terça-feira, 28 de outubro de 2008

Do trágico ao ridículo - ATUALIZADO (28/10)

De Kennedy Alencar hoje na Folha de S.Paulo:

Lula pede, mas banco não eleva crédito

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou com grandes banqueiros na semana passada para pressioná-los a abrir as torneiras do crédito. Ouviu respostas desanimadoras. Segundo a Folha apurou, os grandes bancos disseram que a prioridade, no momento, é construir um "muro de liquidez" -ação preventiva e de sobrevivência no médio e longo prazo em relação à crise econômica mundial, que estrangula o crédito e as empresas. Lula ficou contrariado, segundo relato de integrantes da equipe econômica. Os grandes bancos aumentaram muito o grau de seletividade para concessão de crédito. A maior parte do dinheiro que entra via redução do compulsório após medidas do Banco Central não retorna ao mercado sob a forma de empréstimo. Receosos em emprestar e preocupados em manter sua solidez num momento de grandes incertezas, os grandes bancos seguram em caixa os recursos e aplicam nos títulos do próprio governo, atraídos por uma taxa básica de juros (Selic) de 13,75% ao ano. A Folha apurou ainda que os maiores bancos privados do Brasil têm também procurado se capitalizar para, caso apareça uma oportunidade de compra estratégica de carteiras ou de instituição, terem recursos em caixa para a operação. Ou seja, a liberação condicionada de estimados R$ 50 bilhões do compulsório (parcela dos depósitos que os bancos são obrigados a recolher no BC), deixando mais recursos livres para empréstimos, tem tido pouco efeito prático.


Leia a íntegra da reportagem. Bem, o compulsório agora liberado para os bancos não é dinheiro deles, é dinheiro dos clientes. E, em vez de emprestar para fazer a roda girar, os bancos preferem aplicar em títulos do governo e manter as arcas cheias para irem às compras e concentrar ainda mais o mercado. Quanto ao primeiro aspecto, calcule você mesmo quanto o banco ganha recebendo a Selic por uma grana que não lhe custou nada. É filé sem osso. Quanto ao segundo, note que o dinheiro das pessoas e das empresas está retido nos bancos para dar mais poder ainda aos próprios. É o caso de perguntar: além de uns telefonemas, o presidente da República vai fazer mais o quê?

Passemos a analisar a oposição. Do Painel de hoje, na mesma Folha:

Onde pega. PSDB e DEM reúnem suas bancadas hoje no Senado para propor ajustes na MP 443. No caso dos "demos", foi acertada a apresentação de emenda que impede a Caixa de comprar empresas -leia-se, construtoras- em crise. Os "liberais" preferem socorro do Tesouro.

A oposição gosta de elevar o tom de voz quando se trata de exigir contrapartidas do pobre que recebe um dinheirinho do Bolsa Família. São as tais "condicionalidades". Leia Ninguém é idiota por ser pobre. Leia também Foi mal na escola? Cuidado com o seu Bolsa Família. Já para os ricos, o certo é distribuir recursos do Tesouro sem que o Estado receba as necessárias garantias de que terá o dinheiro de volta. Se o Estado vai capitalizar uma empresa, é razoável que ele se torne acionista. Se o empresário não estiver satisfeito com as condições, que procure outras fontes de capitalização, talvez movidas pela benemerência, pela filantropia. Como visto acima, os bancos estão segurando o dinheiro. Que não é deles. Por isso, os empresários querem que o governo faça o que os bancos se recusam a fazer. Mas os empresários não aceitam oferecer garantias de que o governo vai ter de volta o dinheiro público usado para ajudá-los. De que lado estão o PSDB e o Democratas? Do lado das empresas. Recapitulando. O presidente da República dispara telefonemas suplicantes aos banqueiros, pedindo que emprestem ao público o dinheiro que é do público. Recebe como resposta um "não". Entrementes (essa você não ouvia há tempos), a oposição se mobiliza no Congresso Nacional e quer liberar dinheiro do Tesouro à vontade para as empresas, sem exigir contrapartidas ou garantias. Isso acontece enquanto os principais porta-vozes da oposição clamam na imprensa por reformas que reduzam os benefícios da Previdência Social e a remuneração dos funcionários públicos. Tudo em nome da "contenção de gastos".

Se não fosse trágico, seria apenas ridículo.

