terça-feira, 12 de agosto de 2008

Esferas de influência (12/08)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

As potências apóiam ou não os movimentos separatistas e as ditaduras conforme a conveniência. Resta aos ideólogos o trabalho sujo de catar argumentos para construir a justificativa post facto

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A nova guerra no Cáucaso é mais uma evidência da importância do cinismo nas relações internacionais. Se Kosovo pôde declarar unilateralmente a independência em relação à Sérvia, por que a Ossétia do Sul não pode cultivar o desejo de romper os laços com a Geórgia? A mesma Europa e os mesmos Estados Unidos que hoje advertem para a necessidade de garantir a integridade territorial da Geórgia reconheceram rápida e alegremente Kosovo depois da separação. Ainda que o movimento kosovar estivesse em aberto conflito com as decisões da ONU.

E não é só. Poucos dias depois de Radovan Karadzic ser levado ao banco dos réus, acusado de ter comandado a tentativa de limpeza étnica na guerra civil da Bósnia, os autonomeados julgadores do ex-líder dos sérvios bósnios dão apoio diplomático e militar ao governo da Geórgia, que deflagrou a atual crise no Cáucaso ao iniciar uma ofensiva militar com a intenção de “limpar” a Ossétia do Sul da influência (e de populações) russas.

Enquanto isso, em Guantánamo, prisão onde os Estados Unidos mantêm pessoas capturadas à margem da lei por todo o planeta (e que ali permanecem presas indefinidamente, mesmo que não pese contra elas qualquer acusação ou prova formal), o ex-motorista de Osama Bin Laden acaba de ser sentenciado por um tribunal composto exclusivamente por militares americanos. A pena foi ajustada para quase coincidir com o período já decorrido desde a prisão. Melhor mesmo soltar logo o sujeito, para não dar muito na vista.

Nem as Olimpíadas escapam ao desfile de contradições. Enquanto o presidente George W. Bush discorria na China sobre o direito à liberdade de informação e sobre as garantias individuais, a imprensa americana revelava que Washington adotou uma norma que permite a autoridades americanas apreeender o computador pessoal e outros dispositivos de armazenamento de dados (por exemplo um pen drive) de qualquer visitante, ainda que nenhuma acusação pese contra ele.

Mais ainda: os serviços de segurança americanos podem reter os equipamentos por tempo indeterminado e compartilhar os arquivos com qualquer agência ou entidade. Alguém imagina o que aconteceria se a China adotasse esse tipo de medida a pretexto de garantir a segurança e prevenir o terrorismo nos Jogos Olímpicos de Pequim? O mundo desabaria.

Meses atrás, conversava com dois amigos numa mesa de restaurante quando entrou em pauta o assunto dos direitos humanos nas relações internacionais. Conversa vai, conversa vem, alguém deu a boa idéia. O Brasil deveria aceitar que seus laços com outros países fossem determinados pelo respeito dos governos dessas nações aos direitos humanos. Com uma única condição: deveríamos ser o segundo país a fazer isso. Ou seja, desde que pelo menos um outro fizesse isso antes de nós. Claro que a conversa terminou em risos.

Pouco menos de duas décadas após o fim da Guerra Fria, o papel impresso com as teorias sobre o fim da História está aí apenas para embrulhar peixe. Em pleno século 21, a palavra da moda é “nacionalismo”. Uns mais rapidamente, outros mais devagar, os países percebem que a única garantia de bem-estar para seus povos está no exercício pleno da soberania. Especialmente sobre os recursos naturais. E mais especialmente ainda sobre as fontes de energia não renovável.

No mundo em rearranjo após o fim do que era conhecido como campo socialista, as velhas e novas potências buscam estabelecer suas esferas de influência para melhor fazer prevalecer os respectivos projetos nacionais. Apóiam ou não os movimentos separatistas e as ditaduras conforme a conveniência, restando aos ideólogos o trabalho sujo de catar aqui e ali argumentos para construir a justificativa post facto.

E nós com isso tudo? Bem, já que nosso projeto nacional está vinculado à existência de uma América do Sul democrática, integrada econômica, política e militarmente, devemos saudar o resultado do plebiscito boliviano, pela contribuição que pode dar à manutenção de uma Bolívia unida na sua diversidade. Assim como já temos trabalhado para evitar que a Colômbia se desgarre definitivamente da comunidade de nações sul-americanas e se transforme num simples entreposto de políticas alheias ao continente.

