sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A tentação bélica dos radicais (05/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Desta vez, os fundamentalistas de dedo no gatilho são candidatos ao topo da cadeia de comando da maior potência militar do planeta

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Lendo o título desta coluna você pode achar que o assunto aqui será o Irã. Ou o Hezbollah. Errado. O tema deste artigo são os Estados Unidos. A idéia veio-me à cabeça enquanto assistia a reportagens sobre a convenção do Partido Republicano que indicou John McCain e Sarah Palin para concorrer a presidente e vice daquele país nas eleições de novembro.

Enxergar a política, inclusive a americana, com facciosismo ou paixão é sempre complicado. Em meados de agosto, por exemplo, o colunista Thomas Friedmann publicou no The New York Times artigo mostrando como a arrogância imperial da administração democrata de Bill Clinton está na raiz das tensões atuais entre a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a Rússia.

A rigor, não há distinções essenciais entre o que os Estados Unidos fizeram em Kosovo e o que vêm fazendo no Iraque. Nesse aspecto, Clinton não foi muito diferente do que é George W. Bush. Digamos que a diferença talvez esteja na maior capacidade de colar um sorriso nos lábios enquanto se vende o peixe podre.

Nos Estados Unidos, como em qualquer outro lugar, a inércia e as forças centrípetas (as que puxam para o centro) pressionam o poder em direção a determinadas políticas moldadas pelo establishment, políticas geralmente embaladas no papel bonito das “razões de Estado”. Há exceções? Sim, nas grandes rupturas, tão raras que acabam ganhando destaque nos livros de História. Mas a regra é a acomodação. Barack Obama não fugirá dela, se eleito. Assim como Luiz Inácio Lula da Silva não fugiu.

Na análise política e histórica, entretanto, é preciso sempre estar atento ao novo, ao improvável. E o novo nesta eleição americana é que os candidatos do Partido Republicano começam a escorregar para um extremismo belicoso, com fortes traços fundamentalistas. Considerando que o presidente dos EUA é, teoricamente, um sujeito que tem o poder de destruir o planeta, sobram motivos para preocupação.

O hoje senador John McCain foi prisioneiro de guerra no Vietnã. A opinião dele é conhecida: os Estados Unidos só não saíram vitoriosos na Indochina porque não empregaram força militar suficiente. Quem sabe algumas bombas atômicas ou de hidrogênio não tivessem tido sobre os vietnamitas o efeito que as explosões em Hiroshima e Nagasaki tiveram sobre os japoneses na Segunda Guerra Mundial, não é? Isso é John McCain, um sujeito que parece tentado a usar o poder de fogo dos EUA para reescrever a própria biografia.

A maluquice não é incomum na história americana. Em 1945, o general George Patton pretendia aproveitar a suposta fraqueza do exército soviético, que registrava 10 milhões de soldados e oficiais mortos (os militares americanos mortos entre 1941 e 1945 foram meio milhão), para atacar a União Soviética. Por isso, Patton foi colocado na geladeira pelo presidente Harry Truman. Na década seguinte, outro general, Douglas MacArthur, quis transformar a Guerra da Coréia num conflito total contra a China, recém-convertida ao comunismo. Foi demitido na hora, pelo mesmo Truman. Que acabou aceitando o armistício que levou à atual divisão da península coreana.

Malucões sempre houve e haverá no ambiente militar, assim como na política. Especialmente quando o excesso de poder e força nutre a ilusão da onipotência. O remédio para esse risco é conhecido. Como dizia Georges Clemenceau, ao refletir sobre as pilhas de mortos inúteis na frente franco-alemã no conflito 1914-18, a guerra é importante demais para ser deixada a critério dos generais. Ou seja, para cada militar que acha possível resolver tudo na bala é preciso que haja um líder político pragmático com ascendência para lhe dar ordens.

E a vice de McCain, Sarah Palin? Ela pensa que os Estados Unidos cumprem no Iraque uma missão divina. Precisa mais? Acho que não. O mundo que ponha as barbas de molho. Desta vez, os fundamentalistas de dedo no gatilho são candidatos ao topo da cadeia de comando da maior potência bélica do planeta, algo que não acontecia desde Barry Goldwater, em 1964. E com chances de ganhar. Num mundo em que a continuidade dos padrões de consumo, prosperidade e domínio dos Estados Unidos exige o controle cada vez maior de fontes de riqueza de outros países, inclusive das nações emergentes com aspiração a potência.

Daí o título desta coluna. Tomara que ela esteja totalmente errada.

http://twitter.com/alonfe

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6 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Do ponto de vista do espetáculo estas eleições são as mais animadas dos últimos tempos. Acompanho marginalmente. Mas convenhamos que do ponto de vista do espetáculo o discurso da Srª Palin foi ótimo. Surpreendeu republicanos e desconcertou os democratas.

Antes que chovam paus e pedras, aviso que concordo com o Alon sobre ser o sorriso na hora de vender o peixe podre a principal distinção entre democratas e republicanos. Sobretudo para nós, que habitamos abaixo da linha do equador.

Os que o lêem, Alon, sabem que você não milita no nefasto jornalismo isento. Tem as suas opiniões e preferências e não as oculta dos seus leitores com o manto do isentismo. Ninguém está livre de ser axiomático. Por isso é sempre bom buscar escorar as opiniões e análises não na ideologia, mas nos fatos. Para mim essa é uma marca que distingue o blog.