Atualização, 29/10 às 10:48 - Leia The Widening Gyre, de Paul Krugman, no The New York Times. Dois trechos:

(...) last week Joe Nocera of The Times pointed out a key weakness in the U.S. Treasury’s bank rescue plan: it contains no safeguards against the possibility that banks will simply sit on the money. “Unlike the British government, which is mandating lending requirements in return for capital injections, our government seems afraid to do anything except plead.” And sure enough, the banks seem to be hoarding the cash.
(...)
What’s happening, I suspect, is that the Bush administration’s anti-government ideology still stands in the way of effective action. Events have forced Mr. Paulson into a partial nationalization of the financial system — but he refuses to use the power that comes with ownership.

Parece familiar?

http://twitter.com/alonfe

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

11 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Posso estar equivocado, mas me pareceu que a MP, do jeito que veio, faculta a compra de empresas ou bancos sem qualquer critério. Isto é, no caso a Caixa, um banco estatal, poderia comprar o que bem entendesse pelo preço que quisesse.

O problema é que toda essa liberalidade é impossível em um banco público. Suponha que a Caixa adquira uma empresa em dificuldade e, depois de constatado o verdadeiro grau de dificuldade, a Caixa ainda precise colocar mais dinheiro para arrumar a empresa. Como fica?

Eu concordaria se os critérios de compra estivessem mais transparentes. Do jeito que veio do executivo, isso está na medida certa daqueles antigos socorros estatais que visavam salvar o patrimônio pessoal dos capitalistas amigos do rei.

A MP não deixa claro o que a Caixa deve comprar e como ela irá às compras. A correria ao mercado dos vendedores de facilidades em meio a dificuldades vai se tornar a regra que a MP não estabelece, se não houver o necessário limite e transparência.

terça-feira, 28 de outubro de 2008 14:15:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Li agora o editorial do ESP sobre a MP 443.

Conordo com esta análise:

"Algumas pessoas parecem não haver entendido (será o caso do presidente Lula?) que a crise financeira no mundo rico está associada à falha de regulamentação e não à falta de estatização."

Tomo a liberdade de colocar o link para o editorial, que está aberto:

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081026/not_imp266558,0.php

terça-feira, 28 de outubro de 2008 19:42:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

O dinheiro é dos bancos? Não. Então o dinheiro é do governo? NÂO!

terça-feira, 28 de outubro de 2008 22:22:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Co-Araujo, a não ser que o assalte uma súbita crise paranóica - à la Olavo de Carvalho ou Reinaldo Azevedo - não há como imaginar que um governo Lula pretenda, sob a capa de MP's, desencadear um surto estatizante. Infelizmente. (rs)
Os limites à ação do BB ou da CEF estão muito mais na correlação de forças vigente que em eventuais parágrafos da lei.
Não imputo a si o que afirmarei, mas a banca, as construtoras e seus edis sacaram da arma do anti-estatismo pelas razões devidamente identificadas pelo Alon.

terça-feira, 28 de outubro de 2008 22:50:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Lauro Jardim, na VEJA, informa que até agora três dos maiores banqueiros do País afirmam não terem recebido nenhum contato por parte do presidente Lula. Tem que ver se essa história do presidente pedir socorro a banqueiros procede. A oposição tem razão, não se pode abrir as pernas ao risco de um surto estatizante, pois como todos sabemos, o que o presidente Lula fala não se escreve.
Abs.
Fernando José - SP

quarta-feira, 29 de outubro de 2008 09:16:00 BRST  
Anonymous Gaius Baltar disse...

Caro Alon,

Parabéns por seu comentários sobre as eleições. Você foi um dos primeiros a destacar a agora inquestinável vitória do PMDB, com tudo que isso possa representar para a sucessão de Lula em 2010.
Contudo, na questão dos Bancos, sou forçado a informá-lo que o dinheiro dos clientes, quando é depositado em banco, passa à propriedade destes. Sim, é isso mesmo. O que ocorre é que o banco se torna devedor daquela quantia para os clientes. Mas a disponilidade sobre o dinheiro passa a ser da instituição financeira depositária. Isto é da natureza do contrato de mútuo, tal como previsto no código civil:

Seção II
Do Mútuo

Art. 586. O mútuo é o empréstimo de coisas fungíveis. O mutuário é obrigado a restituir ao mutuante o que dele recebeu em coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade.

Art. 587. Este empréstimo transfere o domínio da coisa emprestada ao mutuário, por cuja conta correm todos os riscos dela desde a tradição.

Essa é a estrutura do contrato desde os primórdios do direito romano.

Por isso, talvez, a situação de o governo se ver obrigado a negociar com o banqueiros, não podendo obrigá-los a realizar empréstimos diretamente.
Abraços

quarta-feira, 29 de outubro de 2008 10:53:00 BRST  
Blogger Richard disse...

