terça-feira, 14 de outubro de 2008

Às favas os escrúpulos (14/10)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

A falta de limites na busca pelo poder é sinal de que tampouco haverá limites no seu exercício. E candidatos a ditador não costumam acabar bem

Por Alon Feuerwerker
alonfeuerwerker.df@diariosassociados.com.br

Quando submetidos a tensão extrema, acontece de políticos escorregarem para zonas de sombra e mesmo escuridão. Ficou famosa, por exemplo, a frase de um ministro na reunião que chancelou o Ato Institucional nº 5, há quase 40 anos: “Às favas os escrúpulos de consciência”. Escrúpulos que, por exemplo, poderiam ter evitado a divulgação do vídeo usado por Fernando Collor contra Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, na invasão violenta da vida pessoal do candidato do PT.

Tenho comigo que Collor começou a cair antes mesmo de eleito, por causa daquele vídeo. A falta de limites na busca pelo poder é sinal de que tampouco haverá limites no seu exercício. E candidatos a ditador não costumam acabar bem. Subjetividade à parte, o certo é que, duas décadas depois, a intromissão brutal na vida privada de Lula fez muito mais mal ao hoje senador alagoano do que ao hoje presidente da República. E o ministro que pronunciou a infeliz frase na reunião do AI-5 tem e terá sua biografia permanentemente marcada por ela. Talvez injustamente.

Mesmo nos Estados Unidos, a pátria do vale-tudo eleitoral, certas decisões podem custar caro aos políticos. Um exemplo é a campanha de John McCain. Nos comícios dele, o adversário, Barack Obama, costuma ser xingado pelo público de “terrorista” e “mentiroso”. Tem coisa até pior, que não vou escrever aqui. A propaganda republicana insiste que o eleitor americano não sabe quem é o “verdadeiro” Obama, insinuando que a eleição do senador democrata de Illinois lançará os Estados Unidos nas mãos de um aventureiro mistificador. Tem funcionado? Não.

Por que a campanha de McCain está nessa? Ora, porque ele vai mal nas pesquisas. E por que ele vai mal nas pesquisas? Por causa do colapso financeiro e do medo do americano de perder o emprego, a casa (se é que já não perdeu), a poupança para a formação dos filhos e o dinheiro que juntou para a aposentadoria. O americano médio está com medo do futuro e quer mudar. E o recurso do establishment republicano é apelar ao ódio. Ódio racial, ódio social. O ódio é irmão gêmeo do medo. E ajuda a anestesiá-lo.

McCain aparentemente espera que o medo sentido pelo americano comum e a incerteza em relação ao futuro se transformem em ódio contra o diferente, contra o “desconhecido”. A fórmula não é nova. A ascensão do fascismo na Alemanha de Weimar seguiu esse roteiro, no primeiro terço do século passado. Eis um risco sistêmico na crise americana: de a indignação e a revolta serem canalizadas para punir culpados imaginários, em vez dos reais. Como há poucos antecedentes históricos de império que aceite recuar pacificamente, o risco é real.

Já o problema no Brasil é outro. A ameaça é que nossa política adquira esse lamentável traço americano. Aqui, um parêntese. Lula disputou e perdeu três eleições presidenciais sem nunca ter recorrido a expedientes do gênero, sem ter exposto a vida pessoal dos adversários. Não é exagero dizer que tal característica das campanhas do sempre candidato do PT à Presidência virou uma espécie de dique contra a irracionalidade e a baixaria. Uma represa cultural que começa a mostrar rachaduras neste segundo turno da eleição municipal.

Talvez seja mesmo um processo inexorável. Talvez os americanos estejam mesmo à nossa frente e mereçam ser imitados, também nisso. Talvez esses pruridos moralistas sejam apenas isso, pruridos, e devam ser definitivamente removidos para que se manifeste, na sua plenitude, o conflito latente na sociedade. Talvez. Ou talvez não.

Política não é corrida de 100 metros. É maratona, e com obstáculos. E o adversário de hoje pode ser o aliado de amanhã. E o destino político de cada um pode eventualmente estar certo dia nas mãos de pessoas que lá atrás as circunstâncias colocaram na trincheira oposta. Quem já acompanhou algum processo de cassação na Câmara dos Deputados ou no Senado sabe do que estou falando.

A propósito, seria de bom senso se a campanha do PT tirasse rápida e completamente de circulação o comercial com ataques à vida privada do prefeito de São Paulo. A biografia da candidata Marta Suplicy agradecerá. Mas tem que ser rápido. Bem rápido.

http://twitter.com/alonfe

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7 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

Alon, o "dique" que você citou começou a rachar na eleição de 2006, mas estava na internet, não havia chegado à propaganda eleitoral, e como não adiantou nada (o que adiantou foi o delegado Bruno e os "aloprados", e mesmo assim até Alckmin aparecer com boné de empresa estatal e entregar o segundo turno antes mesmo de começar) ficou por isso mesmo.

O que a Marta e sua incompetente (incompetente porque não conseguiu mudar um milímetro dos pré-conceitos da classe média paulistana quanto a ela) trupe de assessores, aspones e "aloprados" em geral fez foi levar para a TV o que já estava latente.

terça-feira, 14 de outubro de 2008 10:10:00 BRT  
Anonymous Maurício Tuffani disse...

Bem sacado, Alon. A ex-educadora merece também o deboche na linha FHC: esqueçam o que ensinei.

terça-feira, 14 de outubro de 2008 10:37:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Não concordo com sua análise sobre “a ameaça é que nossa política adquira esse lamentável traço americano”. O traço exposto neste episódio não é “americano”. É um traço perfeitamente fascista.

Um dos desafios históricos assumidos pelos fundadores do PT nos anos 80 era trazer para a política uma proposta moderna com vistas à moralização das práticas políticas partidárias. Infelizmente não foi o que vimos e nem veremos acontecer com o PT. Não por acaso o PT mingua nos centros urbanos e vai renascendo nesse esgoto em que flui o que há de mais abjeto na política. O ataque ao Kassab com o objetivo de conquistar simpatias e votos dos milhares de pequenos mussolines paulistanos dá muito o que pensar. Há bem mais aí nessa peça publicitária do que somente “um lamentável traço americano”, uma equivocada baixaria de campanha.

É grave que setores conservadores da sociedade brasileira despertem em suas campanhas os baixos instintos fascistas adormecidos nas consciências dos eleitores. Agora, o que não tem o mínimo cabimento e é merecedor de uma crítica duríssima é que um partido que se reivindica herdeiro de uma fantástica tradição de luta pelas liberdades e pelos direitos acione em suas campanhas eleitorais esses mesmos baixos instintos. É vergonhosa e cínica qualquer tentativa de justificar a opção política pelos métodos retirados da fedorenta latrina fascista.

Aos 28 anos, o PT realiza-se neste episódio como o seu contrário exato dos anos 80.

terça-feira, 14 de outubro de 2008 14:01:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

terça-feira, 14 de outubro de 2008 14:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Parabéns, Alon. Espero que seja lido e relido por quem deveria, antes, ter pensado um pouco melhor a respeito. E mais ainda, aprendido e apreendido. O resultado disso tudo parece cada vez mais claros.

terça-feira, 14 de outubro de 2008 15:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

Será que o fenômeno não é mais simples? A política de resultados que tudo pode porque está previamente validada por uma pseudo imunidade daqueles que representam o bem!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008 14:13:00 BRT  
Blogger Jura disse...

Alon,

A Prefeitura deveria botar um semáforo (farol, sinal) no cruzamento do marketing com a política.

O que tem de acidente nessa esquina não é mole.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008 12:43:00 BRT  

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