quarta-feira, 7 de maio de 2008

Um avanço em Roraima. E uma contradição solúvel - ATUALIZADO (07/05)

Deu-se hoje um avanço na crise de Roraima. Os índios que haviam invadido uma fazenda (e provocado a reação que terminou com uma dezena de índios feridos) desocuparam o local até a decisão do Supremo Tribunal Federal. É bom que todos ali aceitem a decisão que virá do Supremo. Se isso acontecer, estará demonstrado que o estado brasileiro ainda detém autoridade sobre aquele território. Tenho recebido algumas críticas pelo que venho escrevendo a respeito. Paciência. Tem-se notícia de que os índios separatistas de Roraima decidiram proibir a miscigenação com brancos, para impedir que a mestiçagem dilua sua pureza racial e reduza a legitimidade de suas reivindicações por um estado dentro do estado, uma nação dentro da nação. Li no Diário do Pará, mas infelizmente há um problema no link [atualizei a informação no fim do post]. Procurem vocês mesmos que está lá. É isso aí. Métodos de purificação racial usados para reforçar reivindicações de soberania territorial. E ainda querem fazer crer que há "progressismo" nisso tudo. Bem, que o Supremo decida o que entender correto. E que todos acatem. Ainda que discordem. Qualquer que seja a decisão, o debate certamente prosseguirá. Minha posição é clara. A atual política indigenista não serve ao Brasil nem aos índios. Ela se baseia em mistificações antropológicas que defendem o indefensável: que os índios sejam mantidos em "estado natural". Mas se estivéssemos apenas diante da aberração de criar "jardins zoológicos" de índios para deleite de antropólogos o problema não teria esta gravidade toda. O mais preocupante é que a teoria maluca de manter índios eternamente em "estado natural" em pleno século 21 serve a propósitos bem determinados. Ela visa a impedir que o Brasil ocupe efetivamente sua fronteira norte e exerça soberania sobre áreas riquíssimas em biodiversidade e em recursos naturais não renováveis. Cadê a regulamentação da mineração em terras indígenas? Qualquer um que se debruce sobre assuntos da Amazônia (o que tive que fazer recentemente por razões profissionais) percebe de imediato que há toda uma rede de instituições voltadas unicamente para impedir que o Brasil assuma na plenitude o controle de seu território. Escrevi aqui em O ambientalismo num só país que

Para um americano ou europeu, o certo é mantê-la [a Amazônia] intocada. E, de um ângulo supostamente "global", faz sentido preservar a Amazônia como uma reserva de valor para gerações futuras. É fácil identificar a ação do ambientalismo global entre nós. Ele é contra tudo. É contra usinas nucleares (por causa do lixo atômico), é contra usinas termoelétricas (por causa da poluição e da emissão de gases), é contra usinas hidroelétricas (por causa das inundações), é contra a construção de rodovias e ferrovias que possam potencializar a expansão da fronteira agrícola (porque é contra expandir a fronteira agrícola), é contra o uso de organismos geneticamente modificados (por causa da ameaça à biodiversidade), é contra o controle soberano do país sobre as reservas minerais localizadas em áreas indígenas (por causa dos direitos dos povos originais), é contra o reequipamento das Forças Armadas e sua capacitação efetiva para defender o território nacional (pois isso seria um desperdício), é contra a integração sul-americana (por quê, não se sabe bem).

Duvido que haja quem acredite ser possível em pleno século 21 manter índios em "estado natural" indefinidamente. Bem, você já sabe da minha oposição aos rumos da política indigenista no Brasil. Mas há a Constituição, que está acima da minha opinião e da sua. E ela determina que o governo estabeleça reservas indígenas. Mas também diz que ao governo cabe proteger as fronteiras do país. E defender a fronteira de um país como o nosso é, também e principalmente, povoá-la multietnicamente, estabelecer atividade econômica e instalar força militar expressiva. Estamos, portanto, diante de uma contradição. Cuja solução é simples. Basta o governo brasileiro não criar nem manter reservas indígenas em áreas de fronteira. Ao contrário, cabe ao governo lançar uma política de colonização acelerada dos limites da Amazônia, com base na distribuição de terra a agricultores que desejem produzir. Sejam eles brancos, negros, índios ou de outra etnia qualquer.

