terça-feira, 15 de julho de 2008

Nós e a guerra (15/07)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (15/07/2008) no Correio Braziliense.

Dada a nossa debilidade, não há muito que possamos fazer além de trabalhar dia e noite para eliminar os focos de tensão regional e avançar na integração política, econômica e militar

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A recente reaproximação entre os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Colômbia, Álvaro Uribe, deita raízes num conflito iminente, ainda que geograficamente distante. A possibilidade de um ataque israelense ao Irã, com o objetivo de eliminar a suposta ameaça nuclear persa, deixa Chávez em situação militarmente exposta. No hipotético cenário internacional em que os Estados Unidos dariam apoio a uma ofensiva bélica de Israel contra Teerã, a neutralização do principal aliado sul-americano do regime dos aiatolás certamente seria tratada por Washington como uma operação de custo colateral reduzido -e capaz de trazer bem mais ganhos do que perdas.

Especialmente se fosse realizada não diretamente pelas forças da Casa Branca, mas por um aliado regional, a Colômbia — ainda que com suporte do Pentágono. Não é segredo que os Estados Unidos controlam hoje a infra-estrutura de inteligência das Forças Armadas colombianas. A razão pretextada é o conflito com as guerrilhas das Farc. O motivo mais profundo é o desejo (ou necessidade) dos americanos de adotarem aqui posição militar compatível com o potencial energético da região.

Os Estados Unidos não podem se dar ao luxo de abrir mão do petróleo de Caracas. Ainda mais se sobrevier um quadro de incerteza em relação ao produto iraniano. Mais inaceitável ainda seria para Washington assistir passivamente a eventuais especulações sobre um elo nuclear dos venezuelanos com os iranianos. E como o útil sempre pode ser unido ao agradável, os recentes movimentos militares da superpotência alcançam um alvo adicional: as novas descobertas que projetam a plataforma continental brasileira como um gigantesco depósito de óleo e gás.

Voltando às relações Bogotá-Caracas, é nesse temor de uma possível intervenção americana que devem ser buscadas as razões de Chávez ter se enfiado na empreitada de buscar saídas políticas para a guerra civil no vizinho. Adversário da guerra de guerrilhas (não esquecer a origem militar de Chávez), há tempos o venezuelano percebeu que o conflito colombiano seria o pretexto perfeito para justificar um ataque ao regime bolivariano. Mas as inciativas venezuelanas não têm dado muito certo. Como nem Uribe nem George W. Bush desejam fortalecer Chávez, a prioridade de ambos é fechar as portas a qualquer solução diferente da rendição incondicional das Farc. Os fatos dos últimos seis meses não deixam dúvida.

O recente enfraquecimento das Farc, por seu lado, coloca Uribe diante de um outro problema: o força excessiva recentemente adquirida por seus falcões, especialmente o ministro da Defesa, candidato declarado a sucedê-lo. E o melhor sinal de que nem tudo são flores para as forças de direita no cenário político colombiano é o ajuste que a ex-refém Ingrid Bettancourt operou em seu discurso, incorporando um vetor social e negociador capaz de alavancá-la como alternativa ao uribismo puro e duro. Daí que se achegar a Hugo Chávez tenha se transformado, inesperadamente, num bom negócio para Álvaro Uribe.

E nós com tudo isso? Bem, parece que não há muita divergência quanto à tragédia geopolítica que uma intervenção militar norte-americana na América do Sul representaria para o Brasil. Por outro lado, dada a nossa debilidade, não há muito que possamos fazer além de trabalhar dia e noite para eliminar os focos de tensão regional e avançar na integração política, econômica e militar. Integração que não será possível num quadro de guerra, quente ou fria. Daí que para o Brasil a reaproximação Chávez-Uribe também seja um bom negócio.

O governo Luiz Inácio Lula da Silva vive desde o início uma lua-de-mel com a administração Bush, já que o Brasil governado pelo PT em nenhum momento se apresenta como ameaça aos interesses estratégicos dos Estados Unidos na América do Sul. E essa boa relação entre Brasília e Washington é um alicerce fundamental da estabilidade democrática regional. Que por sua vez é o elemento sine qua non para o avanço político pacífico dos projetos político-eleitorais de viés dito progressista.


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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Bela análise. Parabéns.

terça-feira, 15 de julho de 2008 20:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro, como vai? Sou admirador do seu blog, mas tenho notado que vc vem escrevendo bem pouco, e acho o seu silêncio sobre o imbróglio da Operação Satiagraha, que é o assunto mais quente dos últimos dois anos, me incomoda um pouco. O que houve?

abs,
Cláudio

quarta-feira, 16 de julho de 2008 01:45:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Cláudio,

Como você poderá verificar, posts sobre operações policiais são raríssimos neste blog. Quanto a escrever pouco, talvez seja por estar bastante e momentaneamente dedicado a outras tarefas. Mas daqui a pouco as coisas voltam ao normal.

quarta-feira, 16 de julho de 2008 09:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bem analisado e formulado. É difícil ver, nem na grande imprensa, escritos que analisam ser o governo do PT muito confiável e portanto, sem nenhuma ameaça aos intereresses estratégicos dos EUA na América Latina. Por isso entende-se porque a política externa brasileira para a AL demonstra cautelosa aproximação com governos mais refratários aos interesses norte-americanos.

quarta-feira, 16 de julho de 2008 14:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Há pouco tempo o articulista incitava o Chavez a isolar Uribe. Agora acha inteligente fazer o contrário. É a chamada dialética...

sexta-feira, 18 de julho de 2008 07:54:00 BRT  

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