terça-feira, 8 de julho de 2008

Que digam a que vieram (08/07)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (08/07/2008) no Correio Braziliense.

A pouca eficácia dos ataques desferidos contra o candidato Crivella é sinal de que no Rio a campanha negativa estreou com o pé esquerdo

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Bombardeado há dias pelo noticiário sobre a morte dos três rapazes do Morro da Providência, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) viu crescerem as intenções de voto nele para prefeito do Rio de Janeiro. Parece, portanto, que pela enésima vez os formadores de opinião andam num sentido enquanto a população vai para o lado oposto. Já o crime em si prossegue sem solução. Uma vez atingidos os alvos políticos (o próprio Crivella e as Forças Armadas), parece que a indignação da opinião pública entrou no costumeiro processo de deixa para lá.

A situação é de todo absurda. Os homens do Exército que entregaram
as três vítimas aos traficantes estão presos e já respondem a processo. Mas os bandidos que cometeram o ato cruel continuam soltos. E, já que é lógico supor que os militares sabem a quem repassaram os três, é também razoável concluir que a polícia do Rio de Janeiro está demorando demais para colocar a mão nos assassinos. Cadê os culpados, governador Sérgio Cabral?

Nesta altura, os criminosos podem até caído fora dali. Espero que não. Espero, sinceramente, que se faça justiça nesse crime bárbaro. É também por isso que trago o assunto nesta coluna, para dar minha modesta contribuição a que tudo não acabe em pizza.

Voltemos à pesquisa do Datafolha. Em meio ao tiroteio, Crivella ganhou sete pontos percentuais. Considerada a margem de erro, o fato é que o ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus não declinou na preferência da população. Duas razões possíveis. A primeira é que o candidato nada teve de fato a ver com o crime. A segunda é que, após a divulgação maciça do caso, mesmo quem não sabia agora sabe que o senador propõe e faz executar programas de apoio urbano à população favelada do Rio. Bingo!

Toda campanha negativa é um risco. Eleições são processos de escolha relacionados a expectativas sobre o futuro. Expor as mazelas do adversário é algo natural e esperado, mas perde eficácia quando não fica claro, na mensagem, o que Maria leva. Maria é o eleitor. Criticar a politicagem embutida no programa Cimento Social é razoável. Mas para o favelado carioca talvez seja mais relevante constatar que alguém, afinal, propõe algo de prático para melhorar a vida no morro.

O prefeito Cesar Maia (DEM) há tempos desenvolve a teoria da bipartição do eleitorado do Rio, entre os “organizados” e os “desorganizados”. O candidato Crivella parece que vai aglutinando a segunda parcela. Qual é a aposta do prefeito? Colocar no segundo turno a candidata dele e, a partir daí, convocar as forças “organizadas” do Rio para uma cruzada contra o senador. Essa é a teoria. Na prática, porém, o que se viu no primeiro round foi uma vitória de Crivella por pontos.

Com um agravante: quem está em segundo lugar na corrida pela prefeitura é a ex-deputada federal Jandira Feghali (PCdoB), detentora de uma carreira política solidamente fincada nos “organizados”. Ou seja, para que Maia ou o governador Cabral consigam colocar um candidato no eventual segundo turno contra Marcelo Crivella precisarão remover a comunista do grid.

Para o pensamento político supostamente macro, ou excessivamente moldado por critérios nacionais, uma polarização entre Jandira e Crivella parece algo bizarro. Mas esse cenário talvez faça algum sentido, à luz da teoria da bipartição desenvolvida pelo próprio Cesar Maia. Claro que tudo pode mudar. Afinal, a campanha nem começou. E as máquinas municipal e estadual afiam as espadas para colocar na rua o rolo compressor em favor de seus respectivos candidatos.

Dada porém a tradição iconoclasta do carioca, é bom ficar de olho. Uma coisa é certa. A pouca eficácia dos ataques desferidos contra o candidato do PRD é o sinal de que no Rio a campanha negativa estreou com o pé esquerdo. Sorte dos marqueteiros de todo o país, que receberam de graça um "case". Pois nada leva a crer que no resto dos municípios vá ser diferente.

Quem quiser voto, que diga a que veio.

http://twitter.com/alonfe

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5 Comentários:

Anonymous Tiago disse...