Atualização, 11:55 de 08/05 - A reportagem sobre a proibição de casamentos mistos entre índios é originalmente de O Globo e está referida no boletim de 05/05 do Instituto Sócio-Ambiental. Transcrevo o boletim do ISA (já que é impossível linkar qualquer coisa em O Globo):

Tuxauas vão controlar casamentos com brancos

Preocupados com a crescente presença de não-índios em suas comunidades - num processo de miscigenação que já dura décadas -, os tuxauas da etnia Makuxi, majoritária entre os indígenas de Roraima, decidiram controlar os casamentos entre brancos e índios. A união civil envolvendo índios passará pela análise de um comitê de tuxauas, que dará, ou não, o sinal verde. O tuxaua Jacir José de Souza Makuxi, um dos principais líderes do Conselho Indigenista de Roraima (CIR), afirma que a medida visa a evitar que "maus elementos" passem a integrar a comunidade indígena, sem se submeter às regras definidas para todos pelos tuxauas - O Globo, 4/5, O País, p.14.

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14 Comentários:

Anonymous J Augusto disse...

Alon,
Fica difícil levar adiante discussões com informações viciadas.
Ao contrário da Área Ianomani, vazia de infra-estrutura, a área da Raposa do Sol tem os Indígenas mais integrados à civilização, em território cortado por estradas, luz elétrica, cidades (que não serão esvaziadas), serviços públicos de saúde, escolas. O que parece existir é identidade indígenas em vez de existir identidade urbana, aproximadamente como existem cariocas, paulistanos, sorotelipanos, etc, guardadas as devidas proporções. E existe também a velha disputa pela terra invadida por grileiros (coisa comum na região norte e centro-oeste).

Sugiro ver os mapas do site do governo de Rondônia - por sinal tucano - na seção mapas:
http://www.rr.gov.br/
roraima.php?area=mapa

Batendo os olhos por 5 minutos no mapa do DNIT e da infra-estrutura elétrica, desfaz muitos mitos e idéias preconceituosas.

É interessante também entrar no site de 3 municípios dentro da reserva, para ver que índio apenas quer apito (ou seja, ser protagonista do desenvolvimento local):

http://www.pacaraima.rr.gov.br
(fronteira com Venezuela, o epicentro dos conflitos, foi governo por 1 ano até o mês passado pelo PT, e havia serviços públicos "civilizados" sendo levados para a região).

http://www.uiramuta.rr.gov.br
(fronteira com a Guiana, prefeita do PT, onde tem um quartel do exército, cuja construção foi conflituosa segundo notícias, mas foi feita conforme quis o exército)

http://pt.wikipedia.org/
wiki/Normandia_(Roraima)

Por fim no site da Agencia Brasil á uma boa reportagem especial:

http://www.agenciabrasil.gov.br/
grandes-reportagens/2008/04/28/
grande_reportagem.2008-04-28.3160375054/view

Para mim que vivo muito longe de lá conferir estas inormações foram bastante elucidativas.

quarta-feira, 7 de maio de 2008 21:58:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro José Augusto, seu comentário é extremamente pertinente esclarecedor. Como você mesmo comprovou, no caso da Raposa/Serra do Sol não se trata de preservar uma área natural, mas de reservar aos índios uma área já tomada pela civilização. Qual é o sentido de reservar para uma atnia qualquer cidades, estradas, empreendimentos? Nenhum. Diz você:

O que parece existir é identidade indígena em vez de existir identidade urbana, aproximadamente como existem cariocas, paulistanos, sorotelipanos, etc, guardadas as devidas proporções.

Aí eu pergunto. Você seria favorável a expulsar de São Paulo todos os nascidos em outro lugar? Ou do Rio quem não fosse carioca? E obrigado pelos links.

quarta-feira, 7 de maio de 2008 22:47:00 BRT  
Anonymous Moses disse...

Que grande post! Parabéns, Alon!

quarta-feira, 7 de maio de 2008 23:01:00 BRT  
Anonymous Alexandre Porto disse...

>Ela visa impedir que o Brasil
>ocupe efetivamente sua fronteira
>norte.
........................

O tão querido por vcs gen Heleno no Canal Livre (no youtube tem) desmente essa afirmação. "Enquanto eu for general eu entro lá a hora que eu quiser".

E isso lhe garante a Constituição que é clara como 2+2 = 4.

quarta-feira, 7 de maio de 2008 23:16:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Alon, cometi um erro. As áreas urbanas das 3 cidades que citei estão fora da demarcação, mas cercadas por ela. O que não faz grande diferença, a não ser jurídica, provavelmente.