No plano interno, é necessário perguntar ao governo e ao PT — como já se fez nesta coluna — qual a conveniência de reacender feridas já histórica e legalmente fechadas, e que servem apenas para lançar brasileiros contra brasileiros, além de criar constrangimentos entre o poder político democrático e as Forças Armadas — essenciais para a expressão de nossa soberania. Aliás, uma pergunta feita aqui na coluna citada não foi respondida. Os que defendem a revisão da anistia para acusados de tortura defenderiam também que membros das Farc responsáveis por seqüestros com o objetivo de extorsão fossem excluídos de uma eventual anistia na Colômbia, no âmbito de um processo de paz?


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15 Comentários:

Anonymous Paulo Araújo disse...

“Claro que a conversa terminou em risos.”

Errado, meu caro. Errado. Errado.

Tanto realismo político só poderia mesmo conduzir ao riso insano, à perda da razão. Como alertam os filósofos, virtude ou razão em excesso passam ao seu contrário.

Exatamente pelos fatos que você relaciona no post seria muito desejável que a nossa política externa fosse cada vez mais pautada na defesa intransigente da democracia e dos direitos humanos. É deplorável e preocupante que o país protagonista da revolução democrática na América do século XVIII aprove em pleno século XXI essa aberração absolutista que é a Lei Patriótica. O regime político que confisca liberdades deixa de ser democrático e, via de regra, passa a beneficiar os desonestos e a punir os honestos. Lembremos a frase de um dos pais da nação norte-americana: "Quem joga fora a liberdade essencial para obter uma pequena segurança não merece nem liberdade nem segurança" (Benjamin Franklin).

Não há como escolher lados na barbárie. Não existe escolha: o único lado é o lado que se opõe á barbárie. Ou aderimos à razão terrorista (de Estado ou das seitas), ou a rejeitamos em nome da razão dotada de um outro fundamento. Se não existe uma razão democrática, que se afasta da morte e da loucura da guerra, então é forçoso concluir que só a razão terrorista é real e racional.

Nesta conjuntura histórica observamos o ressurgimento da Razão de Estado e dos realismos políticos como “nobres defesas” dos interesses das grandes potências ou dos grupos acima de qualquer consideração ética e de moralidade. Além do terrorismo das grandes potências, vemos o terrorismo das seitas “religiosas” que não hesitam entregar-se de corpo e alma a todo tipo de violência repressiva sem limites. Este é o nosso tempo: o da razão ligada à força bruta em desprezo (o riso louco dos “realistas” defensores da Raison d’État) à justiça e ao direito.

Abs.

terça-feira, 12 de agosto de 2008 16:51:00 BRT  
Blogger Alexandra Peixoto disse...

Na minha mais humilde opinião, não entendo uma pessoa como você, que se diz de esquerda, dizer algo como "qual a conveniência de reacender feridas já histórica e legalmente fechadas, e que servem apenas para lançar brasileiros contra brasileiros, além de criar constrangimentos entre o poder político democrático e as Forças Armadas". Nossa, que todos os contrangimentos sejam criados se for para punir torturadores e assassinos que até hoje estão aí a deitar falação. Estes militares devem sim responder por seus crimes. E deveriam inclusive parar de ameaçar os que querem investigar tantos crimes impunes. Não te entendi mesmo a sua postura nesse assunto, Alon...

terça-feira, 12 de agosto de 2008 19:06:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Paulo, é bom tê-lo de novo aqui. Cara Alexandra, eu teria imenso prazer de esclarecer ainda mais o que penso, com uma única condição. Você faria a gentileza de responder a minha pergunta que fecha este post? Membros das Farc responsáveis por seqüestros com o objetivo de extorsão deveriam ser excluídos de uma eventual anistia na Colômbia, no âmbito de um processo de paz?

terça-feira, 12 de agosto de 2008 19:14:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Só dando um tempo nos comentários, Alon. O blog eu leio sempre.

Abs.

terça-feira, 12 de agosto de 2008 23:35:00 BRT  
Anonymous Artur Araujo disse...

