sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Fisiologia e ideologia (31/10)

Coluna (nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Ao se apresentar como partido dividido, o PMDB esconde sua ambição atrás do biombo do fisiologismo. O PT, orgulhoso de sua organicidade e ideologia, sofre o infortúnio de ver seu apetite fisiológico ser interpretado como propensão ao monopólio do poder

Alon Feuerwerker
alonfeuerwerker.df@diariosassociados.com.br

O equilíbrio de forças resultante da eleição municipal conduz o jogo político a um patamar diferente, mais sofisticado. Esta semana, por exemplo, o Democratas reagiu com uma nota serena e equilibrada à declaração do presidente da República de que o partido foi um dos derrotados na eleição municipal. Em vez de bater boca com Luiz Inácio Lula da Silva, como era hábito, o DEM preferiu posicionar-se de olho no eleitor. Deu sua pancadinha regulamentar em Lula, mas colocou-se como força política disposta a ajudar o país na crise. Dado que o cidadão médio anda mais preocupado com a economia do que com a politicagem de Brasília, o Democratas marcou um gol. Nada como o poder para trazer o sujeito de volta ao centro.

Se a oposição vai aprendendo a lidar com o presidente, sem aceitar automaticamente quando é chamada por ele para a briga, o PT busca uma maneira de conduzir suas relações com o novo PMDB, sigla mais vitaminada pelas urnas de outubro. Recapitulando. No começo do governo Lula, a estratégia do PT foi excluir o PMDB do ministério. Quando, finalmente, o partido foi chamado a participar, privilegiou-se uma ala, que apenas por convenção chamaremos aqui de “PMDB do Senado”. Entre outras coisas, isso levou a que o “PMDB da Câmara” ajudasse a eleger Severino Cavalcanti para a Presidência da Casa em 2005. O que, como se recorda, quase custou o pescoço do presidente da República.

Daí que Lula tenha mudado o método no segundo mandato, acomodando não apenas um pedaço, mas todo o PMDB. Afora a economia (a passada, não a atual), eis o que explica a paz dos cemitérios em Brasília. Mesmo as naturais perturbações climáticas, como por exemplo o apoio velado do PT ao movimento que tirou Renan Calheiros (PMDB-AL) da Presidência do Senado, não têm os efeitos que teriam se a base de apoio do governo fosse mais estreita. Com Saúde, Minas e Energia, Comunicações e Integração Nacional nas mãos do PMDB, não há crise que prospere, nem escândalo que tenha fôlego.

Mas tudo cobra seu preço. O PMDB, bem mais do que o PT, é especialista em alavancar sua força política a partir das posições de poder que já ocupa. E com uma linha de comunicação singular, ainda que involuntária. Ao se apresentar como partido sempre dividido, o PMDB esconde sua ambição atrás do biombo do fisiologismo. Já o PT, que se orgulha de sua organicidade e ideologia, sofre o infortúnio de ver seu apetite fisiológico ser interpretado invariavelmente como simples propensão ao monopólio do poder. Por isso o PT eventualmente provoca medo em alguns, enquanto ao PMDB estes dedicam apenas aversão.

Naturalmente que não em nós, profissionais da observação habituados às idas e vindas dos políticos, de suas idéias e conveniências. Por exemplo, assim como foi conveniente para o PT unir o PMDB em torno de Lula para pacificar a cena brasiliense e nacional, especula-se agora no PT (particularmente na facção senatorial) com a estratégia de dividir o aliado, dado que a excessiva força deste poderá, algum dia, representar dor de cabeça para o projeto de poder petista. É por isso que o PT senatorial deseja lipoaspirar o PMDB do Senado, enquanto anaboliza o da Câmara. Ainda que o primeiro seja aliado de todas as horas do governo Lula, enquanto o segundo passou a maior parte dos últimos seis anos dormindo com o governo mas sonhando com a oposição.

Vamos ver no que vai dar. O primeiro resultado do movimento petista é a consolidação da candidatura de Michel Temer (PMDB-SP) para presidir a Câmara. Para Temer, trata-se apenas de manter o barco navegando até o dia da eleição, rezando para que tudo dê certo no voto secreto. E o PT anda ameaçando ir atrás da Presidência do Senado, tirando do armário a velha bandeira da ética, útil ao partido de tempos em tempos. Parece querer buscar uma aliança com a dissidência peemedebista e com a oposição, para assim esmagar os que até ontem Lula definia como os melhores amigos dele. Aparentemente, porém, Lula não está nessa. Compreende-se.

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