sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Falta combinar com os russos (01/08)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Pesquisa: “Se a eleição para presidente fosse hoje, e se só houvesse dois candidatos, você votaria em alguém apoiado pelo presidente Lula ou em alguém da oposição?”

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O governo esbanja publicamente tranqüilidade quanto à economia, mas a oposição cruza os dedos para que a suposta armadilha câmbio-juros produza estragos ainda no mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Os caciques da oposição têm os números na ponta da língua: o Real valorizou-se quase 20% em relação ao dólar nos últimos 12 meses, quadro que irá se agravar com a tendência altista dos juros, mobilizados pelo Banco Central para combater a inflação. A conseqüente deterioração das contas externas levaria, alguma hora, a que a moeda brasileira sofresse forte desvalorização, com todas as conseqüências. A questão, diz a oposição, é saber quando vai acontecer.

O governo afirma que é conversa de catastrofista. A própria oposição dá sinais de pouca firmeza de convicções, já que nenhum de seus próceres se dispõe a travar publicamente o debate. A oposição brasileira continua deitada em berço esplêndido, à espera da crise definitiva que abrirá um buraco na popularidade do presidente da República, esse muro aparentemente intransponível que impede a volta do PSDB ao poder. Pior, tucanos e democratas não conseguem articular duas idéias quando se trata de responder a uma questão: o que deveria ser feito imediatamente para evitar, ou pelo menos suavizar, a suposta futura derrocada do Real?

A única resposta esboçada pelos críticos é cortar gastos. Mas quanto? Qual seria o superávit fiscal necessário para trazer o juro básico a alguma coisa perto de 5% ao ano, e assim estancar a enxurrada de dólares puramente especulativos? Claro que a conta supõe manter a inflação anual no mesmo patamar de 5% ao ano. Coisa que pelo visto ninguém quer, nem governo nem oposição. Lula sabidamente trabalha com uma conta de chegada, não pensa em deixar o governo com a economia patinando, fantasma que arruinou o legado do antecessor. E a oposição não aceita ficar com a pecha de defensora da recessão como remédio para os males econômicos.

Assim, a alegre composição continua acelerada nos trilhos, numa curiosa semelhança com o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Quando se dizia que tudo ia bem, até o dia em que a casa caiu. Há diferenças? Certamente. Na época havia oposição programática. E o Brasil não tinha um colchão de 200 bilhões de dólares. Essa defesa, porém, é relativa. Vazamento num grande tanque cheio de água é problema tão grave quanto seria se o tanque fosse menor. Pois a única certeza é que um dia a água vai acabar. E quando essa certeza se dissemina as pessoas saem correndo atrás de toda água que puderem recolher e armazenar para si próprias.

Caciques da oposição de olho em 2010 gostam de lembrar que nenhum governo resiste à desvalorização da moeda. Especialmente se obteve em algum momento capital político nascido da estabilidade monetária. Lembram os exemplos da Argentina de Fernando de la Rúa e do Brasil de FHC. O primeiro foi deposto, enquanto o segundo percorreu como morto-vivo a metade final de seu período, só não tendo caído porque não havia, entre os relevantes, quem desejasse derrubá-lo. Daí que a corrosão do Real ainda sob Lula seja o sonho de consumo da turma que mira no palácio do Planalto a partir de 2011.

Se a reza brava vai funcionar, não se sabe. As previsões anteriores da oposição sobre possíveis desastres econômicos na administração do PT não se confirmaram. O fato é que Lula comanda um país em crescimento permanente, ainda que não explosivo, e deve entregar a faixa com a criação líquida de empregos bem acima dos dois dígitos, em milhões. Ainda que os juros sejam recorde mundial e a expansão dos gastos de custeio vá de vento em popa. Com esse portfólio nas mãos do governismo, não será mesmo fácil a vida dos marqueteiros da oposição na eleição de daqui a dois anos.

Sobre isso, pesquisas há aos montes. Mas falta uma essencial. Alguém deveria incluir num levantamento de intenção de voto a seguinte questão: “se a eleição para presidente fosse hoje, e se só houvesse dois candidatos, você votaria em alguém apoiado pelo presidente Lula ou em alguém da oposição?” Eu tenho curiosidade sobre o resultado que daria uma pesquisa assim. Claro que, na ausência da catástrofe, sempre restará à oposição tentar evitar uma polarização nesses termos. Resta saber, porém, se haverá condições de combinar a coisa com os russos.


