terça-feira, 11 de novembro de 2008

Guinada (11/11)

Conversava com um amigo ontem sobre os compromissos de Barack Obama, especialmente os mais difíceis de cumprir. Que crise financeira que nada. Alguma hora, ainda neste mandato do democrata, a máquina econômica da superpotência vai voltar a acelerar. O mundo não vai acabar. Resta o desafio de saber quem vai sobreviver para enxergar a luz no fim do túnel. Pelo visto, o novo governo americano vai radicalizar o pacote de socorro financeiro, estendendo-o à indústria, começando pela automobilística. Outra promessa fácil de cumprir é a saída do Iraque. Basta declarar vitória e cair fora. Um conselho que presidentes americanos ouviram na época do Vietnã e ao qual não deram o devido valor. A questão é saber se, depois do good bye, o Iraque sobreviverá como um único país. Sem a intervenção externa, as pressões internas para que xiitas, curdos e sunitas se separem precisarão encontrar um contrapeso adequado. O Iraque é uma criação do colonialismo britânico vitorioso sobre o Império Otomano na Primeira Guerra Mundial. Só Saddam Hussein e o poderio bélico americano (cada um a seu tempo) mostraram capacidade de manter o Iraque unido, sempre na base da força. Duvido que não haja quem, em Washington, esteja a especular com uma solução para o Iraque nos moldes da fórmula que os britânicos adotaram quando a Índia conquistou a independência. Dividiram-na em dois e permitindo o nascimento do Paquistâo. A calorosa e fraternal amizade desde então entre indianos e paquistaneses é um forte indício de como teria sido viável unir as duas turmas pacificamente num único país (isso foi uma ironia). Leia O Versailles sérvio e a balcanização do Iraque, de janeiro de 2007. Há entretanto um grande obstáculo a que os Estados Unidos vejam com bons olhos a pulverização iraquiana. Num cenário assim, o inevitável nascimento de um país curdo teria forte impacto na Turquia, membro da Otan e "hospedeiro" de uma minoria curda que não vê a hora de dar adeus à hospitalidade de Istambul. Por isso é provável que Washington busque um arranjo em que Síria, Irã e Turquia assumam a responsabilidade de garantir a estabilidade do Iraque e não permitam que a coisa ali descambre para uma guerra civil. Ainda que a solução seja operacionalmente duvidosa. Mas, com os americanos longe, isso não mais será problema deles. E o Oriente Médio continuará sua saga de conflitos aparentemente intermináveis. Difícil mesmo será Obama cumprir sua promessa de vencer a guerra no Afeganistão. Será que é possível alguém de fora vencer uma guerra no Afeganistão? Os britânicos não conseguiram. Os soviéticos não conseguiram. Os americanos, pelo jeito, vão no mesmo caminho. Você duvida? Dê uma olhada neste texto do Council of Foreign Relations, publicado no site do The Washington Post: A Tribal Strategy for Afghanistan. As estratégias possíveis desenhadas pelo Pentágono para conter a insurgência afegã incluem algum tipo de reconciliação com o Talibã e a distribuição de poder para chefes tribais, além de buscar a cooperação com o Irã e, naturalmente, com o Paquistão. A política externa americana, incluindo as guerras conduzidas pelos Estados Unidos, prepara uma guinada daquelas. É o que já se desenhava no discurso da vitória de Barack Obama. É bom ficar de olho. Talvez Obama queira ser Franklin Delano Roosevelt em outras esferas, e não só na economia.

http://twitter.com/alonfe

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4 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

E o presidente Obama tem outra alternativa? Não tem, a não ser que queria se afundar mais que o Bushinho se afundou.

terça-feira, 11 de novembro de 2008 22:24:00 BRST  
Anonymous Artur Araujo disse...

Para bulir com afegãos é melhor primeiro consultar os registros do Raj e as efemérides do Exército Vermelho.

terça-feira, 11 de novembro de 2008 23:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Uma questão interessante é saber como repatriar os soldados que estão em combate no Afganistão e no Iraque. Levá-los para um país em recessão, com consequente desemprego em alta, problemas de moradia, problema com os planos de saúde etc. Milhares de pessoas treinadas para a guerra perambulando pelas ruas não parece compor um cenário muito agradável. Se Obama resolver tal equação, estará mais do que consagrado. Tomara.

Swamoro Songhay

quarta-feira, 12 de novembro de 2008 11:46:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Interessante as observações! Talvez sim, a economia americana volte a decolar por si mesma, ou com alguma ajuda chinesa. Porém, a criação de um Estado Curdo também pode afetar o Irã! Ademais, a Turquia poderá tbm ser considerada um problema da UE... e danem-se eles!
O Anônimo levantou uma questão interessante. Obama disse que pode sair do Iraque em 16 meses, pode ser este o tempo das coisas começarem a dar melhorar por lá, antes dos soldados (muito elogiados no discurso da vitória) retornarem "vitoriosos".

quarta-feira, 12 de novembro de 2008 15:18:00 BRST  

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