sexta-feira, 9 de maio de 2008

O micróbio da soberba (09/05)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (09/05/2008) no Correio Braziliense.

Pouco a pouco, um Lula vitaminado pela sua própria força vai escorregando para aquela situação em que o governante se apaixona pela própria voz, pelas próprias idéias. Costuma acontecer com quem está no poder. É um perigo

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A soberba é um pecado cujo castigo pode até tardar, mas não costuma falhar. Constatou-o novamente na última quarta-feira o Flamengo, comprovando pela enésima vez que jogo não se ganha de véspera. O futebol não é um esporte estatístico, em que o melhor sempre vence. O futebol é o esporte do equilíbrio delicado e instável, no qual um acontecimento inesperado ou uma situação não prevista têm o poder de virar de cabeça para baixo os favoritismos. Como aconteceu ao Flamengo contra o América do México no Maracanã.

Nesse aspecto, a política é um pouco como o futebol. Não existe eleição vencida com grande antecedência, nem liderança que não possa ser desafiada. As eleições não se definem pela média estatística das pesquisas de intenção de voto, nem pelo julgamento de um conselho de sábios colocados a analisar propostas dos diversos candidatos. Eleição, como o próprio nome diz, é uma escolha. Movida essencialmente a partir de percepções sobre o futuro. E que se pode decidir num relance, pode virar do avesso desde que haja suporte político e comunicacional dando substância ao fato novo.

Claro que na política há favoritismos, assim como no futebol. Neste, tem quem ache 2 a 0 um placar perigoso. O time relaxa e acaba exposto a tomar uma virada. A tese acabou em piada, segundo a qual 2 a 0 é mesmo uma situação muito perigosa, principalmente para quem está perdendo. Você prefere que a partida esteja 2 a 0 para o seu time ou para o adversário? É claro que você, se tiver algum bom senso, vai preferir estar em vantagem.

Luiz Inácio Lula da Silva tem todos os motivos para comemorar os bons números do governo nas pesquisas de opinião. Mais ainda: o presidente não estaria em seu juízo perfeito se não saboreasse a fragilidade da oposição, demonstrada com todas as tintas no depoimento da ministra Dilma Rousseff no Senado, horas antes da catástrofe flamenguista.

Aqui, uma observação: quem assistiu à sabatina da ministra da Casa Civil na Comissão de Infra-Estrutura notou o absoluto despreparo dos inquisidores. Pareciam não ter lido sequer as reportagens sobre o dossiê FHC. O cidadão comum que se dignou a observar o espetáculo deve ter se perguntado: afinal, o que fazem os senadores no seu tempo livre? E o que fazem os seus muitos assessores? Claro que, de novo, pode ter sido só soberba. Acharam que, de tão superiores, tosquiariam Dilma Rousseff sem muito esforço. Acabaram tosquiados.

Mas voltemos a Lula, o que importa. Quem não gostaria de governar com apoio de dois terços do eleitorado e sem oposição? Só mesmo alguém com as idéias fora do lugar. O que não é o caso do presidente. O problema é outro. É que o ambiente de festa em torno do sucesso político presidencial começa a contaminar-se com o micróbio da soberba.

Nem falo mais do entorno de Lula. Palácios são lugares em que o instinto de sobrevivência recomenda à independência intelectual e ao tirocínio que se subordinem à política e à hierarquia. Refiro-me à soberba do próprio presidente. Pouco a pouco, um Lula vitaminado pela sua própria força vai escorregando para aquela situação em que o governante se apaixona pela própria voz e pelas próprias idéias. Costuma acontecer com quem está no poder. É um perigo.

Lula já decretou que não há nenhum problema no colapso da balança comercial brasileira. Decidiu também que o etanol brasileiro nada tem a ver com a inflação mundial no preço da comida. Já mandou avisar que bom mesmo é deixar por conta das nações indígenas as fronteiras da Amazônia com os vizinhos. É como se os problemas se resolvessem mágica e instantaneamente pela ação dos discursos presidenciais e pelas apresentações “power point” da ministra Dilma.

Não é tudo. Lula contestou a decisão judicial que absolveu um acusado de mandar matar Dorothy Stang. Mas achou razoável dar uma palavra de preocupação contra o “prejulgamento” do pai e da madrasta de Isabella Nardoni. Enquanto isso, a torcida canta nas arquibancadas, enlouquecida. Os argumentos contrários? São apenas chororô de perdedores que merecem virar objeto de escárnio. Nada que não possa ser neutralizado com raça, amor e paixão.

Até que um dia aparece um América, com um centroavante gordinho, e a casa cai.


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9 Comentários:

Anonymous Frank disse...

Alon, o que é isso, meu caro?

A soberba se Lula já vem de muito antes.

Só agora vc percebeu?

Não sei se isso é motivo para preocupações nas hostes lulistas, pois não é de agora que Lula se comporta assim, e, a despeito disso, tudo vem correndo maravilhosamente bem.

sexta-feira, 9 de maio de 2008 10:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A situação política pode mudar muito rapidamente. Lembro-me da popularidade do Sarney na época do Plano Cruzado e do congelamento dos preços. De ídolo, em pouco mais de cinco meses virou "judas", malhado por todos os lados, logo após os reajustes nos preços. Por isso é bom ter em mente o ditado: "Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe". Cuidado com o andor que o santo é de barro. No meio do caminho pode haver uma pedra e o santo se espatifar. Muito boa a sua avaliação Alon.

sexta-feira, 9 de maio de 2008 11:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

