segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Muitíssimo municipal (29/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

O lulismo não existe. O que há é um governo com bons resultados, comandado por um presidente com boa capacidade de comunicar as realizações e admirado por sua trajetória

Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

“Eleições muito municipais” foi o título da coluna no primeiro dia deste ano. O “olho”, textinho que vem logo abaixo do título, dizia: “O governo Lula tem tudo para alcançar bem o terço final de 2008. O que deve levar a oposição a trabalhar duro para fugir da federalização do pleito.” E concluía: “Ela [a oposição] tem boa chance de conseguir. O eleitor médio costuma estar bem mais preocupado com a própria vida do que com as brigas dos políticos em Brasília. Vêm aí eleições muito municipais.”

Hora de checar. O primeiro turno acontece só no domingo, mas é possível antever que não haverá onda tsunâmica favorável a tal ou qual partido. Não veremos a canonização em massa do petismo ou dos aliados do Palácio do Planalto, nem a extinção da oposição. Os partidos da base do governo federal devem sair das urnas com maior expressão numérica simplesmente porque já são mais fortes hoje, estão no poder e não há motivo no país para um terremoto. E a oposição vai se mostrar algo competitiva, mesmo num cenário nacional amplamente favorável ao situacionismo.

É o que vem sendo escrito aqui desde janeiro e retomado em colunas nas últimas semanas. O eleitor é pragmático na essência. Decidirá principalmente com base na realidade local ou regional. Vai chancelar boas administrações e trocar as más. Alguns bons prefeitos poderão sofrer, por causa de circunstâncias políticas locais.

Em São Paulo, por exemplo, a proporção das forças eleitorais é mais ou menos a mesma de 2004. Em Curitiba, um tucano tem boa vantagem contra uma petista que teve Lula e companhia na campanha. Verdade que no Nordeste a exploração da imagem de Lula chega a extremos. Mas isso nada tem a ver com “lulismo”. Tem a ver com a necessidade de o candidato a prefeito mostrar que é capaz de trazer verba de Brasília. E nem sempre funciona.

Uma coisa, entretanto, confesso que não fui capaz de prever. Dado meu otimismo crônico sobre a capacidade de o ser humano aperfeiçoar-se, não antevi a obsessão com que Luiz Inácio Lula da Silva se meteria na disputa local, para enfraquecer adversários e vitaminar o projeto de seu grupo. Erro meu. Um bom amigo jornalista, expert em observação e análise política, vive me dizendo que as pessoas sempre repetem os mesmos equívocos. Doravante, vou dar ainda mais ouvidos a ele.

Todos devem recordar-se de como a estratégia hegemônica do PT nas eleições municipais de 2004 ajudou a desencadear a crise política do ano seguinte. De um lado, gerou brutais insatisfações na base do governo, por causa do apetite com que o petismo se lançou sobre espaços dos aliados. De outro, vitaminou na operação política do PT vetores de financiamento heterodoxo, que cobraram seu preço quando um aliado, no caso Roberto Jefferson, sentiu-se com motivos para romper.

Não estou a afirmar que teremos a repetição da crise. Com a popularidade de Lula lá em cima e o cenário favorável da economia, é altamente improvável que 2009 repita 2005. Até porque a distribuição de canetas no consórcio federal está bem mais equilibrada do que há quatro anos. E político não troca o certo pelo duvidoso, não costuma rasgar dinheiro.

Mas convém ficar de olho. Uma das deformações características do poder acontece quando o governante começa a acreditar em excesso na própria propaganda e nos áulicos. Os bons números e a boa avaliação do governo Lula desencadearam a crença na existência de um “lulismo”, hipotético fenômeno messiânico catalisado pelo também hipotético amor que a população, especialmente a mais pobre, nutriria pela carismática pessoa do presidente da República. E o PT achou que iria pegar uma carona.

O lulismo não existe. O que há é um governo com bons resultados, comandado por um presidente com boa capacidade de comunicar as realizações e admirado por sua trajetória. E, se o eleitor é capaz de dar suporte a uma administração federal competente, é também capaz de reconhecer os méritos de gestões estaduais e municipais bem-sucedidas, ainda quando comandadas por adversários do grupo político do presidente da República.

O melhor exemplo é, de novo, São Paulo. Marta Suplicy tem consigo um sólido terço do eleitorado. Os eleitores são dela, não de Lula. Os problemas e desafios também. A ex-prefeita vai disputar um segundo turno duríssimo contra, provavelmente, Gilberto Kassab, ainda que Geraldo Alckmin nunca deva ser subestimado. E a eleição em São Paulo será decidida com base na composição política local e no duelo das expectativas administrativas.

Ela, como as demais, será uma eleição muitíssimo municipal
.

http://twitter.com/alonfe

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

4 Comentários:

Blogger Betamax disse...

