domingo, 16 de novembro de 2008

Capitulação (16/11)

A reunião do G20 adotou uma posição frontalmente contra os interesses do Brasil, e isso será saudado pelo Brasil como um grande avanço. Segundo a Folha Online de hoje:

G20 decide retomar liberalização comercial para estimular negócios

Os líderes do G20 concordaram ontem em suspender, por um prazo mínimo de 12 meses, a adoção de qualquer nova barreira comercial em seus mercados como forma de estimular as transações entre os países. No documento conjunto divulgado após a cúpula realizada em Washington, os chefes de Estado também se comprometeram a acelerar as negociações da Rodada Doha para a liberalização do comércio global.

Veja as principais decisões. George W. Bush conseguiu emplacar na reunião a idéia de que um comércio mais livre é o caminho para enfrentar a crise mundial. Luiz Inácio Lula da Silva bateu palmas e foi de carona, ainda que vá apresentar as conclusões do conclave dos patos mancos como obra dele. E até certo ponto foi mesmo. Como já tratado neste blog, a política externa brasileira nos últimos tempos anda fissurada por resolver um problema: encontrar mercado para o nosso encalhado etanol. Lula está metido até o pescoço nos negócios do etanol e precisa abrir caminho para os empresários que confiaram nele e se enfiaram na empreitada. Bem, talvez não seja totalmente correto dizer que a diplomacia brasileira está restrita a isso. Uma definição melhor é que a política externa brasileira orienta-se principalmente pela busca de compradores para nossas commodities, para nossos produtos de origem agrícola, primários ou semi-industrializados. Já era assim antes mesmo de as commodities despencarem por causa da crise planetária das finanças (que já não é só das finanças). Para conseguir isso, o governo brasileiro topa abrir generosamente as portas, inclusive na esfera das compras governamentais. Considerando que o PT passou anos atacando a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), é uma guinada e tanto, não acham? Greta Garbo, quem diria?, acabou no Irajá. Lula está cada vez mais parecido com Fernando Henrique Cardoso. Uns dirão que é realismo. Outros, como eu, que é capitulação. Se nossa ambição para o século 21 for só isso, transformarmo-nos em fornecedores de matéria-prima para os países desenvolvidos e para os emergentes mais ciosos de seu projeto nacional (China, com sua indústria, Índia, com seus serviços, Rússia, com seu poderio militar), tadinhos de nós. Mas somos um país de sorte. Essa reunião do G20 daqui a pouquinho terá caído no vazio. Barack Obama, por exemplo, prometeu estimular as empresas que ajudem a criar empregos nos Estados Unidos. E punir as que ajudarem a criar empregos fora dos Estados Unidos. Outro ponto da plataforma de Obama: investir 150 bilhões de dólares em energia limpa, para criar alguns milhões de postos de trabalho. Ele vai defender o etanol de milho. Prenunciam-se tempos (mais) difíceis para o etanol brasileiro nos Estados Unidos. Uma coisa boa é que 2010 está logo aí: quem sabe elegemos um presidente (ou presidenta) que se preocupe com os empregos brasileiros como Obama se preocupa com os americanos? Eu aposto que os patos mancos voltarão de Washington para seus países cantando vitória por causa dos resultados do G20. Mais ou menos como o então primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, quando chegou em casa após ter celebrado o Pacto de Munique em 1938. Clique na foto dele, no alto, para saber mais.

http://twitter.com/alonfe

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11 Comentários:

Anonymous Artur Araujo disse...

Alon, acho que vc está contaminado por mau humor e pessimismo. A moratória de 12 meses de novas barreiras é mais benéfica para nós que para os EUA ou a CE. Compras governamentais, ao contrário do que vc afirma, não fazem parte da pauta brasileira, são uma demanda do Norte e que o governo e o Itamaraty nunca aceitaram. E a reunião me surpreendeu ao adotar uma resolução muito mais incisiva e detalhada do que o habitual em cúpulas. Gerou uma pauta positiva a ser perseguida e baseou-se em conceitos e critérios anti-cíclicos e intervencionaistas, desinterditando o debate econômico.

domingo, 16 de novembro de 2008 20:52:00 BRST  
Anonymous Carlos Caldas disse...

