sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Rótulo trocado (19/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

O presidente da República gaba-se, com razão, de ter ajudado a remover da Procuradoria-Geral da República o apelido de “engavetadora geral”. O risco, entretanto, é que ao final dos oito anos de Lula o temido rótulo tenha sido transferido à Polícia Federal

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O Comando Militar do Leste informou ontem que é um sucesso a Operação Guanabara, na qual o Exército ocupa áreas no Rio de Janeiro com o objetivo de evitar que o tráfico e o crime organizado interfiram indevidamente no processo eleitoral. Vê-se portanto que as Forças Armadas estão plenamente capacitadas a participar de ações ligadas à segurança pública em centros urbanos. Isso resolve um debate que ficara pendente por ocasião da tragédia em que, no mesmo Rio, alguns militares entregaram três jovens do Morro da Providência para serem mortos por traficantes. O tempo deu razão a quem argumentava que erros ou crimes de alguns não poderiam ser imputados ao conjunto da instituição militar. Cadê os críticos ferozes da participação das Forças Armadas na segurança pública?

Debates que permanecem em aberto têm sido infelizmente uma marca do trabalho jornalístico nos últimos tempos. Perde o leitor (ou ouvinte, ou espectador). Por onde anda, por exemplo, o grooving, que apareceu inicialmente como vilão maior da tragédia com o Airbus da TAM em Congonhas? Cobrem-me depois, mas eu aposto que as conclusões sobre o desastre apontarão para falha humana, que entretanto teria tido efeitos menos drásticos caso a pista de pouso fosse (bem) maior. As ranhuras, coitadinhas, nada poderiam ter feito para impedir o maior e mais grave acidente da aviação brasileira.

Quem também merece pontuação alta no quesito dos assuntos em aberto é a Polícia Federal (PF). Por falar nisso, como anda o relatório policial sobre o dossiê preparado no Palácio do Planalto, com informações de gastos de Fernando Henrique Cardoso em seu período como presidente? O “banco de dados” tinha por meta criar constrangimentos ao PSDB, para convencer os tucanos a não insistirem na devassa das despesas de Luiz Inácio Lula da Silva. Os tucanos aparentemente se convenceram. E a PF deu um jeito de mandar o assunto do dossiê à geladeira, escorando-se numa suposta necessidade de o Ministério Público manifestar-se sobre a eventual ida da papelada ao Supremo Tribunal Federal, por conta do possível envolvimento de autoridades de primeiro escalão. Talvez o tema seja esclarecido no próximo milênio.

Justiça se faça à PF, a situação de vez em quando fica embaraçosa para a corporação menos por defeitos intrínsecos e mais pelo fato de ter sido transformada pelo governo federal numa espécie de arquivo dos assuntos incômodos, que não interessa ao governo concluir. O presidente da República gaba-se, com razão, de ter ajudado a remover da Procuradoria-Geral da República o apelido de “engavetadora geral”. O risco, entretanto, é que ao final dos oito anos de Lula o temido rótulo tenha sido transferido à Polícia Federal.

Mas nem tudo está perdido. A PF pode se redimir, por exemplo, a partir do completo esclarecimento sobre a autoria das escutas telefônicas que bisbilhotaram pelo menos uma conversa do presidente do Supremo Tribunal Federal com um atuante senador da oposição. O fato de o ministro da Defesa aparentemente ter se metido numa trapalhada e enfiado os pés pelas mãos na história das maletas (não) grampeadoras está longe de encerrar a história.

A PF deve deixar politicagens de lado e concentrar-se na tarefa de contar tintim por tintim quem fez o grampo e quem mandou fazer. É o mínimo que se espera da instituição. Até porque neste caso não há como esconder: desde o começo, o Palácio do Planalto vem se comportando como o culpado pego em flagrante. Considerando que até agora não apareceu o áudio do grampo, mas apenas a sua transcrição, o governo bem que poderia ter trucado, e garantido que a escuta não teve origem governamental. Por que não o faz?

Escrevo esta coluna ainda que não me atreva a apostar um mísero centavo na hipótese de que essa história vá ser esclarecida. Há histórias que são assim, descartáveis. Ficam em evidência o tempo suficiente para produzirem efeitos políticos e depois são engavetadas como se nunca tivessem existido. Sobram os esqueletos, que de vez em quando dão motivo a textos como este.


