sexta-feira, 16 de maio de 2008

A utilidade de uma grife (16/05)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (16/05/2008) no Correio Braziliense.

O novo ministro do Meio Ambiente estreou sua metralhadora verbal com ataques à soja. Como é politicamente esperto, escolheu a soja em vez do etanol, menina dos olhos do presidente da República. Vai longe, esse ministro

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A chanceler Angela Merkel veio ao Brasil e, entre outros assuntos relevantes da relação bilateral, manifestou interesse e preocupação quanto ao meio ambiente brasileiro. Espero que alguém graduado, de preferência o presidente da República, tenha agradecido à líder alemã pela atenção. Espero também que alguma voz do governo brasileiro tenha dito a ela que nós gostaríamos de usar como referência, para o debate, os conhecidos cuidados que os alemães vêm dispensando, historicamente, aos ecossistemas teutônicos.

Se você enxergou ironia na minha afirmação, errou. Deveríamos copiar os alemães, por exemplo, no aproveitamento dos rios. Para produzir eletricidade e para navegação. Os habitantes do país de Merkel acharam uma solução única para ambos os desafios. Construíram barragens e canais de passagem em todos os pontos possíveis de seus grandes rios. Também por isso o Reno transformou-se no grande eixo de prosperidade do país mais rico e desenvolvido da Europa continental. Todo embarreirado, ele desce de escada dos Alpes rumo a Rotterdam, na Holanda, num paradigma de como a sujeição da natureza pode servir adequadamente à civilização.

Angela Merkel e seus colegas de governo em Berlim poderiam, portanto, ajudar-nos a enfrentar os lobbies que apresentam cada construção de barragem no Brasil como um prefácio do fim do mundo. Infelizmente, é também com dinheiro alemão, pintado de verde, que os pobres brasileiros são mobilizados contra o progresso. Merkel deveria fazer-nos o favor de reunir as organizações não governamentais e igrejas de influência alemã no Brasil para explicar-lhes que o que foi bom para a Alemanha chegar aonde chegou talvez seja também conveniente para que, algum dia, o Brasil possa oferecer aos brasileiros um padrão de vida parecido com o de que já desfrutam os alemães.

Com rios mais navegáveis, passaríamos a entregar ao mundo soja mais barata, já que ela não precisaria percorrer enormes distâncias sobre caminhões que trafegam em estradas precárias. Líderes em soja, poderíamos assim ajudar a pressionar para baixo os preços globais, dando uma contribuição decisiva na luta contra a inflação dos alimentos. Talvez os americanos não gostem dessa nossa iniciativa, pois a navegabilidade dos rios dos Estados Unidos entre os Grandes Lagos e o Atlântico é hoje uma vantagem competitiva e tanto. Daí que os Estados Unidos também manifestem a todo momento preocupações, digamos, ambientais com a possibilidade de exploração do potencial hídrico da Bacia Amazônica.

E daí? Os americanos torceram o nariz quando a Alemanha, ainda nos anos 70, ofereceu-se como parceira do Brasil no desenvolvimento de energia termelétrica de fonte nuclear. Um dia, os Estados Unidos haverão de compreender que nosso desejo mais profundo é copiá-los em tudo. Inclusive no patriotismo. O bom dos governos americanos é que eles pensam sempre em primeiro lugar nos interesses dos Estados Unidos. Lá atrás, Luiz Inácio Lula da Silva notou isso muito bem. Então sejamos patriotas. Transformemos nossos rios em rotas contínuas de navegação, desenvolvamos nossa infra-estrutura nuclear e, como alemães e americanos, aproveitemos cada pedaço de terra fértil para produzir.

O novo ministro do Meio Ambiente, o que quando achou que não seria mais convidado apressou-se em dizer que não aceitaria um convite, mas que acabou aceitando, estreou sua metralhadora verbal com ataques à soja. Sujeito politicamente esperto, escolheu a soja em vez do etanol, menina dos olhos do presidente da República. Vai longe, esse ministro. Desconfio que vamos sentir saudades de Marina Silva, mulher que sempre combate de frente e não faz concessões à demagogia, nem mesmo quando está errada.