Eu discordo que o Brucutu da política é marca registrada do Império do Tio Sam. Penso que vivemos em uma época favorável ao surgimento de Brucutus. Eles estão em todos os campos do velho espectro político que, desde um hipotético centro, espraia-se à direita e à esquerda. Compare-se os discursos políticos e atitudes políticas dos Brucutus chefes de Estado Chávez, Putin, Berluscone, para citar apenas estes. A China progride economicamente a olhos vistos chupando o sangue dos camponeses que migram para as cidades. Lá, Estado democrático de direito e direitos humanos, nem pensar. Exigir dá cadeia ou bala na cabeça... E o que dizer do terrorismo ativado pelas seitas religiosas no Oriente como meio político? E o que dizer dos idiotas politicamente corretos que odeiam Bush e que justificam o terrorismo apoiados numa grosseira e idiotizante interpretação do Maquiavel? Não são apenas os americanos do norte. É o mundo que vai mal, Alon.

O saldo positivo das revoluções do século XVII e XVIII reside na grande importância ao estabelecimento das liberdades individuais e ao estabelecimento dos direitos da cidadania. Hoje o mundo é menos absolutista do que era antes dessas revoluções. Analisando os resultados históricos da revolução de 1917 podemos dizer com segurança que o mesmo não aconteceu como desdobramento da revolução comunista. Deu-se exatamente o contrário: regime totalitário com supressão das liberdades e dos direitos da cidadania. E foi assim até o simbólico 1991.

Embora a crítica da economia política esteja em pé, a previsão de Marx sobre o estabelecimento de uma sociedade comunista como A solução para os problemas enunciados na sua Crítica mostrou-se incorreta. Tida como a mais pura interpretação científica da história, a previsão de Lênin de que uma sociedade livre e sem classes seria criada na Rússia com o recurso da ditadura seguiu para o esgoto. Apoiada nos fatos, a análise realista recusa ativar conceitos como razão de Estado e realismo político (há um nome para tudo isso: mentira) para “explicar” o injustificável. Apoiada nos fatos, a análise não pode fugir da seguinte constatação: a história que começou em 1917 e encerrou-se em 1991 está repleta de promessas não realizadas e realizações sanguinárias.

Não me surpreendo nem com as personalidades políticas e nem com os avanços republicanos na campanha presidencial americana. Essas análises catastrofistas me soam como a versão política do discurso que anuncia o iminente Apocalipse climático. Definitivamente, nem Obama é um santo guerreiro e nem McCain é um dragão da maldade.

Não sei de onde (imagino: odiar Bush é um distintivo no peito dos politicamente corretos) os blogs e jornalistas amigos do auto-referido “governo da esquerda com Lula” encontram fatos para sustentar a preferência pelo Obama. Eu penso que uma explicação para o fenômeno da preferência está na importância que essa gente confere ao discurso (no sentido de palavrório; retórica) em total desinteresse ou desprezo pelos fatos. É a ideologia cumprindo a sua função emburrecedora. Para esse sebastianismo de esquerda, o que fala Barack é progressista, o que fala Barack é de esquerda. Vai gostar de ajoelhar aos santos lá na Conchinchina.

Abs.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008 16:40:00 BRT  
Anonymous Sueli - Porto Alegre disse...

Vou me entregar ,logo!
Só tenho que pensar prá que lado.Acho que tô mais pro Putin.
O BRIC não tá na parada?
Pode ser que resolva ser Chinesa.
Tu vais ficar de que lado?

domingo, 7 de setembro de 2008 16:17:00 BRT  
Anonymous Jose Oswaldo Bosso disse...

Caro Alon, dois pontos:
1- Na guerra do Vietnã, em documentos secretos que saiu faz alguns anos, o Pres. Nixon (republicano) chegou aventar a hipótese de usar bomba atômica, perguntando a sua equipe, foi desaconselhado, entre outros, pelo Secretário de Estado, Henry Kissinger.
2- Uma vitória de Obama traria sobrevida e algum fôlego na retomada da liderança dos EUA no mundo antes da descendência alá britânicos (pós 45), a controvérsia é grande, entre uma a três décadas.
Sds,

domingo, 7 de setembro de 2008 20:44:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O Bruno Garschagen escreveu uma sequências de posts interessantes sobre as eleições americanas.

Particularmente, o post referido ao artigo do Robert Kagan sobre a retórica da guerra fria em Barack Obama. Kagan (a vontade de um trocadilho é irresistível...) caçoa sobre o pacifismo e os pacifistas vestidos à moda de Obama.

O artigo foi publicado na FSP. Tomo a liberdade de indicar o o endereço do blog do Bruno

http://brunogarschagen.com/

abs.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008 14:26:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Esqueci de colocar a referência para o artigo do americano

Não se iludam, Obama é um autêntico intervencionista

FSP 31/08/2008 (link fechado)

O post reproduz o artigo e comenta o irrealismo político da oposição "militarismo republicano" X "pacifismo democrata", com o sugestivo título

"Quando a análise política se converte em diagnóstico médico"

segunda-feira, 8 de setembro de 2008 14:41:00 BRT  
Blogger Julio Neves disse...

Quando a palavra fundamentalismo entra em ação, lembro do bom e velho Israel. País odiado pelo mundo. E com suas bombas atômicas que poderiam fazer desaparecer do mapa os países árabes num piscar de olhos, prefere ficar no seu canto torcendo pela paz.

Palin e Madona. Duas americanas com seus valores distintos. Eu ficaria com medo se uma Madona estivesse no poder...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008 03:55:00 BRT  

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