O mercado desregularizado e com crédito farto levou à crise atual... não foram as causas, mas começou alí, com todo o processo neoliberal, de abertura da economia, destruição de direitos etc, o caminho que terminou nesta crise.
Agora, o "mercado" recorre ao Estado... e ainda se recusa à dar contrapartidas!!! Francamente, esperar que o Presidente Lula, que desde que assumiu, adotou esta mesma linha neoliberal, venha agora tentar algo diferente... acho que é muito tarde.
O caminho do Brasil parece ser, cada vez mais, ficar à reboque das decisões de outras nações com projeto e liderança!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008 11:11:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Co-Araújo

"como imaginar que um governo Lula pretenda, sob a capa de MP's, desencadear um surto estatizante."

O PT já demonstrou que a sua imaginação para inventar presepadas não conhece limites.

A política aceita melhor as presepadas do PT, mas a economia não. Os petistas sabem disso. Não por acaso eles sempre recorrem aos tucanos, quando o assunto é política econômica.

É assim com o Lula e foi assim com a Marta, quando pegou a prefeitura finaceiramente estropiada e chamou o tucano João Sayd para por ordem na bagunça. Arrumada a casa, Marta dispensou o secretário e deu início à lambança, de triste memória. Deu no que deu. Nunca mais se elege aqui em SP. Meu receio previdente é que o Lula resolva chamar os palpiteiros "economistas" do PT.

No caso da MP 443, não se trata de paranóia. Trata-se de ser previdente. De que vale reclamar depois que raposa fez o seu costumeiro avança no galinheiro?

Mas eu temo menos um pouco provável surto estatizante. Eu temo muito mais o Estado patrimonialista e o seu loteamento político entre as novíssimas e velhas oligarquias. No Estado patromonialista do Brasil, o mercado de venda das facilidades em meio ao mar de dificuldades oferece oprtunidades de ganhos superiores aos do comércio de drogas e armas, além de ser muito mais seguro e, via de regra, contar com o entusiasmado aval do executivo, como vimos recentemente acontecer na fusão Brt e OI.

Agora, Co-Araújo, se você recorrer à embreagem do discurso ("realismo polítco") para engatar uma marcha adequada para permitir que o governo Lula prossiga ladeira acima, o que posso fazer?

quarta-feira, 29 de outubro de 2008 13:31:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A oposição propõe crise com data marcada para terminar. As medidas adotadas pelas economias dos países centrais,colocando o tesouro, (Banco Central)deles,como operadores,deve-se à inexistência de "bancos estatais".Os "demos",na falta de contribuição cívica,almejam
prorrogar a campanha eleitoral,quem sabe até 2010.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008 18:19:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

There's no such a thing as a free Romanné Conti.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008 06:22:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Co -Araújo, primeiro limpando o terreno: a Prefeitura de São Paulo foi entregue a Serra sem nenhuma "lambança" financeira, como comprovam os balancetes de 2004 e os saldos de caixa já obtidos em fevereiro de 2005. Houve uma operação político-midiática que consistiu em não pagar credores, propositalmente, ainda que os recursos estivessem disponíveis, para gerar filas, protestos e photo-ops.
Em segundo lugar, se a condução econômica do governo Lula tivesse diretriz tucana, teríamos afundado nesta crise mais rápido que o Titanic, vítimas que já fôramos de crises bem menos robustas, como as do Sudeste da Ásia e da Rússia.
As diretrizes deste governo diferem das do de FHC em aspectos fundamentais: redução da exposição externa; realismo cambial; prioridade das relações comerciais Sul-Sul; formação de mercado interno dinâmico; recomposição salarial de categorias profissionais, do mínimo e de pensões; criação de um verdadeiro mercado de crédito para o consumo; diversificação da pauta exportadora; investimento público em infra-estrutura; política creditícia arrojada para a agricultura familiar e agronegócio; recomposição da máquina estatal; programas de mobilidade social eficazes.
Fazer ilações sobre presepadas petistas (sim, as há, e daí?) para jogar as cartas da estatização ou do patrimonialismo é reprodução local do discurso terrorista de McCain, algo muito acima de suas qualidades de analista e debatedor.
Chamar de "embreagem" a introdução da realpolitik, da avaliação de correlação de forças, na descrição de cenário é, a meu ver, tergiversação. Ou vc acha que eventuais vontades estatizantes - das quais, infelizmente para mim, o governo Lula é muito pouco dotado - podem ser levadas à prática no Brasil, ao arrepio da imprensa e do Capital?
Lastimo que vc tenha "entortado" a discussão. Deve ser o hábito adquirido em 30 anos de agenda interditada, sobre as relações mercado x Estado.
abraços

sexta-feira, 31 de outubro de 2008 12:27:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home