Caro Alon, o enxerido aqui vai responder: depende.
Depende da correlação de forças, como sempre. Depende, para desgosto do Paulo,
da "realpolitik".
A aceitação de tal ou qual limite a uma anistia, queiramos ou não, está no campo da força relativa de reivindicantes e reivindicados.
Por mim, todos os torturadores e assassinos, fardados ou não, que serviram à ditadura brasileira deveriam estar cumprindo longuíssimas penas, sem direito à condicional. Isso, porém, é pura declaração de posição. O fato indiscutível é que a anistia brasileira veio de um acordo político - como virá uma eventual anistia aos militantes das FARC - e que tal acordo só será revisto - se o for - quando a sociedade brasileira, em sua maioria, assim o dispuser.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008 10:51:00 BRT  
Blogger Alexandra Peixoto disse...

Alon, sobre a pergunta das Farc: por mais que eu as reconheça como resistência legítima, eu nunca achei esse negócio de sequestro e extorsão uma coisa boa. Nunca mesmo. Por isso, acho que no caso das Farc, seus integrantes, aqueles onde fosse provado terem cometido crimes como tortura, sequestro, assédio e assassinato deveriam ficar fora de uma anistia sim. E punidos sim. Da mesma forma que deveriam ser punidos todos os paramilitares sanguinários, e todos aqueles que dessa organização criminosa tiver se beneficiado, como deputados e o próprio presidente Uribe. Ou seja, a lei deve prevalecer para todos. Da mesma forma, aqui no Brasil, defendo a punição dos torturadores de pessoas que jamais pegaram em armas. E não foram poucos, né?
O Herzog foi um deles.
Sou pacifista e acho que toda violência é vã. Sei que no caso da Palestina, por exemplo, o buraco é bem mais embaixo...
Por isso acredito que só seremos um país verdadeiramente democrático, um Estado de Direito quando nossos militares forem julgados e punidos por todos os crimes bárbaros cometidos na Ditadura Militar e quando nossas polícias deixarem de se chamar Militar para apenas existir uma polícia Civil. Se não punirmos nossos torturadores, a tortura continuará acontecendo em todos os presídios e delegacias do Brasil, como é praxe acontecer.
A evolução dos Direitos Humanos no Brasil, acredito eu, depende fundamentalmente de mexermos nessa ferida e acabarmos com esse câncer chamado impunidade.
Um abraço,
Alexandra.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008 13:33:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Eu respondo: não! As FARC estão em guerra aberta contra o governo central, que até reconhece este estado. No Brasil, os torturadores não reconhecem a mesma situação... aliás, chamam o golpe que deram de Revolução, né?!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008 18:01:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Outra coisa; é bom que se reacendam velhas feridas para que se ponham finalmente os pingos nos iis. O Brasil não merece outra nota militar elogiando os "heróis" que defenderam a pátria dos comunistas! Está mais do que na hora de conhecermos estes "heróis" e seus feitos!!!!!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008 18:04:00 BRT  
Blogger Richard disse...

E, para encerrar, não conheço este projeto de País de que vc fala. Creio que a melhor política, externa inclusive, é a do finado JK quando dizia que não era conivente com o erro.
Apoiar a Bolívia sem uma clara definição das posições dela para conosco é cutucar onça c/ vara curta!!!!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008 18:08:00 BRT  
Anonymous Luís Henrique disse...

Alon,

No caso de uma futura revisão da lei de anistia no Brasil, quem deveriam, realmente, estar no banco dos réus, são os grupos CIVIS que, desde muito antes de 1964, articularam e apoiaram o golpe.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008 18:51:00 BRT  
Anonymous Taq disse...

Bom dia Alon,

Coom grande parte da esquerda infelizmente não há debate, a posição deles é a única correta e a única. Por isso não perca seu tempo buscando coerencia, alias nem a esquerda nem a direita.

Apenas um reparo, nosso projeto com certeza deve buscar integração Sul Americana e respeito a democracia e as leis, os plebicitos na bolivia, embore expressem a vontade do POVO (que manteve a situação anterior ao plebicito) não esta previsto na constituição atual daquele pais, portanto foi feito ao arrepio da lei. Mas o que ficou de importante e que parece que eles começaram a conversar.