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5 Comentários:

Anonymous Frank disse...

"Há diferenças? Certamente. Na época havia oposição programática. "

Ué, mas o programa (macroeconômico) que era brandido à época não foi implantado. E mantiveram o de FHC/Malan.

Vc acha q o importante é ter um programa qq a apresentar, ainda q absolutamente inconsistente e utópico, como o "programa" q o PT apresentou, no decurso da crise q q vc se refere?

sexta-feira, 1 de agosto de 2008 13:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Dá para achar, mesmo, é que o programa da oposição programática da época foi literalmente para o brejo. Se é que existia algum programa.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008 18:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Oposição programática? O PT é um partido liderado por um chefe carismático que impõe sua "metamorfose ambulante" aos caudatários sem a menor discussão.
Os petistas são de esquerda mas não rasgam di.. voto.
Menos, menos, bem menos.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008 19:43:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Alon, eu acho que estamos vivendo o fim do ciclo da Nova República, que começou com a redemocratização.
Com a Nova República, os partidos afiliados à ditadura foram se definhando, e deixaram de representar alternativa de poder (bem... é verdade que o PFL/DEM sobreviveu no poder até 2002, mas de certa forma teve que se realinhar).
Então chegaram ao poder o PMDB/PFL/PSDB. Houve uma certa frustação popular de expectativas quanto à Nova República no que diz respeito às conquistas econômicas e sociais, o que levou à ascenção de Lula ao poder.
É provável que estes partidos da Nova República, se definhem, e dissidências deles se realinhem aos partidos comprometidos com o apoio ao governo Lula (PT/PSB/PDT/PCdoB), que devem carregar o legado deste governo a partir de 2010. O PMDB já está fazendo isso.

domingo, 3 de agosto de 2008 00:47:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, o debate econômico é de uma pobreza assustadora. Todos parecem crer que há uma verdade última que dá razão ao partido dos ortodoxos ou dos heterodoxos, independente do que vai pelo mundo. Tudo teria se passado como se após uma meia dúzia de planos antiinflacionários os “realeiros” tivessem chegado para decidir a partida. Como se fosse possível supor que o Plano Collor seria o mesmo caso as reservas internacionais da época fossem as mesmas encontradas pelo ministro Fernando Henrique Cardozo. Reservas que entre um momento e outro cresceram independente de uma “política” do governo brasileiro com esse fim. O problema dos nossos heterodoxos é que querem ser heterodoxos do começo ao fim e o espantoso é que quando a situação pede alguma heterodoxia ficam sem saber o que fazer, como que paralisados pelo medo. Existe uma armadilha bastante clara, conjuntural, que decorre de não estarmos vivendo uma crise financeira similar à americana. Enquanto eles agem para evitar uma recessão maior, nos enfrentamos a aceleração inflacionária, o diferencial de juros leva à valorização do Real apesar do déficit crescente em transações correntes com o exterior. Creio que a paralisia de nossos heterodoxos – e nunca o governo Lula reuniu tantos – em prover algum mecanismo que segure a valorização da moeda se deve ao desejo de que o dólar barato ajude a combater a inflação, reduzindo a necessidade de elevar os juros, ou seja, não terem de pagar todo o preço da estabilização, que é a perda temporária de dinamismo econômico (parêntese desnecessário: o mundo vive um momento de superaquecimento e chorar caraminguás é perda de tempo). Mais ou menos como quando o heterodoxo do ministro Pedro Malan negociavam superávits fiscais o quanto menores com o FMI, alcançando uma estabilidade frágil sem precisar pagar o preço total em austeridade. Um mecanismo fiscal sobre a entrada de dólares para investimentos em carteira (bolsa e renda fixa), um mecanismo automático e provisório que visasse estabilizar o diferencial entre nossos juros e os americanos, uma regra fixa que independesse dos humores dos burocratas em função, seria o meu palpite. Não precisa dizer que os recursos arrecadados devem ir direto para o superávit primário. Mas é pedir demais de nossos atrapalhados heterodoxos.

domingo, 3 de agosto de 2008 12:06:00 BRT  

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