sexta-feira, 14 de novembro de 2008

À espera da tempestade - ATUALIZADO (13/11)

Administrar por conflitos é o método habitual de Luiz Inácio Lula da Silva. A coisa funciona sempre do mesmo jeito: estimulam-se as disputas internas até o limite em que um ponto de vista neutraliza o oposto. Então, com boa dose de naturalidade, o presidente endossa o lado vencedor. O método tem o mérito de reduzir o desgaste presidencial. Já se disse que o poder é como um salame. Cada fatia que você corta faz o salame ficar um pouco menor. A cada decisão tomada, perde-se um pouco de poder.

Não decidir, ou fingir que você não decide, é ferramenta poderosa para tentar adiar a chegada do dia em que você será olhado pelos outros com descaso, com aquela indiferença reservada aos governantes cuja força se esvaiu. Justiça se faça a Lula: cuidar de preservar o próprio poder é tarefa intransferível do príncipe. Daí por que nosso presidente não está sozinho no método. A regra é universal. Fernando Henrique Cardoso era mestre nisso.

Acontece que a realidade de vez em quando prega suas peças. Há situações em que não fazer nada passa a implicar alto risco, suficientemente alto para justificar o abandono da inação. Há ocasiões em que o cenário vira de ponta-cabeça e cabe ao príncipe, na solidão do poder, indicar resolutamente para onde a proa do barco deve ser virada.

Lula foi um bom presidente nos anos de bonança mundial. O país caminhou com inflação baixa, crescimento razoável e programas sociais eficientes. O desempenho positivo permitiu a Lula acumular gordura necessária para enfrentar e vencer graves crise políticas e, principalmente, para alcançar a reeleição. Qual é o problema então? É que a realidade mudou. Todos os sinais são de que a crise financeira planetária alcançará a esfera da produção como a segunda onda de um portentoso tsunami.

As perspectivas da economia real são lúgubres, para usar a expressão do economista que mais tem acertado previsões neste furação, Nouriel Roubini. A palavra está no artigo que ele postou terça-feira no seu site, www.rgemonitor.com. Ele afirma que as perspectivas de uma curva recessiva em V (queda abrupta e recuperação rápida) nos Estados Unidos, com contração econômica de seis a oito meses, já ficaram para trás. Ainda segundo Roubini, uma curva em U, que significa recessão de 18 a 24 meses, é hoje uma certeza, sendo que cresce a probabilidade do pior cenário: recessão em L, de vários anos, como a do Japão nos anos 90 do século passado.

E o que isso tem a ver com o costumeiro fingir-se de morto de Lula? É que vai chegando a hora (se é que já não chegou) de o presidente resolver a interminável pendenga entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central. A divergência é conhecida: o BC insiste em que o risco principal é inflacionário, enquanto a Fazenda reafirma que a ameaça maior é a desaceleração da economia.

Nos tempos da bonança, do capital abundante e do consumo em alta havia base material para as apreensões do BC. Com a bicicleta sendo pedalada a todo vapor, permitir um escape inflacionário poderia levar à indesejável reindexação da economia e à volta do espectro da superinflação. A resistência do BC às pressões por uma política monetária mais frouxa acabou resultando num longo período de preços contidos. O que rendeu grandes dividendos políticos ao presidente da República. O que, por sua vez, deu ao BC os músculos necessários para travar a luta dentro do governo e fora dele.

Mas, repito, o mundo mudou. O capital abundante virou poeira e os consumidores, pequenos e grandes, aqui e lá fora, pararam de pedalar a bicicleta. Em todo canto, o mundo real se volta para o Estado, à espera de investimentos que possam evitar o pior, que possam garantir a travessia menos dolorosa do vale da morte, seja ele em U ou em L. E aqui no Brasil só há uma fonte da qual o Estado pode beber confortavelmente: a conta de juros. É preciso que o Banco Central corte os juros na medida necessária para que sobre suficiente folga orçamentária para os investimentos.

E a inflação? Alguma haverá. Já está havendo por conta da desvalorização do real. Mas, se vamos mesmo ter inflação, que seja agora, quando os agentes econômicos encontrarão maiores dificuldades para repassar aos preços a alta dos custos. A febre virá, mas o governo terá melhores condições de fazer com que seja de curta duração. E Lula sempre poderá recorrer ao controle de preços, pelo menos nos produtos e serviços oligopolizados.

É o paraíso? Não. Mas pior mesmo será o inferno, que virá caso o Banco Central erre na mão e aperte a política monetária num quadro de desaceleração do consumo e da produção, o que poderá nos lançar, aí sim, no mais pavoroso dos mundos: baixo crescimento com inflação (dado o alto grau de concentração de nossa economia). Claro que Lula pode querer correr esse risco. Para o que não precisará fazer nada, apenas, como de hábito, deixar rolar. E esperar a chegada da tempestade.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Atualização, às 11:53 - Leia o artigo dehoje de Paul Krugman no The New York Times, Depression economics returns. Um trecho:

Finally, in normal times modesty and prudence in policy goals are good things. Under current conditions, however, it’s much better to err on the side of doing too much than on the side of doing too little. The risk, if the stimulus plan turns out to be more than needed, is that the economy might overheat, leading to inflation — but the Federal Reserve can always head off that threat by raising interest rates. On the other hand, if the stimulus plan is too small there’s nothing the Fed can do to make up for the shortfall. So when depression economics prevails, prudence is folly.

http://twitter.com/alonfe

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2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

E muita gente comum, os realmente no olho do furacão, esperará, ansiosamente, a hora de teclar as urnas eletrônicas.

Swamoro Songhay

sábado, 15 de novembro de 2008 10:49:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Isto se não houver feriado no meio, certo, anônimo!?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008 16:15:00 BRST  

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