terça-feira, 25 de novembro de 2008

Ativismo estatal (25/11)

No Brasil, banco acabou se transformando numa combinação de companhia telefônica (presta serviços, cobra tarifas) com repartição pública (recursos garantidos pelo Orçamento)

O presidente da República tem afirmado que alguns efeitos da crise planetária serão atenuados no Brasil porque a regulação do nosso sistema bancário é superior. A explicação mais razoável talvez esteja em outro lugar: os bancos brasileiros exibem certa solidez em meio à turbulência porque emprestam pouco. Isso os torna menos expostos à inadimplência do que os colegas de outros países. Mas não chega a ser propriamente uma qualidade. É um defeito, ainda que represente vantagem em períodos atípicos. Como agora.

Já faz um bom tempo que o crédito para as pessoas e empresas comuns deixou de ser o foco da atividade bancária nacional. Lucrativo mesmo é emprestar o dinheiro para o governo e cobrar tarifas salgadas do cidadão que precisa usar o banco para as atividades do dia-a-dia. Algum tempo atrás, um levantamento mostrou que a receita com tarifas já cobrira as despesas do setor bancário com salários. Apontou ainda que a velocidade de elevação dos ganhos com tarifas nos dez anos analisados pelo estudo era seis vezes maior do que o crescimento das folhas de pagamento no mesmo período.

Ou seja, a saúde operacional dos bancos está cada vez mais dissociada do que deveria ser o “core business” do sistema, recolher os recursos disponíveis na sociedade e direcionar para quem precisa de dinheiro, para investir ou consumir. Daí que, sintomaticamente, o sistema bancário brasileiro exiba alguma blindagem diante da crise.

No Brasil, banco acabou se transformando numa combinação de companhia telefônica (presta serviços, cobra tarifas) com repartição pública (recursos garantidos pelo Orçamento). É bom para o país? Não necessariamente. Pode ajudar em época de terremoto, como agora, mas não é algo normal. Até o governo começa a dar sinais de incômodo. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, chegou a dizer no fim-de-semana que o sistema financeiro brasileiro não está à altura das necessidades nacionais.

O ministro referia-se ao “empoçamento”, a retenção pelos bancos de boa parte da liquidez (dinheiro) que o governo vem injetando na economia para estimular o crédito. Ora, a fala do ministro é positiva, mas exige complementação. E o governo, vai fazer o quê? O banco não deixa de emprestar dinheiro porque é mau. Ele não o faz porque não precisa fazer. Se quiser sentar em cima da liquidez e esperar, pode aguardar confortavelmente na sua pocinha, já que as despesas do dia-a-dia estarão cobertas por outros meios.

Só há uma maneira de obrigar os bancos a emprestar: fazer disso uma atividade essencial. Um caminho sempre tentado é reduzir e tabelar as tarifas. Os tímidos movimentos que o governo esboçou para desembaraçar esse nó deram em quase nada. Em parte porque o governo de fato se preocupa em não criar problemas para a saúde dos bancos, no que age bem. Em parte porque a força política dos bancos continua tão grande quanto sempre foi. Se não maior.

Outro caminho, no qual o governo tem bastante mais autonomia, é reduzir fortemente a taxa básica de juros. Quando emprestar ao governo ficar relativamente menos atraente, as instituições financeiras vão precisar encontrar outras formas de fazer receita. Talvez daí comecem a estender para valer o crédito às pessoas e às empresas. Como acontece nos países mais avançados. E talvez (oh, otimismo) estabeleça-se alguma concorrência no nosso mercado bancário.

O debate sobre a taxa de juros no Brasil é histórico e acabou virando um Fla-Flu. O Banco Central defende os juros altos como uma eficaz vacina antiinflacionária, por reduzir a demanda. E alguma razão o BC tem. Já os críticos dizem que o juro brasileiro não tem a ver com os preços internos, mas com a necessidade de manter um real artificialmente valorizado para baratear as importações e proporcionar ganhos apetitosos aos especuladores, para fechar as contas externas.

Essa é a polêmica tradicional. Que entretanto ficou esvaziada por um detalhe: o mundo e o Brasil mudaram. O que deve preocupar agora as autoridades brasileiras não é mais o crescimento potencialmente excessivo, mas a recessão. E dificilmente haverá oportunidade melhor para baixar os juros com firmeza. Pois nem trabalhadores nem empresários estão em condições de subir preços com base numa expectativa de inflação. Onde houver esse risco, caberá ao governo agir. A hora, aliás, é de o Estado retomar seu ativismo. Também porque um dos efeitos mais visíveis da crise é a oligopolização, nos bancos e em outros dos principais ramos econômicos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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4 Comentários:

Blogger Tato de Macedo disse...

Alon,

Faltou dizer que, principalmente, tornou-se um balcão de venda de bijouterias, que são empurrados aos clientes quando esses necessitam dos serviços bancários.

abraços
http://www.tatodemacedo.blogspot.com/

terça-feira, 25 de novembro de 2008 08:59:00 BRST  
Anonymous Marcos disse...

O texto é muito bom, relata verdades incontestáveis, mas....
Infelizmente só alguns milhares de leitores do correio brasiliense ou internautas que gostam de blogs políticos irão ler. Quando o assunto
é tratado dessa maneira em tv aberta (http://www.youtube.com/watch?v=iP8jsqFlaQQ ), onde o assunto é visto por milhões, a coisa muda de figura. Cabeças rolam.

terça-feira, 25 de novembro de 2008 10:00:00 BRST  
Blogger Briguilino do Blog disse...

Baixar a selic certamente é a melhor coisa a fazer, e por que não foi feito ainda?
Porque nossos governantes sempre colocam raposas para tomar conta do galinheiro.

terça-feira, 25 de novembro de 2008 11:56:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

O seu diagnóstico do sistema bancário nacional me parece acertado.

Qual governante terá coragem p/ encarar esse abacaxi? Boa questão.

Encarar o abacaxi, eu entendo por um movimento gradual e sereno (conduzido pelo Estado) p/ empurrar os bcos de volta a seu "core business" - como vc corretamente aponta. E não uma ruptura, pois democracia não gosta de ruptura.

O q o Estado pode fazer?

Pode:
1- mexer na SELIC
2- mexer no modelo tarifário
3- usar os Bcos públicos (pq ainda não faz ???) p/ induzir / estimular concorrência de maneira mais corajosa.

terça-feira, 25 de novembro de 2008 15:06:00 BRST  

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