segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Preconceito (27/10)

Um registro sobre a eleição. É inegável que existe muito preconceito em São Paulo. Social, racial, religioso. É igual nos outros municípios do Brasil. E do mundo. Nunca soube de trabalho científico que comprovasse o suposto superávit da capital paulista em matéria de preconceito. Claro que você tem o direito de discordar. Então diga-me uma coisa. Que grande (ou média, ou pequena) cidade brasileira elegeu, desde a redemocratização de 1985:

1. Alguém fortemente suspeito de ser alcoólatra.

2. Uma assistente social vinda do interior da Paraíba.

3. Um descendente de libaneses.

4. Um negro vindo do Rio de Janeiro.

5. Uma mulher que se tornou famosa por apresentar programas de orientação sexual na televisão numa época em que isso era motivo para escândalo.

6. O filho de um quitandeiro de origem italiana.

7. Um político solteiro, apesar de seus quase 50 anos, instado pelos adversários na campanha eleitoral a dar detalhes sobre sua vida afetiva e familiar.

Você percebeu que descrevi, do meu jeito, os sete prefeitos que São Paulo elegeu desde 1985, quando voltaram as diretas na cidade. Está na hora de o PT parar de desperdiçar tempo e energia com a agenda da "São Paulo preconceituosa". Quanto antes melhor, principalmente para o PT.

http://twitter.com/alonfe

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12 Comentários:

Blogger Glauco disse...

Acho que os preconceitos se sobrepõe e uns valem mais que os outros, conforme o contexto. As duas mulheres citadas, Erundina e Marta, só venceram porque enfrentaram Maluf. Ou seja, aqui a questão era bater alguém que não era tolerado pela classe média paulistana por conta da sua ligação com o autoritarismo e de seu histórico administrativo pra lá de suspeito em termos de corrupção. Deve-se lembrar também que a vitória de Erundina se deu com boa parcela de votos de protesto e em um único turno.

Quando Erundina enfrentou uma eleição em segundo turno contra Pitta, perdeu. Marta, o mesmo contra Serra e Kassab. Isso indica, primeiro que, de 1988 pra cá, a polarização foi sempre entre PT e Maluf e depois entre PT o candidato que passou a ocupar o vácuo malufista.

Claro que pode parecer apenas uma conclusão apressada, mas, ao que me parece, além do anti-petismo e dos tucanos e demo-tucanos terem rejeição mais baixa que Maluf, o que influenciou nessa última eleição foram dois tipos de preconceito bastante claros e que se sobrepuseram a outros: o machismo e o sexismo.

Vi depoimento de muitas, mas muitas pessoas, que sequer podiam escutar falar em Marta. Logo lembravam da sua separação, que ostentava o sobrenome Suplicy mesmo divorciada, o tal do "relaxa e goza" e etc. Muita, mas muita barbaridade.

Curioso é que Maluf foi eleito prefeito mesmo após o "estupra mas não mata" e Kassab, depois de agredir verbal - e quase fisicamente - um cidadão paulistano e feito piadinha com a tragédia do metrô.

Aliás, fica a pergunta: se Marta tivesse tido, em algum momento, a atitude de Kassab, empurrando uma cidadã e xingando, como estaria a carreira política dela hoje? Pra mim, acabada.

Não sei se é um fenômeno exclusivo de São Paulo, mas o maior preconceito que enxerguei foi contra a mulher, exercido inclusive por mulheres. Isso não serve como desculpa para os erros da campanha petista e talvez nem tenha sido o fator principal para a derrota de Marta, mas que contribuiu muito, não tenho dúvidas.

PS: alguém lembra (ou sabe) que o Serra é filho de feirante? Aliás, um adendo: quem tinha espaço para vender no mercado municipal (e hoje também é assim) não podia ser considerado um feirante "comum"...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008 20:22:00 BRST  
Anonymous Paulo Lotufo disse...

