sexta-feira, 2 de maio de 2008

O mérito é de Lula. O risco, também (02/05)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (02/05/2008) no Correio Braziliense.

Talvez a coragem que Lula demonstrou em 2003 ao abraçar a austeridade fiscal precise ser mobilizada agora para, em algum grau, conter os excessos do consumo

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O país festeja a elevação do seu conceito pelas agências de risco. O governo comemora mais ainda, e justificadamente. Afinal, parece não ter fim a safra de boas notícias econômicas na administração Luiz Inácio Lula da Silva. E o presidente tem todo o direito de saborear: a promoção do país ao investment grade tem origem principalmente na decisão de Lula de apoiar desde a posse, em 2003, o primeiro ajuste fiscal digno do nome na história recente do país. Lula deve essa a Antônio Palocci. E ambos estão em dívida com Marcos Lisboa. Tão criticado na época pelo PT.

O PSDB, depois de apostar no fracasso econômico do PT e dar com os burros n’água, agarra-se agora à constatação de que o equilíbrio fiscal brasileiro começou no segundo quadriênio de Fernando Henrique Cardoso. De um ângulo histórico, é verdade. Visto pelas lentes da política, porém, é irrelevante. FHC é tão sócio do sucesso atual de Lula quanto o são José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco. Cada um deles tem o seu mérito em o país ter chegado à normalidade econômica. O primeiro retirou do Banco do Brasil o poder de emitir moeda, acabando com a conta-movimento. O segundo abriu a economia. E o terceiro bancou politicamente o Plano Real.

É verdade que FHC, depois de ver o naufrágio do Real em 1999, implementou a política de metas de inflação, câmbio flutuante e superávits primários. Que está em vigor até hoje. Mas o sucesso atual da economia brasileira não se deve à descoberta de uma fórmula acadêmica genial, nascida de algum cérebro privilegiado. O PSDB e o país só se dobraram à inevitabilidade da disciplina fiscal depois que já se havia tentado de tudo nos laboratórios da heterodoxia.

O PSDB apresentar-se como o campeão da austeridade contra a gastança não resiste a uma pesquisa nos arquivos dos jornais dos anos 80 e 90 do século passado. Registre-se, em especial, que o primeiro mandato de FHC foi uma verdadeira farra fiscal, ancorada na convicção de que jamais faltariam dólares para sustentar o real sobrevalorizado. Quando, enfim, os dólares sumiram, a saída que restou foi apertar os cintos. Um mérito de FHC foi tê-los apertado (ainda que em grau insuficiente) e mesmo assim ter sobrevivido politicamente até a data em que passou a faixa ao sucessor.

Mas o fato é que o país vive uma nova etapa. Que embute novos riscos. Que, assim como os louros, recaem completamente sobre o presidente da República. O fluxo reforçado de moeda americana ameaça valorizar ainda mais o real e causar dano permanente às exportações. Numa ironia da História, a radicalização do remédio ministrado no segundo mandato de FHC ameaça empurrar-nos aos impasses do primeiro.

Talvez a coragem que Lula demonstrou em 2003 ao abraçar a austeridade fiscal precise ser mobilizada agora para, em algum grau, conter os excessos do consumo, o que evitaria que o Banco Central mantivesse a escalada dos juros e abriria espaço para aumentar as exportações. O certo é que alguma coisa precisa ser feita para evitar que o Brasil perca mercado, especialmente em produtos de maior valor agregado.

Há naturalmente quem dê de ombros para esse risco, afirmando inclusive que ele não existe. Argumenta-se que a maturação dos atuais investimentos alavancará novamente as exportações. E que o dólar barato, ao reduzir o custo da importação de bens de capital, prepara um novo salto no comércio exterior. Cada um que fique com a versão que mais bem lhe aprouver.

Do mesmo modo que a prudência levou Lula a concluir, seis anos atrás, que superávits primários consistentes seriam essenciais para convencer os credores de que o Brasil caminhava para a solvência estrutural, será prudente alguém avisar o presidente de que o Brasil não é os Estados Unidos, de que não dá para conviver em médio e em longo prazos com uma balança comercial deteriorada. FHC não deu ouvidos a esse conselho e teve motivos para se arrepender.

Está certo que Lula é mesmo um sujeito de sorte, e isso tem sido bom para o Brasil. Mas convém não abusar.


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13 Comentários:

Blogger Douglas disse...

Alon,
Somente um reparo. No parágrafo quinto, onde se lê "ameaça desvalorizar ainda mais o real", o correto seria valorizar, certo?

À parte isso, um texto excelente, uma visão coerente do dilema enfrentado pelo presidente.

Pergunta: com "conter os excessos do consumo" você quer dizer "cortar gastos correntes do governo"? Se sim, e me parece que sim, onde seria? Porque sempre que leio defensores de cortes em gastos públicos, imagino que se refiram a cortes em saúde, educação, programas sociais - talvez porque isso tenha acontecido antes -, embora saiba que nem todos concordem com isso e que certamente há espaço para outros cortes que sejam mais, digamos, "justos". Agora, não sei dizer se esses cortes ditos justos seriam suficientes.

