferível fortalecer o PMDB, especialmente se isso tonificar as relações políticas do oposicionismo com o peemedebismo. Outra turma rumina algo mais sofisticado: por que não ajudar o governo a derrotar um aliado do governo? Isso já aconteceu quando o PSDB deu os votos decisivos para que Chinaglia impedisse a reeleição de Aldo Rebelo (PCdoB-SP) em 2007, numa manobra política cujo resultado mais visível foi o surgimento do bloco de esquerda e a cisão na Central Única dos Trabalhadores (CUT).

O certo é que se vive, nas palavras de um deputado federal das antigas, a situação típica que precede grandes guerras. Todos podem ser aliados de todos, assim como todos podem ser adversários de todos. Daí que a posição do governo seja de risco. Ao se apagarem os limites entre situação e oposição, transforma-se a sucessão das Mesas do Congresso numa caixinha de surpresas e num caldo de cultura para todo tipo de ressentimento.

Eis por que a candidatura alternativa do deputado Ciro Nogueira (PP-PI) vem obtendo oxigênio surpreendente nos últimos dias.

http://twitter.com/alonfe

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2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, a constituição da CTB - Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil - não tem relação de causa e efeito com a eleição da Mesa da Câmara. Seria até esquisito um imbróglio parlamentar repercurtir no movimento sindical.

A versão de que a CTB teria sido uma reação a eleição da Mesa é, na verdade, uma versão que a cúpula da CUT tenta difundir, para jogar cortina de fumaça nas reais divergências que deram origem á cisão.
Nivaldo Santana

terça-feira, 4 de novembro de 2008 20:08:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, gostária de um comentário sobre a INDEPENDENCIA dos três poderes, o executivo (lula) já indicou oito dos onze Ministros do STF e agora quer escolher os presidentes da Camara e do Senado, aonde é que fica a independenci?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008 10:15:00 BRST  

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