Mas a vida segue. Caberá a Carlos Minc protagonizar doravante o lobby do etanol brasileiro junto aos mercados mais sensíveis, como a Alemanha de Angela Merkel. Aparentemente, Marina Silva resistia a engrossar o coro dos que juram que ocupar as melhores terras brasileiras com cana não trará quaisquer danos, sociais ou ambientais. Vamos ver como o novo ministro se sai na tarefa de emprestar sua grife ambientalista a Lula para essa operação propagandística.


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16 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Você também vai longe, Alon. Acabou de elogiar a Marina no post anterior, e agora mete o pau no reacionarismo dela.
Uma outra coisa que eu acho interessante é você ser contra os biocombustíveis e não ser contra o cartel do petróleo (do qual fazem parte Venezuela e Equador). Esse cartel quadruplicou o preço do petróleo em três anos. Isso está elevando o preço dos alimentos.
O pior de tudo é que o dinheiro obtido por Chavez e Correa sequer está melhorando a vida dos seus compatriotas. Em Caracas não se acha leite, pão e arroz para comprar.
Como você explica isso tudo?

sexta-feira, 16 de maio de 2008 11:40:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

"... a engrossar o coro dos que juram que ocupar as melhores terras brasileiras com cana não trará quaisquer danos, sociais ou ambientais... "

Praticamente qualquer atividade da civilização traz danos ambientais. A questão é que os biocombustíveis no contexto civilizatório atual funciona como redução de danos, porque recicla os gases poluentes da atmosfera (sequestro de carbono), ao contrário do petróleo, que retira carbono do subsolo e joga na atmosfera.

A rigor, cada bebê que nasce a mais do que um homem que morre, é nocivo à natureza. Ele irá consumir alimentos e bens que precisarão ser produzidos, transportados, e consumirão energia e recursos naturais.

Civilização é compreender que o ser humano é um eterno trapaceiro. Inteligência humana acaba sendo a capacidade de trapacear a natureza. Ele frauda o ecossistema em nasceu para sobreviver mais, expandir sua ocupação de cada espaço no planeta, expulsando a vida de outros seres de seus espaços vitais, e que represente ameaça à sua segurança. O homo-sapiens não vive e morre como outros seres vivos em uma disputa equilibrada. O homem não corre risco de vida mais para conseguir alimento (não caça e não se expõe a ambientes selvagens). Morre menos de doenças naturais porque desenvolve vacinas e remédios. Controla estoque de alimentos que permite não morrer de fome. Protege suas safras de predadores naturais com agrotóxicos e outras técnicas. Por isso a população humana não é controlada pelo ecosistema natural, cresce explosivamente e consome cada vez mais recursos naturais.

Ser ambientalmente correto é reduzir danos na vida civilizada, ou declinar desta vida e passar a viver como um primata selvagem.

sexta-feira, 16 de maio de 2008 13:40:00 BRT  
Blogger José Aurélio disse...

Análise percuciente em um tema que é difícil discutir sem as cores da paixão; aquilo que o Pe. Vieira chamava de "enganos corados e ilusão da vista"...

sexta-feira, 16 de maio de 2008 14:20:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Sobre a chanceler Alemã tenho ao dizer que vi e não gostei. visitar um país e sair criticando seu anfitrião, como foi sua declaração sobre o trabalho escravo nos canaviais, é no minímo grosseria. Talvez, Lula devesse comentar a respeito do crescente aumento de neo-nazistas nos territórios da antiga Alemanha Oriental, em uma futura visita ao pais da chanceler. Sem entrar no mérito se isso é verdadeiro ou não , como foi o tom da declaração da chanceler Alemã.
Agora tens toda a razão sobre o novo Ministro Minc.
Parece que o novo Ministro está embriagado da sandice de que é agora o novo Todo Poderoso.

sexta-feira, 16 de maio de 2008 15:38:00 BRT  
Blogger Ruy Acquaviva disse...