Abraço do leitor!

sexta-feira, 2 de maio de 2008 11:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon. Tem que ser salientado sempre. A diferença entre os de antes e o governo Lula, é que esse governo é nacinalista e torce pelo Brasil, sempre. Não se soube de alguém desse governo que tenha se locupletado com dinheiro público. Se existiu mensalão, foi dos males o menor: ou se governa ou se fica a mercê das chantagens oposicionista.
Abraços.

sexta-feira, 2 de maio de 2008 11:39:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Alon, de acordo: o governo está certíssimo em capturar os louros políticos. Governar é, acima de tudo, buscar projetar uma imagem positiva de realizações, junto aos eleitores. É claro que a imagem deve ser, em alguma medida, lastreada na realidade, mas não é necessária – pelo contrário – uma correspondência absoluta. Vai da habilidade política de cada líder (Lula é habilíssimo) e da conjuntura.

A construção da estabilidade econômica, como o nome diz, foi uma construção: soma paulatina de ações, medidas e decisões que concorreram, ao longo do tempo, para que se chegasse até aqui. Mas, em perspectiva histórica, não se pode negar a fatia do bolo que cabe a FHC e sua equipe econômica. Nenhum dos governos que vc citou arcou tanto com o ônus de se adotar um discurso econômico relativamente maduro, como o adotado durante o período FHC. Pelo conjunto da obra – importância das medidas e custo político de se adotá-las -, eu acho justo o pleito de “paternidade preponderante” da estabilidade econômica, por parte dos tucanos. Não se pode imaginar, por exemplo, o PT com maturidade suficiente para ter implementado, à época, aquelas medidas – pelo contrário, Lula/PT as combatia duramente. Nesse sentido, paradoxalmente, Lula só está sendo esse sucesso econômico todo, em larga medida, por conta da tal da “herança maldita”. Mas jamais o admitiria, e, convenhamos, seria uma tolice política sem tamanho.

sexta-feira, 2 de maio de 2008 14:59:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Douglas, obrigado. Já corrigi.

sexta-feira, 2 de maio de 2008 15:22:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

O Alon foi preciso. Os números são bem claros. FHC estava no fim de um ciclo decadente. Lula encerrou o ciclo FHC e iniciou novo ciclo virtuoso.
FHC se gabou de estar encerrando a era Vargas. Lula retomou a era Vargas com Petrobrás investindo no Brasil, encomendando plataformas. Furnas e Eletrobrás investindo. Privilegiando empregos formais. Voltando a contratar funcionários em vez de terceirizados. Políticas distributivas de renda ajudaram no crescimento interno, além da promoção social.
Não vejo continuidade nenhuma. Vejo inflexão sem rupturas bruscas.
O que se chama de política econômica, para mim não passa de contabilidade e matemática financeira. Lula fechou as contas no azul (a cor dos tucanos). FHC fechou no vermelho (a cor do PT). Por isso o Ivestment Grade veio agora.
O Real começou com Marcílio Marques Moreira no Min. da Fazenda de Collor, que recompôs reservas em dólar para lastrear uma moeda forte. Se Collor não tivesse caído, ele teria lançado o plano Real do mesmo jeito. Não havia nada de novo. Era cópia do que a Argentina já tinha feito, flexibilizando a paridade do dólar lá por bandas cambiais aqui. Tivesse FHC aproveitado o bom momento deixado por Itamar (que fez um ajuste fiscal rigoroso) e mantido as contas no azul, o investiment grade teria vindo com FHC. Sofremos à toa durante os últimos 5 anos de FHC e o investment grade chegou tarde por causa de FHC e não graças a ele.
Dizer o que o PT teria feito se chegasse ao poder antes é especulação, e mesmo quem queira acreditar no que quiser, isso não isenta FHC de ter governado mal quando tinha a caneta na mão. O PT não participou do governo de FHC. Para o governo Lula também vale as decisões e escolhas que escolheu tomar depois que estava no poder (inclusive recusar rupturas bruscas).
Perante a história FHC fez o governo catastrófico que diziam que Lula teria feito. E Lula fez o verdadeiro governo estável, que FHC propagandeou ter feito, quanto na verdade, se endividava para cobrir rombos.

sexta-feira, 2 de maio de 2008 18:06:00 BRT  
Anonymous Serginho/Sampa disse...

Sr. Feuerwerker, interessante seu texto. Entretanto sinto falta de alguma menção ao economista Henrique Meirelles, grande responsável pelo sucesso econômico do governo Lula. Se o presidente da república possui de fato algum mérito foi o de nomear o tucano para a presidência do Banco Central.
Porque abraçar um princípio básico como a austeridade fiscal ao meu ver não é coragem. É aceitar o inevitável. Talvez a coragem resida no ato da transformação. No abandono das velhas bandeiras de esquerda. Mas isso é a história quem dirá.
Caberá à história também julgar essa esquerda, que agora está morta, que tanto lutou contra as bandeiras ditas de direita como essa mesma austeridade fiscal, câmbio flutuante, metas de inflação, plano real, etc. O mercado, a globalização e o capitalismo em geral.
De resto seu texto aponta ao meu ver (tirando a retórica esquerdista) razoavelmente bem os erros e acertos, sucessos e fracassos do governo tucano de FHC.

sexta-feira, 2 de maio de 2008 19:21:00 BRT  
Anonymous Sueli-Porto Alegre disse...

nuncantezneztepaízzz....... nos deram
nada,só tiraram! bem capaz que vamoz ficar enbevesidos com notaz escolares
de escolaz extrangeiras!