Então, isso referenda meu ponto de vista. Qualquer brasileiro pode morar nas áreas urbanas de lá também.

As áreas de reserva indígina é o equivalente as fazendas na área rural. Só que em vez das terras serem propriedade privada individuais como dos fazendeiros "civilizados", são da União, com usufruto coletivo das comunidades indígenas.

Eu defendo a preservação justamente dessa cultura coletiva. O mesmo caso acontece com comunidades quilombolas (só que os terrenos são muito menores).

Existem no Brasil, fazendas coletivas de Igrejas no Sudeste, como comunidades Canção Nova, etc.

Nos EUA esse tipo desse tipo de comunidade religiosa já surgiu grupos com armados com desobediências inconstitucionais como o caso de Waco no Texas.

Nem por isso vamos acusar os religiosos daqui de terem pretensões semelhantes.

Da mesma forma não faz sentido acusar os índios de não serem brasileiros e terem pretensões como no Kosovo, etc (qual o fundamento para afirmar isso, além de mera supossição?). Cabe integrá-los ao convívio com os demais brasileiros, levando serviços públicos brasileiros, respeitando sua cultura e sua integridade física e econômica, sem tranformá-los em colonos de latifundiários grileiros.

quinta-feira, 8 de maio de 2008 00:41:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Tarso Genro, anunciou nesta quarta-feira que o governo vai instalar novos pelotões do Exército na região da fronteira oeste do país, onde está localizada a reserva indígena Raposa Serra do Sol.

Outra coisa interessante também é este mapa:
http://bp3.blogger.com/
_QLpEuns8fn4/SCGG7V3_DaI/AAAAAAAACI0/
PyTZjIYHfe0/s1600-h/mapa1.jpg

No extremo norte de Roraima, há o Parque Nacional do Monte Roraima, uma área de Conservação Nacional. Portanto desabitada e não pode ser colonizada. Pode ser explorada economicamente para turismo.

Parques Nacionais não tem a ver com índios. O que fazer? Destruí-los com colonização? Não me parece razoável. Porém o mesmo argumento que você usa se aplicaria.

quinta-feira, 8 de maio de 2008 00:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Os índios que restaram no Brasil devem ter direito de escolher se querem ou não participar das "maravilhas da sociedade". Isso não pode ser mais imposto a eles.

quinta-feira, 8 de maio de 2008 01:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, considero-lhe um dos melhores analistas políticos brasileiros, mesmo discordando de você em vários temas. Em outros, você formou minha opinião.
Mas nesse caso da Reserva de Roraima ainda não entendi o que para mim é uma teoria conspiratória. Mesmo com reserva, a área é da União, é do Brasil. Que papo é esse de achar que os índios vão pedir separação? Isso não tem cabimento.
Acho que se mistura as coisas. O temor da influência estrangeira pelas ONG´s tem fundamento? Tem, mas isso, primeiro, independe da reserva ser contínua ou não e, segundo, depende fundamentalmente da vontade desse e de qualquer outro futuro Governo em ter soberania sobre nosso território. Penso, ainda, que com a reserva contínua se evita a exploração privada da área, facilita-se o controle do exército.
Que se exija o controle das ONG´s ou mesmo que se proiba a presença de qualquer uma, mas não demarcar por medo delas é demais.
Além disso, e por último, a demarcação contínua permite que os índios vivam como quiserem, com sua cultura. O que não podemos é ajudar a promover a extinção de um povo, que é, sim, culturalmente distinto. Essa tese de defesa da área desontínua sem se preocupar com os efeitos disso sobre as populações indígenas não é um pouco fascista? Ainda mais com justificativas que são absolutamente controláveis por qualquer Governo soberano? Por outro lado, sem governo soberano, não adianta nem extinguir todas as reservas e matar logo todos os índios.

quinta-feira, 8 de maio de 2008 01:08:00 BRT  
Anonymous athalyba disse...

Alon,

Procurei incansavelmente a matéria do Diário do Pará e não a encontrei.

Afins de clareza, vc podia dar uma forçadinha e postar o link que diz ue os índios estão de facismo eugênico por lá.

E acho que vc está meio paranóico com esse papo de separatismo, pesar de estar certíssimo sobre os interesses brazucas e de alheres naquelas bandas.