Dizia-se ,que São Paulo, era o túmulo do samba.Parece, que da política também.Da ideologia,então, nem se fala.Espanta ,por exemplo, Paulo Maluf,ter eleitores,contribuintes, por certo.
Que não são exatamente , a população carcerária da cidade.Kassab, ainda se entende.Alkmin, exige grande esforço de imaginação.Marta,com seu sobrenome quilométrico,é rejeitada como traidora das suas origens.É aí,pois, que a matemática piora as coisas.Tirar 16%,adicionar aos 35%,talvez consiga,contratando um especialista
em subtração de cifras.Adversário sem chances,quem sabe...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008 13:01:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

"Os eleitores são dela, não de Lula"

Será, Alon? Não seria melhor dizer que os eleitores são do PT? Marta morreria politicamente se resolvesse sair do PT. Por que ela, tão feminista, não trocou o sobrenome?

Não concordo que seja possível afirmar tão categoricamente a não ocorrência do lulismo. Não basta que uma coisa seja certíssima ou erradíssima para mim. É preciso que eu prove. Concordaria se você dissesse que não há estudos que comprovem com fatos a ocorrência política do lulismo. O mesmo vale para a negativa da hipótese da ocorrência.

Tenho vários amigos em SP que, assim como você, são simpáticos ao espectro político esquerdista. Somente os que são petistas empedernidos ainda vão votar na Marta. Os independentes, que recusam etereamente o PSDB e o DEM, migraram o voto petista para a Soninha. Porém, no segundo turno e na hipótese do Kassab eles votam no pequeno satã. Essa para mim é a grande novidade: amigos que nunca votaram em políticos não alinhados ao espectro esquerdista já declararam voto no DEM, na hipótese do segundo turno.

Eu pego no pé dos amigos e cito Contardo Calligaris: “Ser de ‘esquerda’ geralmente traz uma posição mais gloriosa de si mesmo”. Kassab não é "de esquerda". Soninha e Marta são de esquerda. Daí a dificuldade de referendar nas urnas um prefeito que não “é de esquerda” e que faz uma administração com alto índice de aprovação.

A preferência à gauche da vossa turma radical chique paulistana é eleitoralmente insignificante (o que vai decidir são os votos pragmáticos da periferia e da classe média paulistanas), “mas ela nos lembra que, numa sociedade narcisista, a escolha do candidato é também uma questão de imagem. De imagem, quero dizer, do eleitor: alguns decidem seu voto como escolhem sua roupa”. (C. Calligaris)

Vestir-se à moda do esquerdismo é um gosto que define muito bem a nossa geração, Alon. Combina muito bem com refinamentos do gosto, bons restaurantes e boas bebidas. Quando você vê o Kassab o que ou quem exatamente você vê? Eu vejo um sanduíche de mortadela e um copo de groselha com leite.

Pense sobre isso, considerando a hipótese do Kassab ir ao segundo turno.

PS: “vetores de financiamento heterodoxo”. Alon, eu te prefiro, no estilo, quando você nomeia como assassinato a morte do narcoterrorista pelas forças armadas colombianas em território equatoriano. Não consigo te imaginar criando eufemismos para adocicar a crueza e a violência dos combates colombianos. Por isso eu estranho “financiamento heterodoxo”. Fosse financiamento, ortodoxo ou heterodoxo, seria financiamento. Este não foi o entendimento dos procuradores e do judiciário. Para eles há fortíssimos indícios de crime.

Abs.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008 17:02:00 BRT  
Blogger Betamax disse...

Sanduíche de mortadela,leite com groselha,além de mau-gosto,produz indisposição digestiva. FIESP,eleitora de Kassab,é bem mais refinada nas suas escolhas gastronomicas.Marta de berço, com seu sobrenome ,que é uma genealogia quatrocentã,teve coragem,que poucos têm:optar pela via progressista. Narco-terrorista,é uma expressão criada pela imprensa engajada na propaganda patrocinada pelo Departamento de Estado ,americano
coordenada pela SIP- Sociedad Interamericana de Prensa,uma denominação nova,para um velho problema(60 anos),não resolvido.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008 19:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Financiamento heterodoxo = mensalão ou outras formas de financiamento de campanhas sem clareza. Seria melhor deixar tudo aberto, com os doadores podendo realizar pela internet suas doações, serem apresentados em jantares, na TV,caminhar com os candidatos, discursar em seus comícios, acompanhá-los em suas visitas nas casas dos eleitores etc. O formato atual só mostra que forças políticas que se pretendiam modernizadoras e progressistas nos costumes políticos antes, hoje não o são. São poderosoas máquinas eleitorais apenas. Até na vitória: se vencer o candidato da legenda, a vitória é dele e não do partido.

terça-feira, 30 de setembro de 2008 10:28:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home