sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Mais uma oportunidade histórica que a oposição vai perder (24/10)

A oposição que tem poder anda cautelosa em relação às medidas que o governo Luiz Inácio Lula da Silva vêm adotando na crise financeira. Há, é claro, uma polemicazinha aqui e ali sobre se os discursos do presidente lá atrás subestimaram a dimensão do problema. Um debate, na minha opinião, sem relevância. O que eu penso você conhece: não faz parte do trabalho do presidente da República espalhar o alarmismo. Nesse particular, Fernando Henrique Cardoso parece tomado de amnésia seletiva, quando diz que "o estilo do Lula é enganar". FHC não avisou ao país antes da eleição de 1998 que a moeda brasileira estava prestes a ir pelo ralo, o que acabou acontecendo logo no começo do segundo mandato do tucano. Presidentes não saem por aí gritando "fogo!". Além do mais, que medida Lula deixou de tomar e que deveria ter sido adotada? Aliás, qual é exatamente a proposta da oposição para enfrentar a crise? A oposição fará bem se seguir a linha do presidente francês, Nicolas Sarkozy. Ainda que haja muito de ilusão no sonho sarkozyano de uma globalização capitalista civilizada (leia Capitalismo de face humana). Da Bloomberg:

Sarkozy Summons De Gaulle's Statist, Anti-U.S. Spirit

By James G. Neuger

Oct. 24 (Bloomberg) -- Since the era of Charles de Gaulle, France has rebelled against the American-style capitalism that put a ``Made in U.S.A.'' stamp on the world economy. Now, as convulsions on Wall Street shake the global financial system, French President Nicolas Sarkozy is seizing the opportunity to remake the free-enterprise model along more state-managed Gaullist lines. Emboldened by the U.S. pursuit of a European-style bailout, Sarkozy has packed his wish list for an upcoming international summit with calls for everything from stiffer bank supervision and limits on executive pay to state aid for hand-picked industries. While the moment is in his favor, history is working against him: throughout the postwar era, French attempts to subdue globalization and come up with an exportable economic model have misfired.


Leia a íntegra da reportagem da Bloomberg, reportagem que por sinal é crítica a Sarkozy. Ela mostra um líder político buscando referências em Charles de Gaulle, sempre uma boa coisa. Sarkozy é de direita. A França, como os Estados Unidos e o Reino Unido, tem uma direita identificada com a nação. São países em que a burguesia se constituiu historicamente como classe dominante ao tomar o comando do processo de consolidação nacional. Quando Sarkozy venceu as últimas eleições presidenciais francesas, escrevi um post com o título O au revoir e as lágrimas. Um trecho:

Por que a direita ganhou as eleições na França? A maioria dos franceses é de direita? Há pelo menos um dado que debilita essa hipótese: cinco anos atrás a França uniu-se em torno de Jacques Chirac exatamente para impedir a vitória da extrema-direita de Jean-Marie Le Pen. Os franceses têm lá o seu charme histórico, mas são como qualquer outro povo. Costumam dar a vitória nas urnas a quem consegue interpretar melhor as tendências momentâneas do centro político e representar mais precisamente as aspirações nacionais. E a França tem a sorte de contar com uma direita marcadamente nacional. As pessoas às vezes se esquecem que a Revolução Francesa aconteceu na França. E que Napoleão Bonaparte era francês. Assim como Charles de Gaulle. Lamento informar, mas nem Napoleão nem De Gaulle eram de esquerda. Não à toa Nicolas Sarkozy encerrou sua campanha homenagenado os combatentes da Resistência Francesa contra a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. Eu tenho inveja dos franceses. Eu invejo países que têm uma direita comprometida com o projeto nacional. Porque neles a alternância no poder não coloca a nação em risco.

E concluía:

O que venceu na França? Uma direita antenada na globalização mas disposta a defender a França como bem próprio dos franceses. Tipicamente francês. E os imigrantes? Se eu fosse francês teria votado em Ségolène Royal. Porque eu invariavelmente voto na esquerda contra a direita. É um hábito antigo. Eu não concordei, entretanto, com a tentativa de Madame Royal de dividir os franceses entre tolerantes e intolerantes à imigração. Esse assunto foi resolvido cinco anos atrás, quando a França indicou a Monsieur Le Pen que ele jamais chegará ao poder. Do que se tratou agora foi outra coisa: foi se a França deveria ou não abrir mão do protagonismo de sua própria cultura e da sua própria política diante das pressões globalizantes -vindas da esquerda ou da direita. Circunstancialmente, Monsieur Sarkozy interpretou melhor a aspiração nacional do eleitorado francês. A Madame Royal restou o au revoir. Restaram também as lágrimas, dos repórteres e dos analistas que buscaram transformar a cobertura das eleições francesas numa arquibancada de Fla-Flu. Au revoir para eles também.