Auguste Bebel (1840-1913) foi líder da social-democracia alemã no século XIX, companheiro de Marx e Engels e, autor de uma frase histórica que costuma ser creditado aos outros dois mais famosos: "o anti-semitismo é o socialismo dos tolos". Hoje, um novo socialismo dos tolos: o antipaulistismo. Calma lá! São Paulo é uma cidade inclusiva, ou menos exclusiva que as demais capitais. Há 120 anos, ela praticamente não existia. Italianos, portugueses, japoneses, árabes, alemães a construíram na primeira metade do século, depois brasileiros de outras regiões continuaram a tarefa junto com judeus, coreanos, italianos do pós-guerra. Hoje, uma comunidade boliviana se insere cada vez mais no cotidiano de parte da cidade.
Voltando a Bebel, o "antipaulistismo é o socialismo dos tolos".

segunda-feira, 27 de outubro de 2008 20:48:00 BRST  
Anonymous Silvio Amorim disse...

Sou leitor habitual do blog, mas acho essa análise muito apressada.

Tirando a eleição de Erundina (que aconteceu em 1º turno, por pequena diferença de votos) e a 1ª eleição da Marta (que só foi possível após a destruição completa que Maluf-Pitta produziram na cidade e mesmo assim, com resultado apertado no 1º turno), é fácil identificar em todas as demais eleições um viés preconceituoso:


1. SP elegeu Jânio para derrotar um candidato fortemente suspeito de ser ateu (Fernando Henrique).

3. SP elegeu Maluf para derrotar um candidato de esquerda (Suplicy).

4. SP elegeu Pitta para derrotar a assistente social nordestina que a elite nunca perdoou ter sido eleita uma vez prefeita de São Paulo.

6 e 7. SP elegeu Serra e Kassab para derrotar a sexóloga que a elite nunca aceitou ter sido prefeita (principalmente porque sempre considerou "arrogância" uma herdeira de sobrenomes tradicionais, educada em bons colégios, moradora dos Jardins governar com prioridade na periferia da cidade).

Além disso, querer encontrar possíveis motivos de preconceito no fato de Maluf ser descendente de libaneses ou Serra ser descendente de italianos é forçar um pouco a barra do argumento.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008 20:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Haja, parcialialidade!
1985,88:nâo havia segundo turno, por isso a comparação fica difícil.
1992: a gestão petista foi catastrófica nos dois primeiros anos quando a máquina mandou em Erundina, depois não houve tempo para recuperar a imagem. A própria Erundina e outros próximos difundiram essa versão. Nada de preconceito contra Suplicy.
1996: Maluf está bem avaliado, tal como agora, em parte pela melhoria da situação economica. Como, Cesar Maia, elegeu um poste.
2000: Marta deu um baile em Maluf, que quase perdeu para Alckimin no primeiro turno.
2004: Serra depois de perder duas eleições municipais, com a força da campanha presidencial conseguiu isolar politicamente o petismo oficial que à época preocupava-se em destruir a oposição interna como Eduardo Jorge, Nabil Bonduki, Carlos Neder, Tita e outros que não aceitavam o jugo de pessoas de tato.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008 21:21:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Embora a lista seja dos prefeitos, faltou colocar que o PT prosperou como idéia política na conservadora cidade de São Paulo. Em fevereiro de 1980, uma reunião no conservador colégio Sion na conservadora cidade de São Paulo, fundou o PT.

Vi as entrevistas do Zé Américo no terra magazine e li a do Rui Falcão. Como dizia o Sartre, o inferno são os outros...

terça-feira, 28 de outubro de 2008 09:03:00 BRST  
Anonymous J Augusto disse...

Kassab se elegeu propondo a plataforma política de Marta e do PT: CEUs, bilhete único, mais estado nas políticas de saúde e educação, prometendo não ser oposição ao governo Lula.

Ignorou solenemente o programa do PFL.

Se vai cumprir ou não é outra história, mas a verdade é que o projeto político do PT e Marta venceu, com um candidado do PFL.

Qual a razão do eleitor votar nas políticas de Marta e do PT, e não votar na candidata? Só consigo entender como sendo mero preconceito pessoal contra a candidata.

Discordo que não exista preconceito, mas concordo que não adianta reclamar de preconceito do eleitorado (seja de que cidade for). É a história do decifra-me ou te devoro.

terça-feira, 28 de outubro de 2008 10:17:00 BRST  
Anonymous J Augusto disse...

Sobre a solteirice de Kassab, se ele fosse o candidato do PT, o preconceito teria "pegado".
Assim como se Marta fosse candidata dos conservadores seria tratada como líder feminista e não como uma degenerada.
Como Kassab foi o candidato dos conservadores, valeu a máxima: não interessa a vida privada, desde que discreta, e que comporte-se perante o público como um conservador.

terça-feira, 28 de outubro de 2008 10:25:00 BRST  
Anonymous expetista verde disse...

