sexta-feira, 20 de junho de 2008

Bendito despreparo (20/06)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (20/06/2008) no Correio Braziliense.

É premente a necessidade de evitar que os militares sejam periodicamente vítimas do conceito de culpa coletiva, uma idéia de raízes nazifascistas

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correiobraziliense.com.br

Quem é o comandante-em-chefe das Forças Armadas (FFAA)? O presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Quem é o responsável pela segurança pública no Rio de Janeiro? O governador Sérgio Cabral.

Num crime horrendo, traficantes do Rio mataram três rapazes, entregues aos bandidos por militares que supostamente haviam sido desacatados pelo trio. Os oficiais e soldados envolvidos já estão presos e irão pagar na forma da lei, militar ou civil. Parabéns às FFAA pela rapidez nas providências. Já os traficantes homicidas continuavam soltos até o momento em que escrevia esta coluna. Vamos aguardar como age no caso a polícia do governador Cabral.

Há todo um movimento de opinião pública para imputar às FFAA, como instituição, a responsabilidade pelo terrível episódio. Isso é tão razoável quanto culpar a Igreja Católica por um eventual caso de pedofilia de um padre. É tão lógico quanto apontar o dedo acusador contra a direção nacional de um partido pelo fato de um vereador da legenda cobrar propina para acompanhar o prefeito nas votações da Câmara Municipal.

Também está na moda dizer que as três mortes indicam a falta de preparo das FFAA para cumprir missões na esfera da segurança pública. Até gente do governo defende a tese. Não deixa de ser curioso, já que, segundo a própria administração federal, as FFAA estão bem preparadas para executar esse tipo de missão no Haiti. Talvez porque nossa presença militar naquelas paragens do Caribe seja pedra de toque do lobby de Lula para obtermos uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Se os militares brasileiros podem estar em Cité Soleil, por que não podem marcar presença no Morro da Providência? Claro que podem. Desde que o façam com o mesmo profissionalismo mostrado, até agora, nas favelas de Porto Príncipe. Evidente que problemas podem acontecer. Soldados são seres humanos, gente de carne e osso sujeita a fraquezas. Para preveni-las e puni-las, aliás, é que existe a lei.

Outro equívoco é defender que as FFAA devem restringir sua ação à defesa do país contra o inimigo externo. As FFAA não só podem como devem empregar seus recursos e sua conhecida capacidade em missões internas nas esferas do desenvolvimento econômico e do progresso social. Fora os lobbies contrariados, não vejo ninguém reclamar quando as FFAA são chamadas pelo presidente Lula para realizar obras rodoviárias. Ou quando se envolvem no apoio material à saúde e à educação de populações necessitadas .

Falsos argumentos à parte, o problema hoje enfrentado pelas FFAA é principalmente político. Nas hostes do antimilitarismo há os sinceros, que no íntimo ainda não conseguiram apagar a memória dos anos da ditadura. E há os espertos, que se valem do compreensível sentimento dos sinceros para tentar encurralar os militares e impedir que exerçam, no âmbito da democracia, seu papel constitucional na defesa do Estado brasileiro e contras as ameaças internas e externas. Um exemplo é a reserva indígena Raposa Serra do Sol.

As FFAA devem habituar-se à dura fiscalização pela sociedade, elemento constitutivo do regime democrático. E a sociedade deve acostumar-se ao fato de as FFAA serem uma instituição como outra qualquer, com bons e maus integrantes. Daí a absoluta e premente necessidade de evitar que os militares sejam periodicamente vítimas do conceito de culpa coletiva, uma idéia de raízes nazifascistas, para não irmos mais longe.

Por falar em esperteza e sinceridade, talvez você esteja a se perguntar por que as duas interrogações no primeiro parágrafo desta coluna. Ora, as FFAA não estariam cumprindo sua atual missão carioca sem a anuência do comandante-em-chefe. E soldados não poderiam confraternizar com traficantes se a polícia do Rio estivesse realmente empenhada em combater os criminosos. Elementar. Mas, assim como no recente caso da epidemia de dengue no Rio, Lula e Sérgio Cabral decidiram mergulhar e fazer que não é com eles. É uma tecnologia conhecida: fingir-se de morto na hora da batalha e aparecer depois para dividir os bônus da vitória.

Cabral e Lula são momentaneamente beneficiados por uma situação política peculiar. A presença do Exército no Morro da Providência relaciona-se com um projeto do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), candidato a prefeito da capital fluminense. O episódio das três mortes caiu, neste ano eleitoral, como uma luva para os muitos adversários do senador e da igreja dele, a Universal do Reino de Deus (Iurd). Como a igreja tem angariado mais inimigos do que recomendaria a prudência, o tempo fecha para Crivella e ninguém cobra nada do presidente e do governador.

Pensando bem, talvez num aspecto as Forças Armadas estejam mesmo despreparadas. Parece faltar aos nossos militares o necessário adestramento para freqüentar os meandros e labirintos de uma política partidária conduzida sem o menor apreço à verdade e ao interesse público.

Bendito despreparo.