Abs.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008 11:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, a sua pergunta sobre a revisão da Anistia só faz sentido se a esquerda brasileira responder: os que cometeram sequestro, assassinatos e torturas para combater o regime militar também serão julgados? É isso que pega. Os militares estão cobertos de razão: ou se julgam todos os envolvidos (dos dois lados do problema) ou então é melhor deixar do jeito que está. Caso contrário será só revanchismo e nossos militares jamais engolirão uma decisão dessas. A menos é claro que os esquerdistas brasileiros considerem que sequestro, assassinatos e torturas só sejam válidos quando eles são os algozes.
Fernando José - SP

quinta-feira, 14 de agosto de 2008 11:13:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Alon, há muita confusão aqui. Vamos esclarecer aluns dados a partir do seu post?

1- "Os que defendem a revisão da anistia para acusados de tortura... ".
Que REVISÃO da anistia para a tortura? Não houve revisão para os crimes de Estado na anistia.

2- "defenderiam também que membros das Farc responsáveis por seqüestros com o objetivo de extorsão fossem excluídos de uma eventual anistia na Colômbia"...
Como assim, comparar um crime de guerrilha com um crime de Estado?
Isso é comparar alhos com bugalhos.

Já que o negócio é realismo aí vai a minha conclusão:
Sem anistiar todos os envolvidos na guerrilha colombiana - FARCs e paramilitares - nunca o país voltará à democracia.

Por outro lado, processar agentes do Estado comprometidos com crimes contra a humanidade não é um risco para a democracia, pelo contrário.

Se os países vizinhos já começaram com isso, porquê o Brasil não pode?

Somos diferentes em quê do Chile, Uruguai e Argentina?

quinta-feira, 14 de agosto de 2008 14:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Só uma observação: dizer que Radovan Karadzic é apenas “acusado de ter comandado a tentativa de limpeza étnica na guerra civil da Bósnia” equivaleria a afirmar que Brilhante Ustra é apenas “acusado de ter tentado torturar no regime militar do Brasil”. Quer dizer que a limpeza étnica na Bósnia ficou no “nível da tentativa”?

Helion

quinta-feira, 14 de agosto de 2008 23:01:00 BRT  
Anonymous Paulo Araújo disse...

Alon

Portanto, dou um tempo aos comentários. Não consigo moderá-los e sou, como eles - os que odeio - são, grosseiro.

Não A Ti, Cristo, Odeio Ou Te Não Quero

Não a Ti, Cristo, odeio ou te não quero.
Em ti como nos outros creio deuses mais velhos.
Só te tenho por não mais nem menos
Do que eles, mas mais novo apenas.

Odeio-os sim, e a esses com calma aborreço,
Que te querem acima dos outros teus iguais deuses.
Quero-te onde tu stás, nem mais alto
Nem mais baixo que eles, tu apenas.

Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia
Como tu, um a mais no Panteão e no culto,
Nada mais, nem mais alto nem mais puro
Porque para tudo havia deuses, menos tu.

Cura tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a vida
É múltipla e todos os dias são diferentes dos outros,
E só sendo múltiplos como eles
‘Staremos com a verdade e sós.

Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis

Um breve que encontrei sobre o heterônimo:

Médico de profissão, monárquico, facto que o levou a viver emigrado alguns anos no Brasil, educado num colégio de jesuítas, recebeu, pois, uma formação clássica e latinista e foi imbuído de princípios conservadores, elementos que são transportados para a sua concepção poética. Domina a forma dos poetas latinos e proclama a disciplina na construção poética. Ricardo Reis é marcado por uma profunda simplicidade da concepção da vida, por uma intensa serenidade na aceitação da relatividade de todas as coisas. É o heterónimo que mais se aproxima do criador, quer no aspecto físico - é moreno, de estatura média, anda meio curvado, é magro e tem aparência de judeu português (Fernando Pessoa tinha ascendência israelita)- quer na maneira de ser e no pensamento. É adepto do sensacionalismo, que herda do mestre Caeiro, mas ao aproximá-lo do neoclassicismo manifesta-o, pois, num plano distinto como refere Fernando Pessoa em Páginas Íntimas e Auto Interpretação, (p.350):

“Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Ricardo Reis tem outra disciplina diferente: as coisas devem ser sentidas, não só como são, mas também de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regras clássicas.».

É o que menosprezam os que odeio: ideal de medida e regras clássicas.

Não a ti, Alon, eu odeio ou menosprezo.

Abs.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008 12:25:00 BRT  

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