terça-feira, 17 de junho de 2008

O buraco é mais em cima (17/06)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (17/06/2008) no Correio Braziliense.

Os casos do dossiê e da Varig não batem em Dilma porque em ambos os episódios o buraco é mais em cima. Mas quem é que se arrisca a bater mais em cima?

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

As crises do dossiê com gastos constrangedores do então presidente Fernando Henrique Cardoso e da venda da Varig aparentemente não afetaram, para pior, a imagem pública da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. A partir daí, há quem negue aos dois assuntos importância ou gravidade. A oposição, pelo jeito, está nessa. As más línguas dirão que ela, oposição, está doidinha para pegar uma beirada na popularidade governamental e nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento.

Se for assim, quem poderá condená-la? Não é mesmo trivial ou fácil saber resistir politicamente aos fascínios de um presidente e de uma administração populares. Lula tem garrafas para entregar, resultados para apresentar. E tem força estatal para empregar quando necessário. Daí que ressurja de tempos em tempos nas hostes oposicionistas a teoria de que o denuncismo não leva a lugar nenhum.

É possível que a recente aversão do PSDB e do Democratas ao denuncismo receba ainda a influência dos últimos acontecimentos no Rio Grande do Sul. Nesse estado, especialmente vocacionado para a pecuária extensiva e cujo símbolo é o cavaleiro gaúcho, revela-se como uma luva a atualidade do velho ditado: o castigo vem a cavalo.

Entre os anos de 2005 e 2006, tucanos e democratas viram na crise desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson motivos para especular com o impeachment do presidente da República — e para levar quase toda a cúpula do PT à guilhotina. Agora, quando se revela que aliados da governadora riograndense são suspeitos de ocupar a máquina pública para, digamos, alavancar recursos não contabilizados, a reação dos antes defensores da ética é de indignação, mas contra quem revela os fatos a investigar.

O que é, afinal, o denuncismo? Procurei nos dicionários e não achei. A palavra parece um neologismo em estado embrionário. Talvez a expressão possa significar a obsessão pela mazela alheia, mas só pela alheia. Se for isso, o denuncismo é mesmo uma deformidade. Que costuma ser vetorialmente corrigida pela existência de outro denuncismo, de sinal contrário. E o teatro da política segue.

Há entretanto uma variável que costuma escapar dessa lógica: o interesse público. É do interesse público saber exatamente como se produziu no Palácio do Planalto a planilha que, com dados pinçados de um banco eletrônico de informações sigilosas, seria (foi?) usada para refrear o ímpeto investigativo da oposição. É evidente que a estratégia palaciana deu certo, ainda que parcialmente, dado que a oposição de fato se recolheu. Ela resolveu deixar para lá as suspeitas de irregularidades no uso de cartões que pagam contas de Luiz Inácio Lula da Silva e da família do presidente.

Mas resta, teimosamente, o interesse geral. Esperam-se, nesse sentido, as manifestações da Polícia Federal e do Ministério Público. Assim como aguardam-se ansiosamente eventuais conclusões desses órgãos sobre a venda da Varig. Há suspeitas de que um ativo estatal (as concessões de linha aéreas) tenha sido privatizado no processo, sem amparo legal. Há também suspeitas de tráfico de influência protagonizado por gente do círculo de amizades do presidente da República. Fora as evidências de que a empresa foi repassada numa primeira etapa a estrangeiros, coisa que a lei proíbe.

Ah, sim, há o título desta coluna. Ouvem-se aqui e ali explicações com certo grau de sofisticação sobre por que os dois casos não afetam a imagem de Dilma Rousseff. Defende-se que o brasileiro comum não está nem aí para irregularidades supostamente cometidas pelos governantes, desde que a economia vá bem.

Será? É mais provável que os casos do dossiê e da Varig não batam em Dilma pela simples razão de que nada têm a ver com ela. A chefe da Casa Civil não foi acusada de gastar indevidamente com cartão corporativo. E ninguém, em sã consciência, imagina que possa partir da Casa Civil a decisão política de escarafunchar documentos relativos a ex-presidentes da República. E o dossiê não foi montado para evitar que se investigassem gastos de Dilma Rousseff. E o advogado suspeito de tráfico de influência na venda da Varig não é compadre de Dilma. E nenhuma decisão política ou administrativa sobre a venda da companhia aérea foi tomada na Casa Civil.

Os casos do dossiê e da Varig não batem em Dilma porque em ambos os episódios o buraco é mais em cima. Mas quem é que se arrisca a bater mais em cima?

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

10 Comentários:

Anonymous Péricles Garcia disse...

Só um petista como você para comparar o mensalão com o caso do governo de Yeda Crusius. Qual é a prova de que os aliados dela recolhiam dinheiro para propósitos políticos?

terça-feira, 17 de junho de 2008 16:19:00 BRT  
Anonymous Maria S. Limeira disse...