O conservadorismo que alguns originários do Nordeste, Minas e Rio Grande do Sul reconhecem em São Paulo tem outro nome: influência política da classe média. Trata-se de fenômeno político materializado no antigo Partido Democratico (PD) dos anos 20. A classe média é originada da própria classe operária. Quem quiser conhecer um pouco, fale menos e, conheça a história da Mooca, Lapa, Penha e Ipiranga. O desejo de um operário nunca foi o socialismo, mas sim que os filhos estudassem e não precisassem trabalhar em uma fábrica. Infelizmente, o desenvolvimento capitalista no Nordeste, Minas e, um pouco no Rio Grande do Sul ainda não permitiu que esse fenômeno se desenvolvesse.
O petismo não deu certo em São Paulo pela voracidade das facções internas que mais se devoraram do que consolidaram um projeto de cidade. Kassab não é idiota e, aproveitou o que Marta se de bom. Da mesma forma como Lula fez com as bolsas de FHC. Nesse caso, parabéns a Kassab e Lula.

terça-feira, 28 de outubro de 2008 11:06:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Se for o caso de dar crédito ao preconceito de que apenas os mais pobres são beneficiados pelo e votam no PT, o número de pobres diminuiu bastante, ao menos considerando-se os elitores que votaram. Foram cerca de 39% dos eleitores da cidade de São Paulo, enquanto os mais ricos e médios foram cerca de 60%. Ou, ainda, pode-se imaginar que reduziu o número de eleitores pobres na Capela do Socorro, onde o PT perdeu. Se for esse o termômetro, bastam mais algumas derrotas do PT em São Paulo, principalmente na periferia, para aquilatar que realmente a desigualdade sócio-econômica terá desaparecido na cidade. Ou então, que aumentou o número de eleitores pobres no Brasil todo em 2002 e 2006. E se perder em 2010, o número de eleitores pobres, então, terá sido muito reduzido no país inteiro. Ou estão brincando ou os mais pobres são muito ingratos.

terça-feira, 28 de outubro de 2008 14:32:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

Interessante.

Quer dizer q o prezado comentarista J Augusto (um excelente debatedor aqui no Alon) fica chateado quando o Kassab encampa e capitaliza os projetos da Marta, mas (pelo q se infere) não vê nada demais no que o Lula fez com os projetos / programas de FHC, q estão todos aí de pé, uns com nome trocado (transferência de renda) e outros mantidos de modo dissimulado (diretrizes da macroeconomia, respeito a contratos, LRF, etc.), com discurso político esquizofrênico para não aborrecer as “bases populares”.

Ora, mas que coisa...

terça-feira, 28 de outubro de 2008 18:02:00 BRST  
Anonymous Kitagawa disse...

O anônimo levanta um ponto interessante, com o qual concordo: pra mim o grande erro da Marta foi ter se focado demais no "povão" da periferia. Mas com o crescimento economico dos ultimos, muitos populares já não querem mais ser tratados como pobres coitados, mas como classe média, como gente "normal", que não precisa mais de assistencialismo, mas de oportunidade. Defiitivamente, talvez o "povão" já não é maioria suficiente pra eleger ninguém, pelo menos em São Paulo. Assim, Marta errou a encampar esse discurso de luta de classes num momento em que a pobreza cai em São Paulo e no Brasil como um todo. Já Kassab sempre pareceu o sujeito que quer agradar a todos, periferia e centro, classe média e "povão", ao mesmo tempo em que sempre foi o candidato de confiança da elite, já que é do DEM.

terça-feira, 28 de outubro de 2008 18:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O preconceito que derrubou a Marta além do sexista foi do pobre, que virou remediado, com os outros pobres. Um analista disse que em São Paulo ninguém quer ser visto como miserável, excluído, até um dono de boteco de quinta categoria se considera empresário, de classe média. É uma manipulação e erro que o próprio Lula tem divulgado.
Sem recorrer a esse discurso, a campanha do Kassab foi inteligente porque se apropriou de todos os programas sociais da Marta e do PT e avançou nos grotões.
Ao PT resta correr contra o tempo e tentar recuperar o terreno perdido na classe média intelectualizada e nas periferias de São Paulo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008 11:16:00 BRST  

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