segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Professores de Deus (20/10)

A bela reportagem de Felipe Frisch que deu a manchete de O Globo no domingo diz o seguinte (lamentavelmente não posso oferecer o link, dada a brilhante decisão do jornal de dificultar ao máximo a distribuição de seus conteúdos pela internet):

1. Levantamento feito para O Globo pela consultoria Econométrica mostra que 80 das 318 empresas que apresentaram balanços no primeiro semestre de 2008 obtiveram em operações financeiras mais da metade de seu lucro líquido.

2. 35 das 80 têm receita financeira líquida maior do que o lucro líquido. Ou seja, seu resultado operacional é negativo, o que fica mascarado pelas transações que a empresa faz (fazia) no mercado do dinheiro fácil.

3. Para obter esses grandes resultados financeiros, as empresas podem ter tomado decisões arriscadas, como por exemplo apostar na continuada queda do dólar, ou especular com ações hipervalorizadas. Como o mercado virou, dizem analistas ouvidos pelo repórter, a situação dessas empresas também pode ter se invertido.

4. Quase todas as empresas da lista são conhecidas por terem fortes áreas financeiras, algumas semelhantes a tesourarias de bancos. Em realidades assim, há o risco de as empresas se arriscarem além do razoável, além do uso das operações financeiras para proteger seus patrimônios (e receitas) das oscilações do câmbio ou das matérias-primas.

Leia a reportagem, se puder (se for assinante de O Globo). E veja abaixo o interessante gráfico (clique para ampliar) que a acompanha, listando 20 empresas cujas ações estão entre as mais negociadas. Uma coluna traz o resultado financeiro, a seguinte traz o lucro (ou prejuízo) líquido e a última mostra a relação entre ambos:

Escrevi dois anos atrás em Rentismo, pão e circo:

De quem é o dinheiro que os bancos emprestam ao governo -e sobre o qual o governo paga juros? Uma pequena parte é dinheiro do próprio banco. A maior parte é dinheiro que o banco tomou emprestado das pessoas e das empresas. É dinheiro seu, meu, nosso. Qualquer pessoa ou empresa que tem uma poupança, que tem renda financeira, tem dinheiro emprestado ao governo na forma de títulos públicos tomados pelos bancos. A maior parte do que o governo paga de juros "aos bancos" não fica com eles, vai para a renda das pessoas e das empresas de quem os bancos tomaram emprestado o dinheiro. É uma das razões pelas quais o besouro voa. Teoricamente, não deveria voar, mas voa. Uma pergunta sobre o besouro para os economistas. Por que a economia brasileira cresce a taxas parecidas com as dos países desenvolvidos se os nossos juros estão muito acima dos juros deles? Uma parte da explicação deve estar nos juros especiais (não confunda com espaciais) das linhas de crédito destinadas a investimento. Mas há outra parte da explicação que, normalmente, fica oculta. Todo mundo que tem alguma modalidade de renda financeira se beneficia da drenagem do Tesouro Nacional. Por exemplo, empresas com um bom caixa. Por exemplo, famílias e pessoas que poupam.

Infelizmente, o jornalismo só se ocupa de coisas assim em épocas de crise. Em tempos normais, os empresários e executivos de empresas que usam ganhos financeiros para mascarar sua ineficiência posam no noticiário como ícones do empreendedorismo. Agora, é o caso de fazer uma nova pergunta. Há quanto tempo o escorregão dos mercados é bola cantada, para usar a linguagem da sinuca? Há meses. Desde que a crise hipotecária mostrou seu rosto feio nos Estados Unidos. Deu tempo de todo mundo desmontar pelo menos boa parte de suas posições de risco e migrar para estratégias mais conservadoras, menos baseadas em otimismo cambial e bursátil (relativo a bolsa). Por que os executivos não fizeram isso? Provavelmente para embolsar bônus no fim do ano. E porque achavam que jamais o governo americano iria deixar quebrar um banco de investimentos como o Lehman Brothers. Erraram. Aí, quando vem a confusão, a culpa naturalmente é do governo. Mas logo logo os espertalhões (pelo menos os que mantiverem o emprego) voltam a ser entrevistados como sumidades. Daqui a pouco eles estão aí de novo, certamente mais ricos e dando uma de professores de Deus. E eles estarão certos. Porque os patos somos nós. Leia de novo Capitalismo brasileiro e Capitalismo de face humana?!.

http://twitter.com/alonfe

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Lero-lero. 80 das 320, significa que 25% da amostra. Entretanto, podem ser as menos significativas. Por volume, por exemplo, poderia falar que apenas duas empresas não fizeram isso ou aquilo: se essas empresas forem PETR e VALE sua amostra não presta para nada. Veja que interessante na lista: Cremer, Monark, Medial, ou seja, empresas irrelevantes e sem volume de exports.
Estatística é uma assunto muito sério prá ficar na mão de ideólogos petistas.
Quanto a lucros de bancos, meu caro, o que interessa é o spread e o Return on equity dos bancos. Você já reparou que os bancos do mundo inteiro quebraram e no Brasil não? é que aqui o lucro é astronômico e o risco é zero. Sabe por quê? Porque o governo é socialista, hehe he.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008 21:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Antes do Plano Real, a bola da vez era a ciranda financeira, antigo nome para o cassino tão badalado hoje. O Plano Collor sufocou a liquidez da economia, congelando ativos, para eliminar a inflação. Acabou também com títulos ao portador e abriu a economia. Foi, inicialmente, saudado. Depois renegado. Apenas com o Plano Real, a ciranda foi brecada, acabou o float, a inflação recuou e foram estabelecidos mecanismos de austeridade fiscal para garantir a estabilidade. Quando houve ameaça de crise no sistema financeiro, o Proer saneou bancos. Não com pouco Estado, mas com muito Estado. Foi criticado. Tudo seria diferente em outras mãos. Agora, há uma crise respingando na economia real e o nome especulação voltou com força. Agora, a bola da vez são empresas não financeiras. São utilizados os mecanismos deixados pelo Plano Real para atenuar o problema. Nada como marolas e pequenas gripes para reconhecer santas heranças.

terça-feira, 21 de outubro de 2008 12:26:00 BRST  
Anonymous Artur Araujo disse...

Surpreendente o ruidoso silêncio, neste e em outros posts conexos, daquele ruidoso grupo liberal que freqüentava, criticamente, estas plagas. Será que teremos que caçar alguém na Casa das Garças, na PUC - Rio ou na Casa do Saber, para dar um "outro lado"?

quarta-feira, 22 de outubro de 2008 12:27:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Silêncio? O PT vai ajudar os banqueiros e as construtoras! Quem é que está em silêncio aqui?

quarta-feira, 22 de outubro de 2008 19:03:00 BRST  
Anonymous Artur Araujo disse...

Uai, Anônimo, em que o surpreende o PT propor intervenção estatal na economia, quer pela regulação, quer pelo investimento público, de matriz keynesiana, quer pela absorção de setores privados?
O duro de explicar, imagino - daí o silêncio monástico e obsequioso a que me referi - é ver tais políticas em curso nos EUA ou na Europa.
Os Chicago boys geraram a crise e agora correm, céleres, para o colo do velho lorde. Os braços carinhosos do barbudo de Trier serão o refúgio seguinte?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008 07:15:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A metamorfose ambulante agora apóia o Proer?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008 07:07:00 BRST  

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