sexta-feira, 25 de julho de 2008

O ambientalista e as circunstâncias (25/07)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

De repente, feito raio em céu azul, teorias cultivadas com esmero por décadas vão para o arquivo morto, como inservíveis

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correiobraziliense.com.br

A licença prévia para as obras da usina nuclear de Angra 3 é mais um marco da obsolescência prematura da agenda clássica dos ambientalistas para o Brasil. Ainda que o Ibama tenha juntado penduricalhos de todo tipo à autorização, a derrota filosófica e política é indisfarçável. Aliás, sobre os tais penduricalhos resta pelo menos uma dúvida: as dezenas de exigências definidas pelo instituto são mesmo essenciais para a construção e a operação seguras da usina?

Caso a resposta seja “sim”, impõe-se a segunda questão: a geração nuclear já existente em Angras 1 e 2 preenche todos os requisitos impostos a Angra 3? Se aqui a resposta for “não”, será que o Ibama vai determinar a suspensão imediata do funcionamento de Angra 1 e Angra 2? Quem apostaria um escasso centavo nisso? Ninguém, é claro.

Resta a convicção de que o Ministério do Meio Ambiente enxertou na licença uma plêiade de exigências destinadas somente a servir de matéria-prima para construir o discurso da retirada. Mais ou menos como o sujeito que deixa a festa caminhando lentamente para trás, de costas para a porta, para que sua saída não dê a impressão de ser o que realmente é.

De todo modo, a decisão é positiva para o país, desde que o radicalismo ambiental enxertado por Luiz Inácio Lula da Silva na Esplanada dos Ministérios não consiga interromper o andamento da obra, negando-lhe a licença de instalação. Aliás, é só do que se fala em Brasília: que o Ibama teria cedido agora para endurecer depois. Será?

Segundo o site da Eletronuclear, a energia nuclear é produzida planetariamente em mais de 400 centrais, com destaque para países como a França, Japão, Estados Unidos, Alemanha, Suécia, Espanha, China, Rússia, Coréia do Sul, Paquistão e Índia. Ainda segundo a mesma fonte, quase um quinto de toda a energia mundial tem essa origem, proporção que tende a crescer, especialmente nos países em desenvolvimento.

Durante duas longas décadas, a combinação entre a penúria econômica e a submissão colonial operaram para paralisar o desenvolvimento da energia brasileira de origem nuclear. Com a ajuda do mesmo PT que hoje dá uma bola dentro ao destravar a agenda do átomo. Eu sou eu e as minhas circunstâncias, já disse José Ortega y Gasset. Se o espanhol tivesse vivido para conhecer o Brasil deste início de século 21 sentiria frêmitos de prazer pela atualidade de seu pensamento. Que o diga o ministro do Meio Ambiente.

Mas não vamos ficar aqui com picuinhas. A roda da História gira. Dias atrás, o prestigiado historiador britânico Paul Kennedy publicou um artigo no maior diário da Espanha, o El País, para registrar que a ecologia é uma importante vítima da crescente demanda mundial por energia e matérias-primas. Como bem notou o professor de Yale, ninguém parece seriamente disposto a abrir mão de progresso em troca de preservação.

A razão para isso é conhecida. A raiz do impasse está clara desde a emergência do debate sobre o aquecimento global. Já que os ricos, países e pessoas, desfrutam de muito mais progresso do que os pobres, e como esses últimos não poderão chegar ao nível de emissão de carbono atual dos primeiros (o planeta não agüentaria), uma solução razoável seria exportar direitos de emissão de carbono dos ricos para os pobres. Em miúdos, brecar o progresso onde ele já existe para transferi-lo aonde ele é mais necessário.

Qual é a viabilidade política de algo assim? Zero. Até porque os ricos têm bem mais poder político do que os pobres. Dado o impasse, resta aos ricos financiar lobbies para bloquear o progresso no mundo em desenvolvimento.

Só que isso tem um limite. Na Ásia, na África e na América Latina milhões e milhões de cidadãos ingressam aceleradamente no mercado e pressionam a demanda. E não há governo no Terceiro Mundo que possa ficar alheio a essa realidade, sob pena de caminhar para o colapso político. É o que acontece aqui no Brasil. De repente, feito raio em céu azul, teorias cultivadas com esmero por décadas vão para o arquivo morto, como inservíveis. E resta aos personagens da sua própria comédia balbuciar algum argumento rascunhado às pressas para justificar o injustificável.

http://twitter.com/alonfe

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2 Comentários:

Anonymous João disse...

Oi, Alon,

o tema é bem difícil, mas o que mais complica é que a transparência do governo é igual à de um copo com água enlameada. Simplesmente, não há nenhuma certeza, apenas aquela que nos diz que essa usina vai trazer mais problemas que soluções.

sexta-feira, 25 de julho de 2008 16:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

segunda-feira, 28 de julho de 2008 11:45:00 BRT  

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