sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Quem ganhou o debate? (03/10)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Debate eleitoral é como entrevista de emprego. Sai na frente o candidato 100% concentrado nas necessidades do empregador. No caso, do eleitor

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Quando a coluna foi escrita, ainda rolavam os últimos debates do primeiro turno da eleição municipal, assim como o confronto televisivo entre os vices na eleição americana. Nos Estados Unidos, as avaliações ciclotímicas sobre a republicana Sarah Palin apontavam ontem a necessidade de ela não se sair muito mal no ringue contra o democrata Joe Biden. Palin começou bem a campanha, com um discurso energizante e articulado na convenção do partido. De lá para cá, vem sendo triturada na imprensa pelos escorregões e gafes nas (poucas) entrevistas a que se submeteu.

Quem debateu dias atrás foram os titulares. Os jornalistas americanos procuraram ser bastante cautelosos na avaliação a quente, logo depois do evento, o primeiro dos três previstos. Mas os números desde então apontam uniformemente a ampliação da vantagem do democrata Barack Obama sobre o republicano John McCain. É complicado dizer que foi só por causa do debate, já que os dias coincidem com a crise financeira. Ela, lógico, beneficia politicamente a oposição democrata. Mas o fato é que Obama é um político bom de debate. 

O que significa ser bom de debate? Como saber quem ganhou um debate? Não são perguntas de resposta simples. Escolhi, de alguns anos para cá, certos critérios que me ajudam a não errar muito. Uma coisa a evitar em debates eleitorais, por exemplo, é a atitude de “você quer tomar o meu brinquedo e por isso estou com raiva de você”. O contendor tende sempre a querer trucidar o oponente. É humano, pois o outro representa o obstáculo no caminho da vitória, do prêmio maior.

Daí a tendência a tentar destruir, ridicularizar. Os partidários adoram, pois o ódio ajuda a mitigar a dor causada pelo medo do fracasso. O problema é que em geral não funciona. São recorrentes as vezes em que o sujeito acaba de assistir a um debate com a certeza de que o candidato dele ganhou, quando de fato perdeu. Perdeu o quê? A oportunidade de falar ao eleitor adversário e ao indeciso. Eleições são um raro momento em que o poder está formalmente nas mãos do cidadão. E o eleitor comum adora isso, aprecia muito a circunstância de o político depender totalmente dele, e não o inverso, como seria habitual.

Debate eleitoral é como entrevista de emprego. Sai na frente numa entrevista dessas a pessoa 100% voltada às necessidades do empregador. Na eleição, o empregador é o eleitor. No debate, o candidato competente expõe as próprias qualidades por um ângulo que corresponda às necessidades do eleitor, jamais se coloca numa posição arrogante, auto-suficiente ou prepotente. Tampouco deve ser tímido demais, contido demais, o que parece óbvio. E, para saber quem ganhou ou perdeu, é preciso sempre avaliar se, e quanto, o candidato falou aos desejos mais prementes e mais sensíveis de quem vai votar.

Barack Obama, assim como Bill Clinton dezesseis anos atrás, começa a abrir vantagem porque está completamente concentrado em construir a idéia de que os Estados Unidos precisam de uma alternativa econômica. O que, aliás, não é muito difícil de vender hoje em dia. Em terras americanas, parece que a maioria pensa que é hora de mudar. Sem esquecer que Obama leva jeito de ser mesmo um cara de sorte. As circunstâncias ajudam-no a não errar demais nesta eleição. Acho que nem o mais amalucado dos assessores dele proporia tentar desconstruir McCain, herói de guerra com ampla folha de serviços prestados ao país.

No Brasil, Geraldo Alckmin pode até ir ao segundo turno contra Marta Suplicy em São Paulo, mas repete o erro da campanha presidencial de 2006. A comunicação tucana deixa claro que o Geraldo não gosta dos adversários, especialmente do prefeito Gilberto Kassab. Mas não consegue transmitir uma única idéia sobre o que vai melhorar na vida das pessoas se o Geraldo for eleito.

Dizem que Marta tentará desconstruir Kassab num provável segundo turno contra o democrata. O método seria acenar com a volta do malufismo, já que o prefeito no início de sua trajetória esteve de algum modo associado ao projeto político do então poderoso Paulo Maluf. Vai funcionar? Depende do número de eleitores que acham que Kassab na prefeitura é na verdade Maluf prefeito. Ou que acham isso relevante.

O grande argumento de Kassab é que não vale a pena interromper uma gestão bem avaliada. Mais ou menos o que Luiz Inácio Lula da Silva disse em 2006. A missão de Marta é convencer de que a mudança agora é o melhor caminho para o paulistano. Se for mesmo Kassab a enfrentá-la, esse detalhe decidirá a eleição.

Já nos Estados Unidos, McCain precisará de algo que possa convencer o eleitorado a recolocar a segurança nacional no centro das preocupações.

Lá e cá, vamos ver o que acontece.


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6 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

"O método seria acenar com a volta do malufismo, já que o prefeito no início de sua trajetória esteve de algum modo associado ao projeto político do então poderoso Paulo Maluf. Vai funcionar?"

Vai funcionar muito bem para o Kassab.