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5 Comentários:

Anonymous fabiano disse...

Caro Alon,
É com certa desconfiança que vejo atualmente vários colegas seus jornalistas escreverem e falarem sobre o grampo no Min.Gilmar Mendes e no sen.Demóstenes Torres e me pergunto porque todos e incluse você não falam mais em Daniel Dantas.Esta história de grampo precisa ser apurada,mas convenhamos há algo de podre neste imbrólio o áudio não aparece é só para preservar a fonte ou porque foi forjado por quem divulgou.Ademais o min.Gilmar fala em estado policial mesmo antes de ter aparecido esta gravação.Pelo andar da carruagem à imprensa inocenta DD, e prende os agentes que o prenderam.Tudo caminha para a passos largos numa tentativa de invalidar a operação satiaghara.
Atenciosamente,
Fabiano.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008 15:10:00 BRT  
Anonymous Sueli - Porto Alegre disse...

É verdade Fabiano!!!!!!

domingo, 21 de setembro de 2008 00:27:00 BRT  
Blogger Dalion disse...

Caro Alon,
Cada entidade num regime democrático tem sua alçada e incumbência. Assim se mantêm o equilíbrio do poder. Não cabe ao Exército a segurança pública do Rio de Janeiro.
O (mais recente) desastre da TAM, foi notícia enquanto o PT era o culpado, depois que descobriram que não foi o Lula quem derrubou o avião os jornais sossegaram.
O "banco de dados" dossiê contra FHC foi notícia enquanto era a Dilma a acusada, quando a PF descobriu que quem vazou as informações foi Álvaro Dias (PSDB), que não quis divulgar a fonte, nada mais se falou do caso.
A PF perdeu muito com o afastamento do Dr. Paulo Lacerda, mas ainda não virou engavetador, quem os atrapalha constantemente em suas investigações são Senadores e o STF, que não se sentem seguros de vê-la agindo indiscriminadamente contra criminosos traficantes, políticos e banqueiros.
A PF esta tentando encontrar o que se pode encontrar desta conversa de grampos no STF. Já esta claro que não foi a Abin, ela não tem equipamento, motivos e autonomia para tal. A PF muito menos, nem se cogita tal. Só se sabe que a "Veja" saiu com um trecho de conversa entre Mendes e Torres, que poderia ter sido feita pelo espião Avner Shemesh, já envolvido outras vezes com grampos, ou até por mim. Só se sabe o que a "Veja" fala, escondida atrás de suas trincheiras na redação contra o governo. Nem o arquivo de áudio ela se dedicou a entregar para investigações da polícia.
Eu queria saber mesmo é onde esta os 12 HDs do apartamento do sr. Daniel Dantas, gostaria de saber como vai ficar a estória do Presidente do Supremo suprimir instancias jurídicas e dar 2 HCs em menos de 48 horas, gostaria de saber sobre o escandalo da Alston nos 16 anos de governo tucano em SP, sobre a CPI do Cartão no governo de SP ou mesmo sobre a linha 4 amarela que desabou e matou várias pessoas, ou então sobre a origem do dinheiro do Valerioduto e do Mensalão (que no fim não foi provado que existiu).

domingo, 21 de setembro de 2008 17:42:00 BRT  
Blogger Richard disse...

1) Não sou crítico do uso das FA na segurança. Só gostaria que tivessem um plano para tal! No Cimento Social o plano era fazer uso político... deu errado,claro!
2) Nas 48 horas antes do acidente, o avião fez um trajeto digno de van pirata. Foi a Brasília, Salvador, Porto Alegre, São Paulo duas vêzes... tudo isto voando com o reversso travado a quase 1 mês! Tavam querendo que acontecesse o quê!?!?
3) O prazo para conclusão deste inquérito é pertinente!!!
4) é tanto rabo-preso que nem dá pra comentar.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008 16:10:00 BRT  
Blogger Walmir disse...

Caro Alon,
penso que você também está cultivando esqueletos. O esqueleto do Daniel Dantas. Está ou não está? Embarcar nessa patuscada do presidente do STF - pura armação, a meu ver - e deixar de lado o investigado para desqualificar os investigadores me parece o avesso do trabalho jornalístico.
Não prezo isso, mano blogueiro, não prezo.
Paz e bom humor.
Sempre.

terça-feira, 23 de setembro de 2008 21:17:00 BRT  

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