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11 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

Se não tivesse o senador Crivella no meio, não estaríamos discutindo esse tipo de coisa, não?

sexta-feira, 20 de junho de 2008 09:57:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Alon , talvez você não tenha assistido a defesa que Lula fez da continuação do exercito na favela.
Só isso bota abaixo todo o seu texto.

sexta-feira, 20 de junho de 2008 18:17:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

E só para complementar, o governo não está numa briga juridica justamente para evitar que o exercito abandone a favela?
Sinceramente, nesse caso, o governo
está sim defendendo as Forças Armadas.

sexta-feira, 20 de junho de 2008 18:24:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Marcos, seguem duas reportagens da Agência Brasil. Acho que esclarece o caso levantado por você:

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Lula afirma que se for preciso Exército sai da Providência

Yara Aquino
Repórter da Agência Brasil

Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não descartou hoje (18) a possibilidade de retirar o Exército do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, após a participação de soldados na morte de três jovens da comunidade no último fim de semana.

“Se for necessário [o Exército] sai, mas isso vamos discutir com calma para não tomar nenhuma atitude precipitada.”

De acordo com Lula, a presença do Exército no morro seria importante para garantir a segurança das obras do Projeto Cimento Social, que reforma telhados e fachadas das casas da comunidade. “Vamos compreender que o Exército está lá porque todos entendíamos que seria mais tranqüilo para fazer aquela obra”, completou.

O presidente classificou de “abominável” o episódio. “Não é possível que três jovens inocentes sejam vítimas de um ato que foi de uma pessoa que estava lá para colocar ordem”. Ele também afirmou que o governo tem interesse em resolver o caso. “O que vamos fazer agora é trabalhar para fazer justiça. O Estado tem que fazer uma reparação para aquelas famílias”.

As declarações de Lula foram feitas após a cerimônia de comemoração do centenário da imigração japonesa no Brasil. Logo após, Lula se reúne com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que esteve ontem no Rio de Janeiro para acompanhar de perto os desdobramentos do caso. O presidente disse ainda que conversará com o ministro das Cidades, Márcio Fortes sobre o episódio.

A presença do Exército no projeto Cimento Social, do Ministério das Cidades, chegou a ser questionada e ontem foi defendida em nota do exército.

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Mortes mostram despreparo das Forças Armadas para tratar de segurança pública, diz Tarso

Marco Antônio Soalheiro
Repórter da Agência Brasil

Brasília - O ministro da Justiça, Tarso Genro, disse hoje (17) que o envolvimento de militares do Exército na morte de três jovens moradores do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, ocorrida no último sábado (14) comprova “uma visão que é do presidente Lula [Luiz Inácio Lula da Silva], majoritária de toda a sociedade, de que as Forças Armadas não são aptas para cuidar de segurança pública”.

O ministro disse ainda confiar que as Forças Armadas irão adotar todas as providências cabíveis para punir os responsáveis pelo episódio. “Foi uma ação de pessoas sem responsabilidade que agiram por conta própria de maneira marginal”, disse o ministro ao chegar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Tarso Genro também afirmou que a Força Nacional de Segurança continuará atuando em conjunto com a Polícia Militar do Rio de Janeiro para reforçar a segurança onde for necessário.

Tarso Genro acompanha a posse de três novos ministros do STJ: Geraldo Og Miceas, que presidia o Tribunal de Justiça de Pernambuco, o desembargador Luis Felipe Solomão, do Rio de Janeiro e o amazonense, Mauro Luiz Campbell.

sexta-feira, 20 de junho de 2008 18:41:00 BRT  
Anonymous joao edson disse...

De todas as opiniões lidas nos blogs, entendo esta ser a mais coerente em relação ao episódio. As instituições não são culpadas por desvios de condutas dos seus componentes. Necessitamos é exigir a aplicação das leis aos criminosos, especialmente naqueles que praticaram a chacina.

sexta-feira, 20 de junho de 2008 19:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado alon,
tres pontos:
1- comparar a situação do Rio ( ou qualquer outra cidade brasileira) com o que se passava no haiti, é, com sua permissão, um desproposito...
Não havia governo no haiti. Isto diz tudo, creio!
A despeito de muitos aqui imaginar que chegamos ao "caos" à "guerra civil", lhe asseguro que ainda falta um bocado de chão...

2- A "prisão" dos jovens por "desacato à autoridade" - flagrantemente arbitrária, despropositada - demonstra sim que o exercito está despreparado pra exercer a segurança publica ( talvez não muito diferentemente da Policia Militar que, coincidentemente, tem a mesma matriz organizacional).

3- Felizmente no mais grave de tudo aparentemente concordamos: O exercito foi usado por politicos profissionais em corrida eleitoral.
Superada essa fase de trauma devido à Tragica morte dos rapazes será necessário que nos debrucemos sobre esse episodio do uso das forças armadas como "cabo eleitoral". Eis aí uma tragédia coletiva...

emanuel cunha lima

sexta-feira, 20 de junho de 2008 19:50:00 BRT  
Anonymous Austragésilo disse...

