quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Estatais, graças a Deus (08/10)

É notável (oh, os adjetivos) a implicância dos bem-pensantes com o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). É um fenômeno que vem da segunda metade dos anos 80 do século passado. Coisa portanto antiga. Como nós. Antes, o MDB/PMDB (o partido mudou de nome na reforma política imposta pelo governo Figueiredo) havia adquirido respeitabilidade e musculatura na luta contra o regime militar. O início foi difícil, após a dissolução das legendas pelo AI-2 (1965) e a imposição de regras draconianas que conduziram ao bipartidarismo, cenário em que surgiu o MDB. Na passagem dos anos 70 para os 80, o ainda novinho MDB foi alvo da ira da parcela da esquerda que optara pela luta armada e pregava o voto nulo nas eleições. Chamavam-no, pejorativamente, de "oposição consentida". Já o Partido Comunista Brasileiro (PCB) via no MDB a oportunidade de criar um movimento legal de oposição, pois as organizações de esquerda estavam proscritas. O PCdoB passou a participar do MDB na segunda metade da década de 70, depois da derrota militar na Guerrilha do Araguaia. Em seguida vieram os outros grupos (melhor dizer pessoas) que haviam sobrevivido à repressão. Essa migração da esquerda para o MDB desencadeou a fúria do regime, que simultaneamente passou a editar pacotes com o objetivo de impedir que o MDB vencesse eleições (leia sobre o Pacote de Abril) e a escalar violentamente a perseguição ao PCB e ao PCdoB. Mas a História registra que os espasmos da ditadura apenas atrasaram a redemocratização, não conseguiram evitá-la. Especialmente depois que o segundo grande salto do preço do petróleo desencadeou a crise internacional que engoliu nosso país ao longo da administração Figueiredo. A redemocratização aconteceu porém de maneira torta. O grande líder da oposição no fim da ditadura era Ulysses Guimarães, presidente do PMDB. Só que as eleições diretas para presidente não vieram e o candidato (indireto) acabou sendo Tancredo Neves, que morreu sem tomar posse e deixou o lugar para José Sarney, que vinha de ser o presidente do partido do regime saído. O que aconteceu a partir daí sabe-se: o PMDB e Ulysses Guimarães dominavam o governo e, ao mesmo tempo, faziam oposição. Sarney sobreviveu politicamente porque, além da sabedoria e experiência, teve a iniciativa de lançar sucessivos pacotes econômicos e não deixou seu governo ser engolido pela hiperinflação. Na época, como se recorda, a moda eram os choques heterodoxos, nascidos da convicção de que o vetor fiscal não era importante para a estabilidade da moeda. Convicção que sobreviveu até a crise cambial da passagem do primeiro para o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Desde então, o país de certo modo caiu na real. Mas voltemos ao PMDB. Mais para o final dos anos 80, o chique era combater o fisiologismo na política. O que com o tempo acabou se transformando em crítica da política em geral. Um fenômeno que elevou Fernando Collor às alturas e, em seguida, acabou por derrubá-lo. Em contraposição aos "partidos fisiológicos" (PMDB), vitaminavam-se os supostamente "ideológicos", como o PT e o PSDB. O "fim da política" guardou certa simetria com o "fim da História" e o surto antiestatal que cercou e se seguiu ao colapso do socialismo na Europa. Tudo isso agora parece distante, num mundo em que o capital se volta em desespero para o Estado na busca de salvação. (Clique na imagem acima para ler reportagem do The New York Times a respeito.) Em que cresce a fome por regulação e participação do Estado, para proteger a sociedade dos efeitos catastróficos da livre acumulação e circulação do capital. Um mundo em que os países redescobrem a questão nacional como indispensável (leia O velho mundo novo). Vivemos o fim de uma longa noite de homogeneidade artificial do pensamento. O que é bom. Muito bom. Claro que não foi por isso que o PMDB ganhou a eleição municipal. Mas é curiosa a coincidência entre a ressurreição do partido e a ruína do arcabouço ideológico dos que pretendiam sepultá-lo. O título deste post? Trata-se de uma homenagem ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal. Espero que nos ajudem a sair desta. Graças a Deus, não conseguiram privatizá-los, quando isso estava na moda.

http://twitter.com/alonfe

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

5 Comentários:

Blogger Danilo disse...

Alon, simples.

Jogue na conta de ter que salvar os bancos privados, o custo econômica de sua ineficiência estatal?
Isso ainda nos EUA, no Brasil então aonde os órgão estatais muitas vezes são uma várzea completa, esse custo seria muito maior.

Ou por acaso pensa diferente.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008 09:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Para Danilo,

Eu penso diferente, e muito, ou quanto você acha que está custando essa "salvação" no mundo e aqui no Brasil.

Empresa ESTATAL não é cabide de emprego.

Venderam a Vale por poucos US$BI, e agora quanto estão gastando para socializar o prejuizo com a farra cambial que está detonando o mercado.

Luiz

quinta-feira, 9 de outubro de 2008 12:05:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Bem, espero que o BB salve mesmo o Brasil, depois de o Brasil ter salvo tantas vezes o BB (ou o lobby rural, tanto faz) com pacotes bilionários de capitalização. Afinal, uma mão lava a outra

quinta-feira, 9 de outubro de 2008 22:35:00 BRT  
Anonymous Fernando Trindade disse...

"Mutatis mutandis" o PMDB tem hoje a função que o PSD teve entre 46 e 65. (Aqui um parêntesis, a extinção dos partidos políticos pelo AI2 foi um dos atos mais repugnantes da ditadura e que teve apoio de muitos 'bem-pensantes' na época). Voltando à função do antigo PSD, aquele partido era "o centro político" e foi a aliança da esquerda com o PSD que levou a coligação reformista dirigida por JK e Jango ao Governo em 1955, derrotando a UDN.

Foi o rompimento da aliança PTB PSD no pré-golpe de 64 que levou à tragédia, à tentativa dos generais e das elites 'bem-pensantes' de suprimir a política, inicialmente com o apoio da UDN (Miltom Campos e o próprio Lacerda perceberam depois a armadilha em que tinham se metido).

Portanto, a aliança PT PMDB é hoje a retomada da aliança PTB PSD no passado e está permitindo a Lula (que percebeu a importância dessa aliança)obter a maioria político-parlamentar necessária para levar a bom termo o seu governo.

Se a aliança PMDB PT já tivesse sido firmada no 1º mandato o episódio mensalão não teria atingido o alcance que teve.

Por fim, a chance de Lula "fazer o sucessor" está diretamente ligada à manutenção da aliança PT PMDB. Se a aliança for rompida a coligação centro-reformista não deve eleger o sucessor de Lula, se eleger não conseguirá governar.(Ninguém se iluda. É muito forte o peso político-cultural do elitismo político cultural no País (de que são exemplos as candidaturas de Kassab e Gabeira).

Fernando Trindade

sábado, 11 de outubro de 2008 20:45:00 BRT  
Blogger Richard disse...

graças à Deus, mesmo!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008 17:14:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home