Forte abc

quinta-feira, 8 de maio de 2008 11:27:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Athalyba, se eu estou ou não paranóico é a realidade quem vai dizer. Lembre-se da máxima de Andy Grove, de que só os paranóicos sobreviverão. Se os iugoslavos fossem mais paranóicos, talvez hoje tivessem um país. A informação sobre o controle dos tuxauas sobre os casamentos é originalmente de reportagem de O Globo. Já atualizei o post, como você deve ter visto.

quinta-feira, 8 de maio de 2008 12:03:00 BRT  
Anonymous josinaldo aleixo disse...

Alon,
respeito você pela sua transparencia num país onde ser de esquerda é um pecado mortal. Mas mais uma vez chamo a atenção para os quilos de equívicos que vc posta. Sabe porque os indigenas querem contorlar a miscogenação? Não são prque eles são separaristas não - alis não sei de onde cargas d´água vc tirou essa idéia. Mas é uma tentativa de se blindar contra a entrada de elementos não-indígenas que terminam por exercer - em grande parte uma influencia deletéria. Deixa te contar uma história. O índio é muito diferente de nós até quando está aculturado. Esperto em algumas coisas, completamente pato em outras. Conheço uma comunidade indigena no sul do Amazonas onde casamentos inter-étnicos terminaram que um "branco" se tornasse tuxaua e, exercenbd um poder grande na comunidade, introduziu ali mazelas tais como bebida, prostituição e outras coisinhas mais. A maioria dos grupos indigenas controlam a entrada de não-indigenas, mas isso não significa racismo, exclusivismo nem nada disso. Em muitos casos, esse é um deles, é uma questão de sobrevivencia. Gostei do J. Augusto no post dele, é muito interessante. Existem cidades na Amazonia que, para se chegar lá se atravessa, áreas indigenas - Humaitá por exemplo. Há cidades que ficam dentro de Unidades de conservação - Aveiro no Pará, por exemplo.
Oxi Alon aí em Brasilia vc tem perto de você prof. Enyo Barreto que conhece os indigenas como ninguém, que pode ter esclacrecer muitas coisas. por exemplo, sobre tratados assinados pelas organzações indigenas que excluem essa patuscada de separatismo. Recomendo que vc o procure, troque uma ideia. Não precisa renunciar às suas, mas vc vai complexifica-las bastante.

quinta-feira, 8 de maio de 2008 13:40:00 BRT  
Anonymous athalyba disse...

Alon,

Paranóia até o capítulo 2, né (rs) A questão é que a Iuguslávia era uma amálgama de eslavos que, apesar da mesmo língua (afinal, Iugoslávia significa Terra dos eslavos do Sul) era fundamentalmente diferentes. Tanto que na época deo comunista não-alinhado Tito, tinha até uma piadinha pra descrever a situação: "Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um Partido".

Vamos e convenhamos: não tinha mesmo como durar muito tempo. E pra piorar, teve um paranóico como "Slobo" Milosevic pra colocar a cereja no bolo da discórdia final ...

Eu até concordaria que, dado os interesses internacionais, uma "balcanização" à la Kosovo poderia ser uma hipótese, mas temos duas variáveis importantes aqui:

1) os antepassados dos atuais iíndios da região foram os responsáveis no convecimento dos mediadores italianos que alí era terra brasileira, quando a Inglaterra (sempre ela fazendo c*gada) queria anexar aquela região à Guiana

2) os Ministros Jobim e Genro juram que vão intensificar a presença do Exército naquela região, assim como fez em outras áreas de fronteira.

Não quero eu te pautar, mas será que você conduzir aí no CB uma matéria de como são (e serão daqui pra diante) as guarnições de fronteira, em Roraima em particular e na "Calha Norte" em geral ???

Forte abc

ps: não encane com meu erros de digitação ... prometo contratar um "personal revisor" *rs

quinta-feira, 8 de maio de 2008 19:17:00 BRT  
Anonymous Cfe disse...

Já vi muito argumento a favor e contra a questão da demarcação dos indíos sendo a maioria digna de respeito. Mas comparar a "Canção Nova" a um grupelho armado nos EUA ou aos indíos brasileiros: francamente!

sexta-feira, 9 de maio de 2008 03:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

MAS É IMPORTANTE CONSERVA-LOS PUROS ETNICAMENTE , POR SE TRATAR TAMBÉM DE UM PATRIMÕNIO ORIGINAL DO VERDADEIRO HABITANTE DO BRASIL...

quinta-feira, 27 de março de 2014 20:51:00 BRT  

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