De volta ao Brasil. A crise financeira planetária impôs aos estados nacionais a defesa de suas respectivas economias. E defender hoje a economia brasileira é encontrar mecanismos para que as empresas voltem a ter crédito, para que a máquina recomece a andar com alguma normalidade. Qual é o problema? É que o dinheiro liberado para os bancos emprestarem aos seus clientes não está chegando na ponta. Em vez de irrigar a economia, essa massa monetária parece alimentar o ataque à nossa moeda. Então, em vez de se preocupar em defender os coitadinhos dos bancos contra a suposta "sanha estatizante" governamental, a oposição deveria, num assomo de sarkozysmo, cobrar do governo medidas para que o depósito compulsório devolvido às instituições financeiras ajude o país, e não os seus inimigos. Mais mão de ferro sobre o sistema financeiro, e não menos. Vai acontecer? Provavelmente não. Aqui não é a França, é o Brasil. No já longínquo janeiro deste ano, escrevendo sobre a crise americana, rascunhei em O sonho de um FHC barbudo:

[Em 2002] o eleitor médio estava saturado dos anos de Fernando Henrique Cardoso, com sua herança de crescimento baixo e estagnação. Daí a esperança oposicionista de que a crise americana transforme Lula II numa versão barbuda de FHC II.

De repente lembrei do que aconteceu na votação da CPMF, há um ano (leia Ter coragem de ganhar e A peste da radicalização). Ali, a oposição deixou de faturar uma vitória imensa, jogou no lixo a paternidade de mais R$ 40 bilhões/ano para a saúde pública. Para quê? Para nada. Pensando bem, que tal mudar de assunto?

http://twitter.com/alonfe

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7 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Quem faz oposição de terra arrasada pelo programa de salvação nacional?
Tarso Genro escreveu um artigo pedindo eleições antecipadas em janeiro de 1999.

sábado, 25 de outubro de 2008 07:07:00 BRST  
Blogger Briguilino do Blog disse...

Alon, a direita em e a brasileira em especial é um bando de salteadores de gravatas. Esta corrida das empresas para o BNDES revela isso muito bem. Especularam, se apossaram dos lucros, agora que tiveram prejuízos querem debitar na conta de quem? Da viúva, como sempre.
Nossa elite economica, politica e empresarial é o que o país tem de pior.

sábado, 25 de outubro de 2008 07:58:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, o BNDS pode ajudar nos moldes definido pelo Império: fornece o capital e toma as ações. Após a turbulência, de preferência em melhor posição de mercado, vende-se as ações recuperando a grana.

Rosan de Sousa Amaral

sábado, 25 de outubro de 2008 09:46:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Levar em consideração o que disse ou diz Tarso Genro é pura perda de tempo. O "capo" do PCC, Marcola, que disse em entrevista que, dos mais de mil livros que teria lido, só não conseguiu entender o do pensador de Santa Maria talvez seja o melhor exegeta de sua obra.
Quanto ao post, só torço para que entres os leitores do Alon seja baixa a incidência demo-tucana, pois ele, mais uma vez, mapeia o caminho das pedras.

sábado, 25 de outubro de 2008 10:05:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

É o espírito de natal, já antecipado pelo Sr. Presidente.

Resta saber se no saco estatal do papai Lula há presentes que baste. Eu deconfio que não há. Acho que vai rolar algum tipo de processo seletivo. Mas nesse rolo deverá faltar padrinho e sobrar pagão.

Os anõezinhos que preparam as listas de entrega dos presentes do papai Noel já esfregam as mãozinhas em sinal de muita satisfação. O Natal promete.

Prenuncio que neste período natalino assistiremos o já exuberante mercado brasileiro da oferta das facilidades em meio às dificuldades entrar em um novo ciclo virtuoso, que deverá perdurar durante 2009 e 2010.

sábado, 25 de outubro de 2008 14:55:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Está correto. Governos não devem alardear cataclismos. Mas, também, não devem vender excesso de otimismo, que pode ser desmentido pelo desdobrar dos fatos. Como fazer então? Adotar medidas necessárias, sem menosprezar o tamanho do problema. O que deveria ser feito e ainda não o foi? Bem, por exemplo, para sinalizar que detém o controle e adotar medidas atenuantes da crise, como austeridade no lado fiscal. Por exemplo, não criar despesas continuadas de custeio da máquina pública, mas sim privilegiar gastos de investimentos. notadamente em infra-estrutura. Pode até ser que o desdobramento das medidas até aqui anunciadas siga em tal direção. É melhor do que falar em marolas e pequenas gripes, ou que a oposição aposta no agravamento de crise. Apostar na crise é desdenhar os efeitos dela na economia real.

domingo, 26 de outubro de 2008 11:34:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

O problema é que a oposição não entendeu, ou não quis entender, que a MP 443 é EXATAMENTE o que estão fazendo Inglaterra, França, EUA etc e tal. Ou seja, o Estado limpar balanços em troca de controle acionário. Só penso que deveria se estender para as grandes empresas exportadoras que se meteram no cassino cambial, mas enfim.

Quanto à oposição exigir que o BC pare de proteger as tesourarias dos bancos... é pedir demais. Infelizmente.

domingo, 26 de outubro de 2008 11:52:00 BRST  

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