sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Batalha morro acima (10/10)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Qual é a dificuldade do PT no segundo turno? Ela tem a mesma origem dos problemas de 2004, quando uma primeira rodada de “onda vermelha” foi seguida de uma segunda onda, de isolamento. Os problemas estão na política


Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A língua inglesa oferece a expressão fight an uphill battle, lutar uma batalha morro (ou colina) acima, quando alguém descreve o combate travado em circunstâncias extremamente difíceis. É a situação de John McCain. A sociedade americana foi engolfada pela mais aguda crise financeira desde a Grande Depressão. Por isso, parece pouco disposta a manter a mesma turma republicana na Casa Branca por mais quatro anos. Daí que a campanha de McCain comece a resvalar para a baixaria. Vamos esperar pelos resultados do vale-tudo.

Quem também vai lutar uma batalha morro acima neste segundo turno é o PT, especialmente nas grandes capitais, onde se joga o destino do partido na eleição municipal. Os resultados da primeira rodada ensejaram todo tipo de avaliação. Cada um dos atores políticos deu seu jeito de lustrar os números mais adequados à versão de que ele próprio, incontestavelmente, teria sido o grande vitorioso. Agora, porém, não haverá muito como fugir: segundo turno é preto no branco, é tudo ou nada. É, como se diz, uma daquelas horas nas quais os homens (ou as mulheres) se separam dos meninos (ou das meninas).

Um terreno aparentemente favorável ao PT no primeiro turno foram as capitais, onde o partido garantiu o maior número de prefeituras entre as legendas. Claro que o resultado pode também ser lido de outro jeito. Das seis capitais vencidas pelo PT, em cinco tratou-se de reeleição, sendo que três delas são de estados relativamente pouco populosos do Norte e do Centro-Oeste. A sexta é Vitória, com seus pouco menos de 250 mil eleitores. Os dois maiores centros abocanhados pela sigla foram Fortaleza (reeleição) e Recife, onde já governa.

Ou seja, o PT encontra-se nesta véspera de segundo turno ligeiramente abaixo de seu desempenho de 2004 nas capitais. Precisará vencer pelo menos em Porto Alegre ou Salvador para ficar no zero a zero, desde que desistiu de lançar candidato em Belo Horizonte. BH, junto com Recife, foi uma das jóias arrebatadas pela sigla há quatro anos logo de cara no primeiro turno. E um zero a zero, convenhamos, será pouco para a máquina política comandada pelo presidente da República mais festejado da história recente.

Qual é a fonte das dificuldades do PT neste segundo turno? Elas têm a mesma origem dos problemas vividos em 2004, quando a uma primeira rodada de “onda vermelha” seguiu-se uma segunda, de isolamento e (bem) mais derrotas do que vitórias. Os problemas estão na política. Estão num trecho de DNA petista responsável pela tendência a subestimar as alianças e a encará-las de maneira apenas tática e circunstancial, à espera do momento certo para liquidar o aliado e tomar as posições que ele ocupa.

Um caso paradigmático é Salvador. O PT ajudou quatro anos atrás a eleger o prefeito João Henrique Carneiro, então no PDT. Já na cadeira, o alcaide migrou para o PMDB, tornando-se aliado de Geddel Vieira Lima, o ministro peemedebista da Integração Nacional. Em 2006, o petista Jaques Wagner só conseguiu derrotar o então governador Paulo Souto (PFL, hoje DEM) porque se aliou a Geddel, ainda que o PT credite a vitória à participação intensa de Luiz Inácio Lula da Silva na campanha. Apoio de Lula, como sabem agora os políticos, é bom mas não é tudo.

Até pouco tempo, o PT integrava o governo peemedebista de João Henrique e a política baiana equilibrava-se num interessante tripé: o governo estadual com o PT, o da capital na mão do PMDB e a oposição com o DEM. O que aconteceu? Pouco antes da efetivação das candidaturas, o PT decidiu abandonar João Henrique (que havia ajudado a eleger e de cuja administração participava organicamente) e lançar candidato próprio à vaga. Pretendeu o PT unir o agradável ao útil: desvinculava-se de uma administração com problemas de imagem junto ao eleitorado e, ao mesmo tempo, promovia a liquidação de um aliado (Geddel) que no futuro poderia, quem sabe?, pensar em vôo próprio na sucessão estadual.

Se Walter Pinheiro (PT) vencer em Salvador, será um feito e tanto. Se perder, terá construído um cenário de derrota para o seu governador e vai vitaminar uma aliança que pareceria impossível, do pós-carlismo com o peemedebismo baiano, adversários históricos. Convenhamos que o palco assim decorado representaria grande dor de cabeça para o projeto de reeleição de Wagner. Fazer o quê? Parece ser da natureza do PT que coisas assim aconteçam.

http://twitter.com/alonfe

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, parabéns. Concordo com a sua leitura. Acrescento que o PT no poder demonstrou ser sectário. A traição aos partidos de esquerda na eleição da Presidência da Câmara Federal é a prova de tal fato: a reeleição do Aldo Rebelo seria a demonstração de reciprocidade entre o PT e os partidos de esquerda (PSB, PCdoB, PDT). Mas, no entanto, o PT preferiu sacrificar parceiros históricos para fazer uma composição estratégica com o PMDB (onde isto vai chegar só saberemos em 2010). O PT de BH, sabendo que o filme com as esquerdas já queimou, fez um movimento para desanuviar esta pecha apoiando o PSB para a cabeça de chapa - a direção nacional paulista do PT não compreendeu que hoje as capitais estão querendo dar um castigo no PT. Este é o meu parecer, salvo melhor juízo.

Rosan de Sousa Amaral

sexta-feira, 10 de outubro de 2008 14:01:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Assim como é da natureza do escorpião ferroar o sapo mesmo que no meio da travessia, é também da natureza do sapo deixar-se convencer pela lógica do escorpião. O que faltou na fábula foi contar qual vantagem o sapo visava ao ceder aos apelos do escorpião. Ficar nessa que o sapo é só um bobão, não creio nisso.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008 17:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O que considero mais válido é que sempre falta um componente fundamental nos arranjos: combinar com o eleitor. Por mais surrada que seja tal expressão, ela comprova, em toda eleição, que está-se sempre confundindo a coisas: políticos fazem os arranjos, mas quem dá a palavra final é o eleitor. Às vezes ele pode até demorar um pouco para perceber. Em outras vezes ele dá respostas mais imediatas, por perceber muito antes e desarranjar a festa, tornar o champagne amargo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008 17:47:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008 18:40:00 BRT  
Blogger Jura disse...

Batalha morro acima foi exatamente o que fizeram nossos pracinhas na Itália. Luta cheia de contradições, conveniências, oportunismo e muita improvisação e sacrifício pessoal dos humildes, do jeitinho brasileiro.

Sacrifício que embora gravado em lápides e monumentos italianos cercados de turistas - inclusive brasileiros - ninguém sabe, ninguém viu. Talvez apenas algumas cidades toscanas, como Pistoia, que chegaram a se animar com algum retorno turístico enquanto o dólar esteve barato... Mas nada que se compare com a renda proporcionada pelas saudades dos ex-combatentes americanos que nos emprestaram seus uniformes, armas e veículos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008 13:01:00 BRT  

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