Basta que ele mostre como resposta na "telinha" as famosas fotos de Marta e Maluf bem juntinhos e sorridentes em 2004. Depois, ele pode lembrar que o PP de São Paulo teve atuação destacada no episódio do mensalão. Se não estiver satisfeito, ele pode ler pausadamente a lista de nomes de políticos envolvidos em falcatruas e que de algum modo estão ligados à candidata Marta e ao PT. Que tal o Kassab lembrar que Marta, no seu último ano de gestão, assinou um contrato (foi anulado pela atual gestão. O valor: R$ 10 bilhões) com uma empresa coletora de lixo pelo modestíssimo prazo de VINTE ANOS? Por último, pode perguntar por que a ex-prefeita de SP recebeu dos paulistanos o carinhoso apelido de Martaxa?

Faz tempo que o "partido da ética" pulou para dentro do mesmo saco. Se ativado contra o Kassab, o marketing da “ética na política”, que no passado vendeu eficientemente o PT contra os produtos concorrentes, vai ser um verdadeiro tiro no pé.

É o desespero, que é um péssimo conselheiro. Ontem, o coordenador de imprensa da campanha de Marta, Mário Moysés, ameaçou com processo na justiça um leitor que emitiu opinião (gestão ineficaz e incompetente) no Fórum dos Leitores do ESP. Ameaçar leitores em Fórum eletrônicos dos jornais não me parece ser tarefa da coordenação de imprensa. Ameaçar opositores é papel da militância, sobretudo daquela parcela que baba.

Abs.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008 13:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A estratégia de desconstrução, se adotada, corre grande risco de não dar certo. Alguém ainda está procupado com quem foi aliado de quem, em que tempo, por quanto tempo e seja lá por qual razão? Se fosse assim, ninguém seria eleito ou reeleito. Muito menos quem pretende desconstruir. Parece mais a busca de uma boia de salvação, para quem achava que ia nadar de braçada, contando com a divisão dos demais. Agora, a diferença está bem menor entre os dois no primeiro turno e no segundo turno quem vence na pesquisas é o atual prefeito, que subiu inclusive nos redutos da ex-prefeita. Caso ela insista, além disso, em nacionalizar a campanha, com o apoio do Presidente, ambos poderão perder juntos. Outro fator é que o ex-governador ainda não pode colocado fora do páreo. Quanto ao debate nos EUA, muito sem graça. Mas fica claro que a republicana não convence.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008 16:17:00 BRT  
Anonymous Luca Sarmento disse...

A desconstrução de Kassab não é tarefa fácil, já que que ele tem sido realizador, na visão de Paulistanos de todas as classes.
Além disto, mudar o jogo para o tema ricos contra pobres, não parece tarefa ao alcance da Marta, que mora no Jardim Europa e tem cara de gente prá lá de chique.
Colar no Lula parece ser a única esperança. No entanto, não funcionou em São Paulo na outra eleição. Veremos.

sábado, 4 de outubro de 2008 09:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Depois do "Ornitorrinco", essa coisa de estar ao lado do povão não pega mais. O povão não estava melhorando de vida sob o atual governo? Mas é bom que insista: o povão vai dar o troco em dobro. Nacionalizando a campanha, vai ser mais fácil identificar as perdas que contingentes que estavam subindo na escala de estratos de renda, vão sentir com a atual crise que já está por aqui, sim. Está provado que Deus não bafejou ninguém por aqui. Aliás, dentre os nomes de Deus não constam: Real valorizado, saldo em conta corrente, superávit primário, câmbio flutuante, crescimento da China nem petróleo na camada pré-sal.

sábado, 4 de outubro de 2008 14:16:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

A Palin foi escolhida pra garantir o voto dos conservadores. Estes estão garantidos para os republicanos. Já o voto dos independentes quem tem a missão de conquistar é o McCain, que possui perfil mais próximo desse tipo de eleitorado.

A Palin perdeu o debate? "Oh, o Biden nocauteou ela!", dirão os "obamistas". Negativo, vi um Biden apenas tentando mostrar que sabe o trivial - dois e dois são quatro. Até fico na dúvida se ele sabe qual é a capital do Brasil.

A Palin mostrou aos EUA que é conservadora. E isso foi a vitória dela. Ela precisava conquistar os corações dos conservadores. E conseguiu.

Ah, mas os democratas dizem que ela é religiosa fundamentalista! E daí? É isso que ela queria provar mesmo. Ponto pro McCain.

A economia até agora apenas está fazendo o Obama ser o vitorioso no voto popular. O que interessa é o voto dos Estados indecisos. E parece que são Estados com perfil mais conservador. É aí que entra a Palin, que após o debate todos tem a certeza de que ela é uma defensora dos tais valores ditos conservadores.

No Brasil o grande vencedor é a máquina estatal. Um monte de reeleitos...

domingo, 5 de outubro de 2008 13:42:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Em SP ganhou o pão com mortadala e o copo de leite com groselha. O país que veste Prada está inconsolável. Horror! Horror! O “eleitorado paulistano é inclinado para a direita”. Horror! Horror! A política está confinada numa “espécie de administrativismo com verniz social”.

A análise política que maldiz a realidade e demoniza o eleitor serve para quê?

segunda-feira, 6 de outubro de 2008 14:52:00 BRT  

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