Você não se cansa de malhar em ferro frio? O assunto do dossiê morreu e eu duvido que a Polícia Federal vá acrescentar algo. Já no caso da Varig está na cara que as movimentações do Roberto teixeira são suspeitas, mas é igualmente duvidoso que a PF vá se meter. Macaco sábio não põe a mão em cumbuca.

terça-feira, 17 de junho de 2008 16:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Receba as boas vindas. Você fez falta.

terça-feira, 17 de junho de 2008 16:23:00 BRT  
Anonymous Emerson Maria disse...

Boa noite, Alon !!
Já voltou apanhando dos dois lados, hein !!!
Parabéns..
Abs.
Emerson Maria

terça-feira, 17 de junho de 2008 20:01:00 BRT  
Blogger Madison Jr disse...

O momento de acertar o alvo passou, depois do mensalão temo não haver fatos piores (sinceramente espero que não haja, mas nunca se sabe né) para acertá-lo.

terça-feira, 17 de junho de 2008 20:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Voltou afiado, hein...?
"alavancar recursos não contabilizados" é ótimo!!!!

Sim, lhe acusaram de ser petista por "bater" na Gov. Yeda.
Então, por insinuar que as malfeitorias do momento ( dossie e varig)partiram de alguem acima da Min. Dilma, lhe acuso de ser tucano.

Ha, ha, ha...

PS- Talvez fosse melhor vc mudar de tema. Que tal escrever sobre culinária?
Não, não... ainda assim seria acusado de gostar mais dos salgados que dos doces...

Emanuel cunha lima
( não sei enviar sem usar a opção "anonimo")

quarta-feira, 18 de junho de 2008 13:21:00 BRT  
Anonymous Lau Mendes disse...

Caro Péricles Garcia, que tal os mais de R$ 18.000.000,00 faltando na prestação de contas junto ao TCE do Banrisul e os projetos declarados pela fundação que em tudo dá um “jeitinho” ? Que tal a ordem judicial que bloqueou 30 % dos valores pagos no processo de habilitação a carta de motorista junto ao Detran ? Que tal a gravação feita pelo Vice-Governador onde o chefe da casa civil de Dnª Yeda declara que partido era “dono” de que repartição e com propósito de por vias transversas (concorrência pública “viciada”) angariar fundos (caixa 2) para financiar campanhas partidárias ? E para não ficar malhando em ferro frio porque sabemos que isto tudo não vai dar em nada, há muito rabo preso em todos os poderes e via-de-regra tudo caduca no judiciário, só diria para completar que muito mais as claras ficaria se a Receita Federal expusesse as declarações fiscais de suas excelências e de seus laranjas. Isto seria o 2º ato , o da ladroeira com a “sobra” de campanha. Quanto a comparar com mensalão, tens razão. Seria injustiça à comparação exclusiva porque isto ocorre no Brasil desde sempre. A ultima que começa a ser desvendada, parece ser uma bomba com um único endereço. E ela vai explodir. Rezem que seja após as campanhas de 2010.

sexta-feira, 20 de junho de 2008 15:02:00 BRT  
Anonymous Willian Gonçalves disse...

Seja bem retornado de suas férias, Alon, voce faz falta...

Só que infelizmente vou ter que discordar de duas colocações de seu post. Em primeiro lugar, não acho que esse "dossie" teve efeito algum sobre a oposição. A CPI morreu no momento em que a situação conseguiu estender a investigação aos anos FHC. Ou seja, ou nos investigamos todos ou não se investiga ninguém. Obviamente a segunda possibilidade venceu. E isso já vem ocorrendo em outros ditos escândalos, em que sempre se descobre que o PSDB/DEM já vinha fazendo a mesma prática, e normalmente de forma mais competente. É isso, e não um mero dossiê, que tem derrubado o corvo oposicionista de bicar o presidente.

Quanto ao caso Varig, não acho que tenha havido privatização dos slots. Eles continuam sendo de propriedade do estado. Tanto que se a Varig tivesse falido simplesmente, como queria Denise Abreu, os slots seriam redistribuídos pelas empresas restantes pelo próprio governo. Uma concessão pública, até onde eu sei, continua pertencendo poder federal, mesmo após ter sido concedida, podendo inclusive ser retomada em determinadas condições.
No mais, parabéns pelo texto, adorei a sua definição de denuncismo.

segunda-feira, 23 de junho de 2008 16:26:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Alon,
Não cola porque os escândalos foram fabricados, e mal fabricados.
A participação de assessores de Álvaro Dias (e há conversas de assessores de Arthur Virgílio) fez com que a oposição perdesse o interesse, pois mais investigações apenas iria desmascará-los mais, e levá-los a comprovação da quebra de decoro.
Lançaram um balão de ensaio via imprensa. Se colasse derrubariam uma ministra. Não colou.
No caso Varig a mesma coisa.
O governo tem tanta culpa, quanto a receita federal teria por empresas que conseguem alvará, tiram CNPJ e depois sonegam impostos. Ou seja, se nenhum fiscal foi subornado, a legislação foi cumprida, não há culpa nenhuma, desde que autue quando fique sabendo.

segunda-feira, 23 de junho de 2008 18:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O buraco (ético) é mais em cima, meu caro Alon, é no gabinete do ilustre presidente da república...

terça-feira, 24 de junho de 2008 10:50:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home