Caro Alon,

Acho que você ainda vai se decepcionar
muito com o Obama. Ele é apenas mais um que vai defender os interesses da elite. E sua política de maior intervenção do governo vai apenas acelerar a recessão que está por vir nos USA (sim, fundo é bem mais embaixo...). Não adianta dizer isso e aquilo mas não ter dinheiro pra fazer. Durante sua campanha ele não falou sobre nenhum corte significativo nas agências governamentais, pior pretende extender os gastos das mesmas. O melhor candidato é sempre negligenciado... procure por Ron Paul e saiba porque ele é que deveria ter sido eleito.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008 07:19:00 BRST  
Anonymous Artur Araujo disse...

Ron Paul?! Fico impressionado com a ideologização do debate. Os fatos mais que provam a falência da falácia liberal, responsável única pelo colapso, e ainda os há que persistem na cantilena "liberal libertária". A piada é velha, mas aplicável: "malditos fatos que não se encaixam no meu modelo".

segunda-feira, 17 de novembro de 2008 09:20:00 BRST  
Blogger Richard disse...

NUM BRINCA Q VC ACHA MESMO Q LULA TÁ ERRADO!?!?1 É vc mesmo quem escrevendo!?!?!?! Finalmente estamos falando a mesma lingua!!! A imprensa em geral segue no oba-oba (ou Obama-Obama), como o dois que já comentaram, enquanto a situação vai se deteriorando.
Seria uma benção termos um candidato com idéias em 2010, só que esta pessoa já deveria ter surgido no cenário nacional, certo!?!?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008 13:00:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Não faltaram alertas sobre a apreciação permitida do R$, o diferencial de juros internos versus juros externos e o déficit em contas correntes. Hoje apresentam-se como fatores de pressão negativa sobre o desempenho da economia brasileira em um cenário onde há escassez de recursos internacionais. As fragilidades, já existentes e alertadas,foram desnudadas com a crise não só para o Brasil. Talvez pudessem ter sido corrigidas antes. Tomara que não, mas a busca por mercados será ainda mais acirrada nos próximos anos.

Swamoro Songhay

segunda-feira, 17 de novembro de 2008 15:34:00 BRST  
Anonymous Carlos Caldas disse...

Caro Artur,
Se você acha que estamos na crise por causa de um modelo liberal está enganado. Acho que o fato do governo americano ter feito de tudo para facilitar empréstimos e hipotecas após a bolha da Nasdaq tem só um pouquinho a ver com isso. Fora o fato de estarem imprimindo dólares e mais dólares gerando uma inflação mascarada pelo tratado de Bretton Woods. Ou seja, a crise foi causada exatamente pela inteligentissima intervenção do governo que apenas pensa em como segurar a economia até a próxima eleição e entregar a bomba para o sucessor. Foi assim em 1929 e vai ser assim agora, só que talvez muito pior...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008 17:41:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Caro Caldas, se não foi o liberalismo desbragado a origem da crise, teremos que crer em bruxas. O governo dos EUA, em típica postura hooveriana, assistiu de camarote as sucessivas bolhas se formarem (dotcom, sub-prime, derivativos de derivativos, para não falar de Rússia e Sudeste Asiático, mais atrás), sorrindo alvarmente, deliciado com o livre mercado de capitais. Seus colegas ingleses pareciam ter encontrado o South Seas Bubble sem efeitos colaterais.
O déficit gêmeo tinha e tem como lastro a outra ficção liberal: o capital financeiro não só substitui como é de caráter "superior" ao capital produtivo. Ao deter o monopólio da moeda, os EUA, em uma aparente transgressão do cânone (estado mínimo de budget equilibrado), transformam seus déficits orçamentário e de balanço de pagamentos em superávits financeiros via emissão e venda de títulos do Tesouro.
Como tanto as operações do governo como dos capitalistas ocorrem no mundo virtual da finança, totalmente dependente da confiança recíproca dos agentes, quando o Lehman tremeu o castelo de cartas desabou. A lógica dos "Estados pouco estatais", filha dileta do liberalismo, pegou-os a todos de calças curtas e os fez recorrer de imediato ao receituário keynesiano. O rei ficou nuzinho.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008 19:07:00 BRST  
Anonymous Carlos Caldas disse...