Alon, parabéns pelo texto isento de qualquer ranço político-ideológico. Não se pode inferir, com base em atos pessoais de seus integrantes, que a instituição tem que assumir a responsabilidade pelas conseqüências. Por isso, esses militares que entregaram os 3 jovens ao tráfico têm que ser rigorosamente punidos, sem que se impute ao Exército Brasileiro o ônus exclusivo dessa barbárie.
Clausewitz já dizia que a guerra é a continuação da política por outros meios; é o que estamos vendo, especificamente, no Rio de Janeiro.
Um último comentário: "anônimo" disse que a diferença entre o Rio de Janeiro e o Haiti é que lá não há governo. Será?

sexta-feira, 20 de junho de 2008 23:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Exército,embora tenha muito que explicar do seu comportamento ,quando da ditadura,e teima em ocultar,nesta ,tudo indica que houve coincidência.Os militares,da unidade incumbidada de guarnecer o morro da Providência,saõ oriundos ,em sua maioria , de regiões dominadas por facções do tráfico.Contraditoriamente, são mais fiéis à facçaõ que os domina, do que a bandeira sob a qual,juraram defender.Foi uma ação mercantil.Os três jovens,considerados "alemães",na ótica do inimigos de facção,foram vendidos.Seus captores embolsaram e dividiram,o "butim",entre si.O que choca, é o elaborado plano diabólico,um requinte semelhante as tribos africanas que se digladiam,nas ex-colonias,imersas em barbárie.

segunda-feira, 23 de junho de 2008 11:58:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Alon, assino embaixo sobre a visão das FFAA e sua inserção na sociedade. Não se pode confundir ação paramilitar (o que aconteceu de fato) com ação militar.

Discordo de sua análise quanto ao presidente. Se a AGU recorreu para cancelar a liminar que retirava o exército da Providência (e cancelou), é porque o governo apóia a presença do exército lá. Independente do que tenha publicado a Agência Brasil ou dito Tarso Genro. Os fatos falam mais alto por si.

Desde 2003 que o presidente Lula quer mais inserção social das FFAA. Reequipou a Engenharia Militar para fazer obras em estradas, faz obras no São Francisco, Reativou o projeto Rondon. Na própria epidemia de dengue, as FFAA forneceram ambulatórios de campanha (tendas de hidratação). Tem por diretriz que o serviço militar obrigatório também dê formação profissionalizante. E aparentemente procura integração com a segurança pública.

Quanto à esperteza política, cada qual tem a sua, mas é bom não se esquecer que o exército recebeu R$ 16 milhões por essa missão em convênio com o Ministério das Cidades, então não se trata de mero favor político.

Quanto à participação das FFAA na segurança pública depende do que se entende por isso.

Sempre esteve claro que as FFAA participam da segurança pública como força de intervenção, tomando o comando, nunca como força auxiliar policial comandada pela polícia. No início do governo Rosinha Garotinho, houve ataques de facções de traficantes, e as Forças Armadas interviram na segurança (a pedido da governadora) durante o carnaval. Pois havia o receio da Polícia não dar conta de controlar. Se não me engano aconteceu o mesmo nas eleições de 2002 no Rio.

No caso do morro Providência as ações são subsidiárias e não de segurança (obras de engenharia) e as tropas tem a função apenas de dissuassão e vigilância, não é função policial. É claro que soldados podem e devem prender criminosos em caso de flagrante (desacato a autoridade é um deles), mas é só.
Caso tenham se excedido além destas funções, erraram.

Eu creio que a participação das FFAA na segurança pública deve ser em missões pontuais com início, meio e fim (é o caso da Providência agora e quando cercaram para reaver armas roubadas). Não deve fazer policiamento ostensivo permanente como muitos sugerem. Qual o sentido? Fazer o trabalho que é de policiais, e deixar os policiais ociosos? Faz sentido intervir se for sobre a própria polícia que fica sob seu comando.

Se há necessidade de policiamento ostensivo permanente, que a polícia aumente seu contingente. E seria interessante que órgãos públicos cancelassem contratros de terceirização de vigilância, e firmassem convênios com as polícias militares, repassando as verbas à corporação para fortalecê-la.

segunda-feira, 23 de junho de 2008 18:11:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Alon, lhe devo desculpas por isso:
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2008/06/24/lula_presenca_de_exercito_em_obra_e_injustificavel_1386279.html

O curioso é que a declaração do Lula vai na mao contrária da briga juridica para manter as FFAA no morro.

terça-feira, 24 de junho de 2008 11:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Quem é o responsável pelo Exército estar ILEGALMENTE em uma favela ?? Quem agiu FORA DA LEI ??

Vejamos, o senador PEDIU tropas na favela e foi atendido. Mas ele não decidiu nada... Fez uma solicitação e foi atendido.

O governador manda na polícia, não manda no exército.

O ministro Jobim assinou o convênio ilegal e tem responsabilidade. Onde está o Ministério Público da União ?? Calado como sempre...

O presidente da república nada diz, nada sabe... Ele sobrevive bem, enrola bem. Se fosse de fato (como é de direito) comandante das Forças Armadas teria demitido o ministro, a não ser que... tenha Sua Santidade dado a ORDEM, não é mesmo ??

quarta-feira, 25 de junho de 2008 07:58:00 BRT  

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