terça-feira, 11 de novembro de 2008

Cada um por si (11/11)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Com o que você acha que Barack Obama vai gastar mais tempo quando puser os pés na Casa Branca: alternativas para uma nova engenharia institucional planetária das finanças ou idéias para criar empregos nos Estados Unidos?

Por Alon Feuerwerker
alonfeuerwerker.df@diariosassociados.com.br

A reunião do G20 no Brasil esgotou-se em declarações de intenções e na expressão de desejos voltados para um futuro melhor, para um porvir mais vacinado contra crises financeiras como a que hoje ameaça devastar a economia planetária. Era mesmo previsível que a tertúlia desse em quase nada: fica a cada dia mais evidente que uma “reforma civilizadora” do sistema global esbarra em dificuldades estruturais. A primeira — e mais importante — é a inexistência de quem possa impor às potências, especialmente à maior delas, mecanismos externos de controle sobre suas decisões nacionais. Não há como os ratinhos colocarem o guizo no pescoço do gato, ainda que o bichano pareça meio grogue.

Alguém acha, a sério, que os Estados Unidos vão admitir algum tipo de “supervisão internacional” sobre o seu mercado financeiro? Fala-se em reeditar Bretton Woods. Ali tratou-se simplesmente de entregar o comando do dinheiro mundial às autoridades americanas. Menos de três décadas depois, elas deram uma banana aos crédulos e mandaram avisar que não mais garantiriam a conversibilidade do dólar em ouro. O que aconteceu? Nada. Os protestos foram muitos, mas não havia quem pudesse fazer algo de prático a respeito.

Agora vai ser igual. Esgotados os discursos e os apelos piedosos por uma nova ordem econômica mundial, a vida real vai se impor. E todos irão esperar pelas medidas adotadas nos Estados Unidos para fazer girar novamente a roda do consumo. Aliás, com que tema você acha que Barack Obama vai gastar mais tempo quando puser os pés na Casa Branca (ou até antes): 1) as alternativas para uma nova engenharia institucional planetária das finanças ou 2) os planos para criar empregos nos Estados Unidos?

Quanto mais cedo os países acordarem para a realidade, melhor. A hora é, essencialmente, de cada um cuidar da própria casa. Cada um com os seus problemas. Ainda que o problema central de todos seja o mesmo: como evitar que a escassez de crédito e de confiança combinadas nos conduzam a uma recessão que pode evoluir para uma depressão, como prevêem os mais pessimistas (ou realistas).

Os mais otimistas, ou sonhadores, pedem avanços imediatos na liberalização do comércio mundial, na esperança de que isso ajude a criar fluxos comerciais que funcionem como antídoto à desaceleração dos negócios. Qual é a probabilidade de dar certo? Perto de zero. Com a imagem das vacas magras no horizonte, com os governos politicamente pressionados para proteger cada um o seu mercado, imaginar que vai ser dado agora algum passo real para eliminar barreiras protecionistas é sonhar de olhos abertos, é deixar-se embriagar pela esperança.

O realismo aponta para outro lugar. A hora é de os governos mobilizarem todos os recursos disponíveis para executar políticas anticíclicas em seus próprios países. Se o consumidor está sem crédito e com medo de perder o emprego, e se o breque no consumo leva as empresas a colocar o freio nos investimentos, é o hora de o governo entrar em campo. Não para distribuir dinheiro, que provavelmente ficaria empoçado, como diz o jargão. Mas para investir, para fazer encomendas às empresas, para que estas mantenham os empregos e para que, assim, o trabalhador-consumidor sinta um pouco mais de segurança para voltar a gastar.

O Brasil seguiu nos últimos tempos uma receita de sucesso na economia. Conseguimos reduzir o endividamento público, um dos focos da instabilidade crônica das décadas anteriores. A receita deu certo também porque havia capital abundante no mundo. Mas a realidade mudou. O dinheiro lá fora anda escasso, e nada indica que a bonança voltará rapidamente. Uma realidade nova pede uma nova política, que aumente para valer a capacidade de o Estado investir.

Luiz Inácio Lula da Silva está como o comandante de um transatlântico que precisa corrigir a rota. Mais acostumado a gastar com custeio do que a realizar investimentos, precisa tomar providências a tempo de escapar do iceberg. A ameaça é um cenário futuro de inflação alta com crescimento baixo, fórmula clássica de desmanche de governos no Brasil. Crescimento razoável e inflação baixa não apenas ajudaram Lula a sobreviver às crise políticas, garantiram também sua reeleição. É razoável projetar que um eventual baixo crescimento, combinado com uma maior pressão dos preços, possa mudar o quadro político.


http://twitter.com/alonfe

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3 Comentários:

Anonymous Artur Araújo disse...

Oh wondrous times! Estado, Nação, Público, novas palavras nas pautas.
Hora de reler o Barbudo de Trier, o Lorde Alegre e até o injustiçado List, que vagava nos corredores do BNDES ao tempo de Lessa.
Para ficar em nota mais leve, recomendo Ha Joon Chang, "Chutando a Escada". Imperdível, particularmente para freqüentadores das Casas, do Saber e das Garças.

terça-feira, 11 de novembro de 2008 10:28:00 BRST  
Blogger Richard disse...

O "comandante" deste navio já devia ter mudado de rota há 6 anos... mas, como lele mesmo disse, na época: "Não se dá cavalo-de-pau em transatlântico"!
Vai sentar e esperar que nada maior que uma "marola" atrapalhe a sucessão de 2010.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008 15:28:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Ainda digo mais: se tivesse dado outro rumo em 2002, talvez hoje seria ele a pessoa com as respostas que todos procuram!
Como tirar um país do buraco fazendo exatamente o contrário do que os outros recomendam!!!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008 15:31:00 BRST  

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