Caro Artur,
Como estamos em posições contrárias ao assunto se concordo com tudo que disse? Tudo o que falou é a mais pura verdade. Porém você acha que uma maior intervenção do estado irá curar a doença? No mercado sempre houveram aqueles que são ávidos por riscos, porém nos tempos remotos esses eram obrigados a enfrentar as consequencias de seus atos. Assim, o mercado sempre enfrenta ciclos de euforia e recessão mas normalmente em média leva a uma curva de crescimento ponderado.

Porém quando os governos intervêem impedindo que os mercados corrijam seus erros, enfrentando a recessão quando necessário, estes artificialmente garantem a retomada do crescimento baseando-se em dívidas e treasures. Isso apenas aumenta a bolha que acaba estourando como uma crise maior. Esta é a situação hoje e vai ficar muito pior uma vez que é só a ponta do iceberg.

Nosso amigo Obama tem boas idéias para educação e etc. No entanto, todas elas precisam de dinheiro, muito dinheiro para serem executadas. Aparentemente ele esqueceu que está num estado falido. Se ele não cortar gastos governamentais, principalmente militares, vai apenas afundar ainda mais sua economia de consumo. Infelizmente ele chegou alguns anos atrasado no poder.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008 19:37:00 BRST  
Anonymous Carlos Caldas disse...

P.S.: Quando disse que concordava com tudo o que você expos, esqueci que defende a postura que o governo apenas ficou de braços cruzados ante as crises. Como disse anteriormente, o FED sempre esteve disposto a inundar o mercado com suas "reservas" (também conhecidas como dívidas) para amenizar as crises...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008 19:47:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Caldas, crer na correção virtuosa dos mercados por si e para si é não só nossa divergência de fundo como a gênese desta crise. O caráter cíclico, crítico e destruidor de forças produtivas é próprio do capitalismo, como o barbudo já identificava há século e meio.
Ainda que se possa admitir que o saldo da maioria das crises tenha sido um novo ciclo de acumulação, de média ponderada positiva, isso se dá às custas de perdas econômicas e sociais gigantescas. Um dos maiores exemplos da retomada pós-crise é a guerra. É um cenário de puro darwinismo, que só a intervenção estatal é capaz de evitar ou minorar, seja pela regulação antecipatória, seja por políticas anti-cíclicas de combate às mazelas resultantes.
A resposta estatal à insensibilidade social dos mercados é, antes de mais nada, a "rede de proteção" do capital, evitando que as vítimas das crises cíclicas transformem-se em inimigos militantes do capitalismo. Ford e Rockefeller sabiam muito bem do que Roosevelt os salvava.
O gasto estatal, por outro lado, não implica obrigatoriamente endividamento crescente ou emissão descontrolada. Vc se esquece da arma fiscal, seja pelas alíquotas, seja pelo próprio crescimento da base tributável que se dá na retomada do crescimento econômico induzido, com mais produção e mais consumo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008 23:17:00 BRST  
Anonymous Carlos Caldas disse...

Artur,
Muito interessante a sua visão, porém nela é considerado o governo ideal que regula o mercado como deveria. A realidade no entanto nos traz um governo repleto de interesses pessoais, políticas fiscais e econômicas irresponsáveis entre outras inúmeras mazelas.

Se um dia tivermos um governo realmente sério, o que acredito que um dia talvez seja possível com a democratização da informação trazida pela internet (no entanto o interesse popular é apenas pelo orkut e msn...), concordo que sua idéia procede. Porém enquanto os governos continuarem a desprezar o interesse econômico da nação como um todo, eu continuarei a preferir a regulação do livre mercado.

terça-feira, 18 de novembro de 2008 10:09:00 BRST  

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