terça-feira, 2 de setembro de 2008

Postes voadores (02/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Se administrações estaduais e municipais bem avaliadas podem produzir postes que voam, por que um governo federal cujas taxas de aprovação estão lá em cima não pode?

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

As primeiras pesquisas da corrida para as prefeituras das grandes metrópoles trazem uma boa e uma má notícia para a oposição. A boa é o fôlego curto das tentativas de federalizar o pleito. Nos principais centros, até agora está valendo mais o arranjo político local do que a eventual proximidade com a administração Luiz Inácio Lula da Silva. Para ser mais preciso, o vetor federal vem se mostrando por enquanto menos intenso do que a combinação dos vetores estadual e municipal. Especialmente quando os dois apontam no mesmo sentido.

Era esperado que fosse assim. Se a federalização da eleição para as prefeituras não acontecia completamente nem nos períodos de grande comoção política ou crise econômica (ou ambas), quanto mais agora. A bonança da economia ajuda não apenas o presidente Lula e seus aliados. A combinação de inflação baixa e aceleração econômica reflete-se direta e indiscriminadamente no crescimento da arrecadação de estados e municípios. O que, somado à responsabilidade fiscal, abastece os cofres estaduais e municipais e, portanto, a capacidade de os gestores locais fazerem política. O resultado vai aparecer nas urnas.

Esse fenômeno pode ser especialmente notado nas situações em que o governador e o prefeito da capital estão ambos do mesmo lado e têm liberdade de movimentos. Os melhores exemplos são Belo Horizonte e Recife. Nas duas cidades, nomes desconhecidos vêm decolando com ímpeto espantoso, desde que o eleitor médio tomou conhecimento de sua existência. São movidos para cima pelo combustível político de administrações estaduais e municipais muito bem avaliadas.

Ambos são casos extremos, óbvios. A mesma lógica, porém, pode ser observada em São Paulo e no Rio de Janeiro. No primeiro caso, nota-se a ascensão lenta porém segura do prefeito Gilberto Kassab (DEM), empurrado pela maciça e vistosa divulgação, em horário eleitoral, de suas realizações. No segundo, a escalada é do peemedebista Eduardo Paes, que, apoiado pelo governador, ocupa o vácuo político deixado por adversários que exibem alguma intenção de voto mas pouca capacidade de chegada. Preenche também o espaço indiretamente criado pela fadiga de material de uma edilidade com quase duas décadas de comando único.

E a má notícia para oposição, onde está? Bem, o fato é que estas eleições municipais vêm demolindo a tese de que voto não se transfere. Especialmente em Belo Horizonte e Recife, verifica-se o surgimento de verdadeiros postes voadores, anônimos que sobem feito foguete a partir do momento em que o distinto público fica sabendo que fulano de tal é o candidato do governador e do prefeito. Daí a guerra de liminares que se verifica em torno do direito de colocar tal ou qual político no horário eleitoral.

O mantra de que voto não se transfere ocupa lugar central no discurso da oposição para 2010. Ora, se administrações estaduais e municipais bem avaliadas podem produzir postes que voam, por que um governo federal cujas taxas de aprovação estão lá em cima não pode? Se Aécio Neves, Fernando Pimentel, Eduardo Campos, João Paulo, José Serra e Sérgio Cabral exibem hoje o poder de alavancar desconhecidos (ou quase), por que Lula não poderá fazer o mesmo daqui a dois anos?

É mais inteligente acender velas do que amaldiçoar a escuridão. Trata-se de substituir o estéril debate sobre se o voto transfere-se ou não por outro, a respeito de como e por que a força política pode ser transferida. Considerando que a eleição presidencial de 2010 será a primeira sem a presença de Lula na cédula (ou na urna eletrônica) desde a volta das diretas, há quase um quarto de século, quem conseguir responder primeiro (e melhor) a essa questão vai levar vantagem.

Pela enésima vez, o que estas eleições municipais mostram é o caráter essencialmente pragmático do voto. Governos bem avaliados, em qualquer nível, têm boa chance de continuar. A não ser que naufraguem em tempestades políticas ou comunicacionais. Isso vale para prefeitos e governadores. E vale também para o presidente da República. O grau de conhecimento anterior sobre os nomes que irão disputar a eleição é detalhe secundário.

Ou seja, a dificuldade relativa de o PT e o governo federal emplacarem candidatos em nível municipal só porque são nomes “apoiados por Lula” reforça, paradoxalmente, a idéia de que o nome saído do bolso do colete do presidente da República será concorrente fortíssimo para sua sucessão. Desde, é claro, que as coisas continuem bem para o governo federal e que o PT não se enrole na construção das necessárias alianças para chegar com força total a 2010. E desde que Lula não suba no salto alto, o que sempre é uma variável a considerar.


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6 Comentários:

Anonymous Mauricio Pagotto disse...

Alon:

Deiscordo de seu comentário, em BH o candidato tem apoio do PT local, e em SP, como é mesmo o nome do Poste que esta em primeiro lugar com chances de levar no primeiro turno? Seria Marta, do PT, aquela que não teria mais nenhuma chance aqui?

terça-feira, 2 de setembro de 2008 22:13:00 BRT  
Anonymous Alfredo disse...

Siraque dispara na liderança como candidato a prefeito em S.André (SP). Marinho, que estava lá em baixo nas pesquisas, colou no candidato do atual prefeito de S.Bernardo do Campo, que já se julgava o vencedor, com chance de liquidar a fatura no primeiro turno.
Siraque e Marinho tem o apoio total e a presença de Lula em seus palanques. Assim também é para outros candidatos petistas do ABC. Todos passaram a deslanchar com o apoio de Lula. Não entendi sua argumentação.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008 02:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A percepção de que tudo está indo bem, está colada no presidente. Assim, os candidatos que mais se identificam com ele, levam vantagem. Talvez porque não haja qualquer menção a sacrifícios. Só há bonança acenada ao eleitor, com base na situação econômica, petróleo etc. Os outros candidatos ainda não conseguiram encaixar algo no discurso que faça contraponto aos motes emanados da esfera federal. Tudo resume-se à popularidade do presidente que até agora tem conseguido transformá-la em intenções de votos. Contudo, pode haver alguma surpresa em algum pleito.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008 11:10:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Espero que aconteça a opção "c", mas bem sei ser muito difícil...

sexta-feira, 5 de setembro de 2008 17:18:00 BRT  
Anonymous João Garcia disse...

Aqui em Natal reuniram-se o presidente Lula a governadora Wilma, o prefeito Carlos Eduardo, o presidente do senado Senador Garibaldo Alves e os líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves e anunciaram que elegeriam até um poste. Pois bem, caro Alon, as pesquisas têm demonstrado que a candiata do PV, Micarla de Sousa, ganha no 1º turno.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008 09:43:00 BRT  
Anonymous Ary da Silva Martini disse...

A oposição tem uma pesquisa em mãos, desde março, que indica que o PT dobrará o número de prefeituras em todo o país.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008 23:20:00 BRT  

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