É preciso chamar a atenção para uma informação de enorme importância, o que se está proposndo para a cana é a utilização de parte dos 220 milões de hectares utilizados para pastagens em criações extensivas de gado. Pastagens de baixíssima produtividade, ocupadas com uma pecuária de baixíssima produtividade. Essa forma de utilização do campo degrada o solo e prejudica o meio-ambiente. Considerando que a cana no Brasil ocupa 6 milhões de hectares, se apenas dobrarmos a produtividade da pecuária extensiva (o que é perfeitamente possível com um mínimo de cuidado com a formação de pastagens, teríamos mais de DEZ VEZES área para plantação de cana. E olha que as projeções mais otimistas falam em se chegar a 30 milhões de hectares, menos de um terço dessa projeção.
Como se vê, espaço não falta e não são as "melhores terras brasileiras", mas terras subaproveitadas em processo de degradação devido ao tipo de pecuária nelas praticada. E essas terras se encontram em sua maioria no Cerrado e não na Amazônia.
Aliás a pecuária deve ser inviabilizada na Amazônia, por reprensentar o principal fator de desmatamento e por ter uma produtividade extremanete baixa, havendo muito espaço desenvolvimento da pecuária através da melhor utilização das terras já ocupadas em outras regiões do País.

sexta-feira, 16 de maio de 2008 16:31:00 BRT  
Blogger Ruy Acquaviva disse...

Apenas completando as informações, deve-se atentar para o enorme potencial da cultura consorciada entre soja e cana. A Cana é uma gramínea que absorve o nitrogênio do solo, enquanto que a soja é uma leguminosa, que fixa nitrogênio ao solo. É possível obter uma safra de soja (com menor produtividade devido à época do ano, daí o nome de "safrinha") entre as linhas de cana após a colheita da mesma, enquanto as plantas de cana estão recomeçando a crescer. Isso aduba o solo para a cana e pode representar uma grande produção de óleo vegetal para biodiesel.
O que eu quero dizer é que a discussão que se apresenta não é cana/não cana ou soja/não soja ou biocombustíveis sim ou não. A questão é COMO essas culturas serão implementadas, ONDE vão ser implantadas e QUEM vai se beneficiar dessa riqueza toda.
Acredito que temos uma enorme janela de oportunidades se abrindo à nossa frente. Não podemos ficar vacilando com medo de avançar. A questão é o modelo agrícola, fundiário, indistrial, ambiental e social que queremos implantar neste momento.

sexta-feira, 16 de maio de 2008 16:46:00 BRT  
Anonymous Alexandre Porto disse...

O ministro tem razão. Cana é muito melhor que Soja, ambiental e economicamente falando. A área plantada com soja é hoje 3 vezes maior que a de cana. Se equilibrar meio a meio já estaria ótimo e o Brasil estaria lucrando bem mais.

Cana preserva e até aumenta a qualidade do solo por ser rica produtora de matéria orgânica e ser uma cultura semi-perene, gera mais empregos e agrega muito mais valor por hectare.

Soja tem algumas boas vantagens, como aumentar o teor de nitrogênio no solo, mas como cultura anual e de verão aumenta muito a erosão do solo, gera poucos empregos.

O Brasil tem que parar de exportar soja em grão subsidiando a produção de carne no mundo.

sexta-feira, 16 de maio de 2008 18:01:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Ruy Aquaviva:

Você foi didático: a produtividade da pecuária extensiva é mínima. E esse aspecto é fundamental para demonstrar que a agricultura tem espaço para crescer no Brasil, inclusive com a cana. E dá para crescer muito.

Mas não perca seu tempo.

Não adianta demonstrar cabalmente para o Alon que o Brasil tem "capacidade ociosa", que temos muitas terras subaproveitadas.

Depois que ele abraça um ponto de vista - como o da inexistência de um grande estoque terras disponíveis para a agricultura - ele desconsidera olimpicamente os argumentos que demonstram o seu erro. Ele nem vai se dar ao trabalho de demonstrar o contrário.

É uma pena, os textos dele são excelentes mesmo, mas como ninguém é perfeito...

sexta-feira, 16 de maio de 2008 18:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Absurdo é fazer vistas-grossa para o trabalho escravo nos canaviais. E olha que sou a favor do etanol. O trabalho escravo é uma realidade.

sexta-feira, 16 de maio de 2008 18:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Desde os tempos de Höllderlin,os rios
germãnicos se prestavam à navegação.Aqui, o São Francisco,de Minas à Propiá-Colégio;Tietê,enfim, transportando alguma soja;eclusas,etc. O lobi das montadoras ainda é forte,e usa o sindicato dos caminhoneiros, como fachada.Os alemães,bem que tentaram, ao venderem uma primitiva turbina nuclear,no pós-guerra, ao governo brasileiro,mas o intento foi frustrado pelo governo americano,impedindo a saída do navio do porto alemão.Angra dos Reis,foi uma espécie de revanche.Minc, por sua vez,pode surpreender, afinal,seu temperamento,é o oposto do de Marina.