Alon, se você tivesse um título eleitoral do Rio de Janeiro em quem votaria?

terça-feira, 8 de julho de 2008 10:35:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

O tiro no pé do episódio Providência foi maior, também sobre os conservadores organizados, tradicionais eleitores de César Maia.

A turma do mata-e-esfola população do morro (além dos bairros vizinhos de classe média), sempre se encantaram com a idéia do exército em favelas. Eram eleitores de César Maia. Muitos estão reconsiderando sua rejeição à Crivella depois que souberam que Senador articulou a obra social com a presença do exército.

As tradições políticas no RJ, eram, até então, de lideranças políticas nestas comunidades negociarem com associação de moradores e com os gerentes do tráfico, a "autorização" para fazer obras.

Pesquisa qualitativa do IBPS mostra ampla aceitação popular tanto das obras como do apoio militar à elas.
Condenam o uso eleitoral, como condenam qualquer uso da máquina pública.
Crivella já usa estas pesquisas em seu favor, assumindo em sua campanha a defesa do projeto e da atuação (correta) das FFAA.

É díficil um eleitor acreditar que algum político não tire algum proveito eleitoral das políticas públicas que implementa.
Se a máquina pública for voltada para obras ou serviços de interesse público, o eleitor releva. Não aceita se for desvio de recursos públicos para financiar campanha ou comprar votos.

O próprio César Maia sempre concentrou obras no último ano de mandato. Todo gestor político faz intensa agenda de inaugurações até a data limite.

Todo mundo percebe, e mesmo assim os conservadores e desorganizados votavam nele (em César Maia).

Jandira tem tudo para polarizar com Crivella, atraindo o voto progressista. Deve imitar o Brizola da década de 80 para ter o voto dos "desorganizados". Não deve atacar Crivella por este episódio para não perder votos.

terça-feira, 8 de julho de 2008 13:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Cadê os culpados...?" Bela pergunta, Alon. A resposta pode estar no título de um antigo filme nacional, com Grande Otelo: "Os Herdeiros Somos Nós". Quanto à questão eleitoral, talvez seja bom recomendar fazer tal como o personagem de Jards Macalé em "O Amuleto de Ogum": fechar o corpo. Só que, neste caso, contra a correlação positiva entre denúncias graves e o aumento da popularidade.

quarta-feira, 9 de julho de 2008 11:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon, lembra do ditado: Falem mal, mas falem de mim? Sou um Economista que fez carreira na área de informática, não entendo nada de jornalismo, mas a imprensa conhece bem os meandros da força da noticia. Com candidatos políticos é a mesma coisa: Quanto mais se escreve ou se fala, mesmo que muito mal de alguém, o povão quando perguntado sobre qual candidato votaria, responde o que lhe vem a cabeça, ou seja, o nome que ele mais escutou e não o que ele mais avaliou como pessoa séria ou qualquer coisa que valha para um candidato que o represente. Não é diferente em outros países. O candidato que se destaca é sempre o que a mídia noticía, bem ou mal. E agora vem a pergunta: De quem é a culpa desses políticos safados estarem no poder? Se a imprensa sabe disso e insiste em publicar veementemente o nome dessa gente, ela a imprensa, faz parte da trama e é a grande aliada e culpada. Quando se cala sobre um nome, esse nome desaparece. Quando se alardeia o mesmo nome, ele volta a aparecer num piscar de olhos.

quarta-feira, 9 de julho de 2008 14:48:00 BRT  
Anonymous Willian Gonçalves disse...

Alon, quando a Globo partiu com tudo para cima do Crivella eu comentei com minha esposa que ele iria crescer. Porque o grosso da população pensa: "E daí se tres traficantes morreram?" Além disso a forçada de barra foi tão grande para se jogar o ônus em cima do candidato que até quem não acompanha política percebeu o interesse por trás da notícia. E por último, mas principal, a obra quew era do Lula e do Cabral de repente virou também do Crivella. Essa turma do DEM e DO PSDB, junto com os seus braços na imprensa vivem no mundo da Lua. Quando atiram normalmente acertam o próprio pé, e às vezes a cabeça.
Acho que isso até explica a calma do Lula quando leva uma saravaida da oposição. O que deve passar pela cabeça do presidente é, como se diz nas peladas de fim de semana, "Deixa que a natureza marca".

quarta-feira, 9 de julho de 2008 21:27:00 BRT  

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