terça-feira, 19 de agosto de 2008

O dono da agenda (19/08)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

O eleitor médio de Lula não enxerga na oposição vontade ou força para fazer melhor o que o atual governo já faz. Nem para fazer o que deve ser feito, mas Lula não faz

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Campanhas eleitorais vitoriosas costumam assentar-se num tripé, formado pelo candidato, pelo sistema de alianças e pelo discurso programático. Esse triângulo não costuma nascer equilátero. Um bom candidato munido de uma boa mensagem tem maiores chances de acabar atraindo a massa crítica de apoios necessários para a vitória nas urnas. E a combinação entre discurso correto e musculatura política pode transformar postes em concorrentes viáveis. Mas, quando falta o discurso, concorrentes teoricamente favoritos correm sério risco de naufragar, ainda que formalmente estejam cercados de fiéis apoiadores.

Eleições são apostas sobre o futuro, materializadas numa relação direta que o candidato estabelece com cada eleitor. A disputa nas urnas não se resolve no atacado, mas no varejo. Na esmagadora maioria dos casos, cada voto se decide no cálculo frio da relação custo-benefício que o eleitor extrairá de sua escolha. Se havia dúvidas a respeito, os últimos estudos lançaram as luzes que faltavam. Como o bom livro A cabeça do eleitor, de Alberto Carlos Almeida (Ed. Record).

Atraia o eleitor e você atrairá os políticos. Luiz Inácio Lula da Silva elegeu-se em 2002 com base numa aliança formalmente estreita, mas impulsionado pela idéia de que faria um governo ao mesmo tempo responsável e inovador. Manteria a estabilidade econômica e tomaria as medidas para enfrentar a feroz desigualdade de renda produzida pelo modo como o Brasil rural da primeira metade do século passado transformou-se no Brasil urbano que conhecemos. E Lula continua em alta por uma razão bastante simples: o contrato que estabeleceu há seis anos com o eleitor vem sendo honrado.

Pode haver decepções. Mas aqui o presidente se beneficia de outro vetor. O eleitor médio de Lula não enxerga na oposição vontade ou força para fazer melhor o que o atual governo já faz. Nem para fazer o que deve ser feito, mas Lula não faz. Daí que nem toda a turbulência das crises políticas de 2005-2006 tenha conseguido dificultar e reeleição do ex-metalúrgico, com os mesmos três em cada cinco votos que o haviam eleito quatro anos antes.

Não que o eleitorado de Lula-06 tenha repetido mecanicamente o de Lula-02. O petista perdeu parte da classe média de inclinação mais moralista. Para sorte dele, essa perda foi compensada pelo crescimento entre o eleitorado mais pobre e no Nordeste. No fim, ficou elas por elas, num desenho que permanece razoavelmente inalterado até hoje. Em outras palavras, ou a oposição dá um jeito de criar uma fissura na base popular lulista ou se arrisca a amargar a terceira derrota seguida na corrida pelo Palácio do Planalto.

Mas para isso é necessário, em primeiro lugar, um discurso. E não se trata de aparecer na véspera da eleição com meia dúzia de frases alinhavadas por algum marqueteiro genial turbinado em pesquisas qualitativas. O script eleitoral não pode ser raio em céu azul. Precisa concretizar, em algum grau, idéias construídas bem antes. Na luta política, no embate das visões de mundo, na polêmica sobre as iniciativas do governo e sua execução.

Seis anos depois, Lula continua dono absoluto da agenda social, sem ter perdido o voto de confiança quanto à estabilidade. E, mesmo que o crescimento médio da economia em seu período não seja nenhuma Brastemp, os números da criação formal de empregos batem de longe as estatísticas dos oito anos do consórcio PSDB-DEM.

Ou seja, o candidato de Lula já tem o discurso pronto para 2010. Ele dirá que é preciso continuar com a distribuição de renda, com o combate à pobreza, com a criação de empregos. Lembrará também que o governo do PT não descuidou da inflação, essa algoz dos socialmente menos favorecidos. E deixará que as velas da campanha sejam enfunadas pelos ventos estatistas e nacionalistas que sopram cada vez mais fortemente em todo o planeta. A figura de Dilma Rousseff é adequada ao roteiro.

E a oposição, dirá o quê? Que é preciso cortar gastos, aumentar a eficiência do Estado e abrir mais espaço para a iniciativa privada? Que vai eliminar da máquina pública as nomeações políticas? Que vai retomar as privatizações? Parece pouco, para não dizer demodé. Tanto que até os principais concorrentes oposicionistas à cadeira de Lula evitam chocar-se radicalmente com a proposta de criar uma a nova estatal para cuidar do petróleo do pré-sal.


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4 Comentários:

Blogger Betamax disse...

Segundo pesquisa,um pouco oculta, é verdade, feita com a eleitoral,exibindo o 'ranking" dos prefeitáveis,apontava Lula com preferência de 74%,do eleitorado.Vale um terceiro mandato?
Em 2014,é certo. Nesta,Dilma,faz às vêzes do "poste"..Além ,de tudo , é um dissílabo...
Lula acabou ,substituindo uma classe média,velha ,por outra ,novinha em folha.E isso fará diferença,ou já está fazendo.

terça-feira, 19 de agosto de 2008 12:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Aliás, todos os discursos acabaram.

terça-feira, 19 de agosto de 2008 18:06:00 BRT  
Blogger Lyreta disse...

Todos os adjetivos negativos com relação a Lula desapareceram. Isto mostra que o governo Lula conseguiu fazer com aqueles que eram contra ficarem a favor ou neutros.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008 17:29:00 BRT  
Anonymous Hugo Albuquerque disse...

O PSDB já surgiu de uma maneira complicada; Inviável na centro-esquerda partiu para angarear votos na direita, nos setores conservadores da sociedade e fazer alianças com partidos como o DEM.

O eleitorado que se identifica com o PSDB denomina-se "tucano" e assume um discurso que na prática é contrário à Social-democracia. Pior: Eles não sabem disso.

Qualquer pesquisa de preferência partidária indica que o PT tem mais simpatizantes que o PSDB, por isso os tucanos partem para um jogo duro explorando o anti-petismo. O x da questão é que isso não tem funcionado. É consensual hoje no Brasil que o governo Lula tem defeitos, mas é bem melhor que o governo FHC. A maior parte do eleitorado que saiu do PT vota em outros partidos de esquerda, o PSDB não tem nada para oferecer para eles.

Olhemos as eleições nas capitais, em boa parte delas há aliados do governo liderando ou com grandes chances de vencer as eleições. A arrancada de Marta Suplicy em São Paulo é um bom exemplo disso e uma prova incontestável de que até mesmo em rincões aparentemente anti-petistas as coisas estão ficando desfavoráveis para o PSDB. Some isso ao fracasso do governo Yeda no RS e o partido além de não ganhar terrenos está perdendo o que conquistou.

Aquela maluquice que misturava tributação de social-democracia com (ausência de) serviços de liberalismo do século 19º e era vendida como boa gestão não cola mais.

Até a Folha, pasme Alon, a Folha de hoje trouxe reportagens criticando a gestão Alckimin e a atual situação do ensino público paulista.

Uma nova derrota nas próximas eleições presidenciais vai ferir de morte o PSDB, portanto, se o partido quiser continuar existindo vai ter que antecipar os eventos e passar a entender melhor o país que quer governar, se não, nada feito.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008 20:13:00 BRT  

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