Nosso cunpamherõ ten que se cuida maiz,pois a sorte poderá acabarrrr, principalmente se ele se afogar em tantos campos de OURO NEGRO.

XÔ Urubuada

sexta-feira, 2 de maio de 2008 19:40:00 BRT  
Anonymous Hugo Albuquerque disse...

Lula pegou o Brasil em um momento que as cotações do Real se normalizavam depois de anos de desvalorização causada pela supervalorização dos anos 90 e pelo terrorismo tucano na eleição de 2002.
Pegou o país exportando muito por conta do câmbio e fez um ajuste fiscal que botou as contas públicas em dia como nunca antes foi feito.
Errou na calibragem dos juros, sempre muito altos e pressionando as contas públicas e errou também em não ter traçado uma política estratégica para o câmbio.
Não era o caso de fixar o câmbio num determinado patamar, mas sim de estabelcer bandas de flutuação cambial e ter a sensibilidade de regular as taxas de juros mediante a conjuntura mundial e a situação do próprio câmbio.
Obviamente, a situação da economia americana levaria a uma desvalorização da moeda daquele país, o que aliviria a inflação por aqui naturalmente, portanto, na medida que isso aconteceu, o Brasil deveria reduzir as taxas de juros para reduzir o impacto de valorização da moeda.
Um Dolár valendo 2,50 teria um peso inflacionário semelhante aos patamares atuais, haja visto que as importadoras não repassam o barateamento integralmente para o mercado interno.
Aí se constata um momento de achatamento dos superávits comerciais até que isso abala as contas externas e consequentemente leva o Real a sofrer uma brusca desvalorização que resulta aí sim no aumento de preços (porque as importadoras procuram manter as margens largas com as quais vinham operando num cenário anterior).
O governo vai e aumenta os juros, a economia pára, o câmbio passa mais uns anos tendo achar seu equilíbrio natural e enquanto isso a economia real sofre com gente de verdade perdendo o emprego ou vendo o salário achatar.
Isso dura até o câmbio achar um ponto de equilíbrio e os superávits comerciais reaparecerem. Note-se, da última vez que isso aconteceu, as coisas demoraram sete longos anos para voltarem ao lugar (1998-2004).
Achar que dessa vez as coisas serão diferentes é insano. É a economia real que define as coisas sempre, investment grade e afins não vão nos salvar quando a crise vier.

sexta-feira, 2 de maio de 2008 20:14:00 BRT  
Anonymous Edivaldo Tavares disse...

É injusto quando dizem que o governo Lula é igual ao governo FHC.O governo Lula não é apenas macroeconomia,e isso é o grande diferencial.

sábado, 3 de maio de 2008 11:32:00 BRT  
Anonymous Hugo Albuquerque disse...

Edivaldo Tavares,
De fato, não são iguais totalmente, nem podiam, tampouco deveriam.
O fato é que, lamentavelmente, Lula está caindo na mesma armadilha que FHC caiu, não obstante a maior efetividade de suas políticas sociais e o maior êxito de sua política fiscal.
No fim das contas, tudo pode ser jogado no lixo por conta da reedição dos erros do governo anterior.
A polítca macroeconomica não é tudo, mas é muito, muito importante, principalmente quando ela passa a ser definida equivocadamente.

sábado, 3 de maio de 2008 14:00:00 BRT  
Anonymous Manoel Teixeira disse...

Para pertencer à zona do euro, um país precisa ter dívida pública abaixo de 70% do PIB, e déficit abaixo de 3%. Nenhum país da europa, que pertence à zona do euro, cumpre estes requisistos.
O Brasil, por sua vêz, tem dívida pública abaixo de 45% e déficit abaixo de 2%. Ora, a única coisa que pode ser cortada para melhorar mais ainda a situação, é a redução dos juros, dignos da máfia.
Se os juros fossem cortados em 50%, ainda estaríamos acima da média, mas geraríamos dinheiro para uns 10 bolsa-família.

sábado, 3 de maio de 2008 15:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, gostei de seu artigo. Mas tem muita gente por aí ainda repetindo aquela asneira de o governo Lula só fez uma "continuidade" das políticas do FHC e que está trabalhando apenas em "piloto automático". O fato é que FHC deixou um pais em ruinas, do ponto de vista econômica, a ponto de ninguem no estrangeiro querer emprestar um tostão sequer ao Brasil naquela época. Continuidade de que? Dos destroços que o antigo governo deixou? Este argumento não faz sentido.

sábado, 3 de maio de 2008 22:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

belo blog chapa branca

terça-feira, 6 de maio de 2008 17:03:00 BRT  

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