sexta-feira, 16 de maio de 2008 19:18:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Ao anônimo das Sexta-feira, 16 de Maio de 2008 18h15min00s BRT.
Ninguém defendeu vistas grossas para o trabalho escravo nos canaviais. O que critico é a grosseria da chanceler Alemã em tocar nesse assunto em uma entrevista a uma televisão brasileira em plena visita oficial ao Brasil.

sábado, 17 de maio de 2008 01:43:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Um dos vetores da política social do atual governo é justamente o combate ao trabalho escravo.
E tem sido eficiente a ponto de incomodar a bancada ruralista de Senadores do Congresso.
O caso emblemático foi a autuação da fazenda Pagrisa no Pará, por trabalho degradande de mais de mil trabalhadores. O fato provocou a insurreição dos Senadores Flexa Ribeiro (PSDB/PA), Katia Abreu (DEM/TO) e outros que formaram uma comissão para atender ao lobby dos donos da fazenda.
Ações como estas, além de estancar a exploração do trabalho, gera indenização aos trabalhadores pagas pelos donos. Para um trabalhador que não tem nada a ponto de aceitar trabalho naquelas condições, uma indenização de R$ 15 a R$ 50 mil ou mais faz uma enorme diferença em sua vida.

sábado, 17 de maio de 2008 13:39:00 BRT  
Blogger Eduardo disse...

Alon,

Parece meu avô falando! Progresso, progresso, concreto, concreto! És por demais urbano. Essa de entupir os rios de barragens foi de doer.

Pega mal pouca informação sobre qualidade ambiental. Já estamos no século XXI!

A verdade é que se todos seguirmos o modelo alemão vamos comprometer a natureza. Mesmo que a biodiversidade pouco te importe, vários serviços ambientais ficarão comprometidos com esse teu pensamento "germânico-soviético".

Seria bom te informares sobre quanto os alemães estão gastando para renaturalizar seus rios canalizados.

O fato é que nós brasileros temos a oportunidade nas mãos para o desenvolvimento e a conservação da natureza. Não precisamos ficar fazendo barragem em qualquer arroio e optando por formas tradicionais de produção de energia.

Sugiro que leias o livro Colapso de
Jared Diamond para ficares um pouco mais sensível para o tema ambiental.

sábado, 17 de maio de 2008 17:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Que beleza. Todo mundo falando mal da soja! Vocês queriam o quê? Que a humanidade comesse brioche?
Os ambientalistas são as novas maria antonietas.

sábado, 17 de maio de 2008 23:55:00 BRT  
Blogger Clever Mendes de Oliveira disse...

Ricardo Melo,
A contribuição do Ruy Aquaviva apontou para questão interessante que é a baixa produtividade da pecuária, mas a solução para esse problema não é tão simples. As regiões de pecuária mais produtiva são as localizadas próximo de áreas mais industrializadas que industrializaram por estarem próximas das terras mais férteis, mas de onde a pecuária está sendo expulsa para o cultivo de produtos mais nobres e indo explorar as regiões de fronteira com a selva amazônica. Ai então, como disse o J Augusto, o Alon tem razão, mas isso faz parte da condição humana. Fiz menção em comentário a artigo anterior do Alon ao artigo de José Eli da Veiga no Valor Econômico de 08/02/2008 intitulado Reabilitar Georgescu que que ele fala das teses do economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994). Até essa reabilitação haverá muito desmatamento na Amazônia.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 23/05/2008

sábado, 24 de maio de 2008 09:40:00 BRT  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

A demissão de Marina Silva

A prudência recomenda evitar a onda de beatificação da ex-ministra Marina Silva. A mesma imprensa que ignorou suas conquistas hoje as incensa para forrar de pregos o assento de Carlos Minc. Até semanas atrás, a gestão ambiental brasileira era tratada como motivo de vergonha perante a comunidade internacional. Agora vemos que não devíamos exigir a demissão da responsável pela área, mas mantê-la, trocando todo o restante do governo.
(continua no blog do Guilherme Scalzilli: http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com )

sábado, 31 de maio de 2008 13:29:00 BRT  

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