No Brasil isto é comum. Há colunistas que se acham juizes, jornalistas que se acham congressistas, juízes que se acham presidentes, emissoras que acham que opinião pública é a opinião que eles disseminam, jornais que acham que seu editorial é a verdade absoluta e revistas que acham que estão acima do bem e do mal. O pior de tudo, e o que os deixa em desvantagem em relação ao nosso presidente, é que quase nunca possuem respaldo para tamanha soberba.

sexta-feira, 9 de maio de 2008 12:28:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Alon,
O que você gostaria que um presidente da República dissesse sobre a economia? Que decretasse o "colapso" da balança comercial brasileira (que ainda é bastante superavitária - a c/c é que foi deficitária) provocando alarmismo e o caos nas bolsas e mercados especulativos? Que disseminasse medo de pacotes heterodoxos? Que induzisse os supermercados a remarcaram preventivamente os preços?
Há uma política industrial a ser anunciada na segunda feira para incrementar as exportações. O próprio déficit em c/c faz o dólar subir (ontem tanto as bolsas como o dólar subiram, mostrando que o mercado sempre converge para o ponto da maturidade, após a espuma do Grau de investimento).
É claro que qualquer presidente precisa minimizar os fatos especulativos, tratar com tranquilidade a situação econômica, até porque parece ser sazonal (remessas de lucro de multis se dão no fim do exercício, não são todo mês, greve da Receita Federal também prejudicou exportações). Não há qualquer soberba nisso.
Quanto às políticas de biocombustíveis, reservas indígenas, você pode ser contra, mas ele está apenas cumprindo promessas de campanha, e foi eleito pela maioria. As suas críticas [de Alon] merecem debate e reflexão, mas entenda que a maioria que votou em Lula são entusiastas e aprovam a política de biocombustíveis, que foi um grande tema de campanha. Reservas indígenas não foi um grande tema de campanha, mas a reserva foi demarcada em 2005 e Lula foi reeleito, inclusive com votação recorde na região Norte.
Quanto ao "dossiê" que foi sem nunca ter sido, a coisa está cada vez mais convergindo para a grande armação feito pela "holding" Imprensa+PSDB+DEM, conforme muitos acusados de chapa branca previram (as evidências eram por demais óbvias). Observe que a imprensa desacreditou a perícia do ITI quando foi anunciada, por ser subordinada à Ministra Dilma. Agora que a perícia do ITI saiu, sendo confirmada em testemunho do gabinete do Senador Álvaro Dias, vê-se que a Ministra sai fortalecida quando toda a imprensa passa recibo ao laudo do ITI, vinculando o vazador à um ex-ministro petista. Será outro tiro no pé, pois esta tese coloca Álvaro Dias entre operadores do ex-ministro José Dirceu, algo como os "mensaleiros" fisiológicos.
Por fim as críticas ao julgamento do Doroty Stang também foram feitas pelo Ministro Marco Aurélio de Mello, porém, este não recebe críticas, pois aos olhos da imprensa parece ser considerado uma opinião "qualificada", ao contrário do presidente.
Quanto a "torcida nas arquibancadas" eu vejo muito mais desabafo contra o linchamento político que o governo sofre na imprensa e pela sordidez de alguns oposicionistas do que qualquer escárnio.
Entenda de que para nordestinos e população de baixa renda, por exemplo, Lula cumpriu em seu governo, muito mais do que prometeu. E cumpriu o mesmo que tantos outros prometeram antes sem nunca terem cumprido. É algo inédito nunca feito na história deste país. Isso não é soberba é credibilidade.
O Governo merece críticas, mas que sejam leais dentro do jogo político e não peças de campanha oposicionista, que sequer tem coragem de confrontar suas teses: defender privatizações, Estado mínimo, cortes sociais e de impostos, Livre comércio com os EUA, afastar-se dos vizinhos sul-americanos e coisas do gênero.

sexta-feira, 9 de maio de 2008 13:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Presidente Lula não contestou a decisão judicial. Em sua declaração êle afirmou que "como cidadão estava indignado" pelo resultado. Como Presidente êle afirma em seguida que não poderia tecer nenhuma consideração.

(jose justino)

sexta-feira, 9 de maio de 2008 17:40:00 BRT  
Anonymous Cfe disse...

Alon,

Isso aí que vc está falando foram os motivos para eu nunca ter apoiado o Lula. Lula é um como sabonete: vai escorregando de uma lado para outro.

Eu nunca morri de amores pelo FH, mas ainda que ele fosse um pavão com aquela sabedoria toda, sempre teve preocupação de dar um embasamento intelectual a tudo quanto intervinha.

Outra coisa que eu sempre desconfiei nesse governo é que nenhuma questão polêmica, fraturante foi decidida. No governo FH tivemos a desestatização, que seria mais fácil aquela administração não ter sido feita e nesse o que há? Só distribuição de azeitonas ganhas em tempos de bonança do comércio internacional...

sexta-feira, 9 de maio de 2008 17:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
na boa: você viajou.
abraço
Marco Oñedo

sexta-feira, 9 de maio de 2008 18:08:00 BRT  
Anonymous Petronio disse...

Alon, parece que, como Lula está apaixonado pela própria voz, você - não é de hoje - anda apaixonado pela própria escrita. Textos tão longos que, se espremidos, caberiam num único parágrafo - e olhe lá, talvez numa frase.

Nesse post, acho que você quis dizer que, se se descuidar, Lula pode tomar uma virada. É, pela primeira vez, concordo com você...

P.S.: Vai escrever tanto pra tão pouco lá no Palácio do Planalto, rapaz!!!

domingo, 11 de maio de 2008 01:06:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

É, Petronio, eu realmente gosto de escrever. Gosto tanto que vou responder a esse seu comentário. E eu talvez pudesse ser mesmo mais sintético. Acontece que síntese não é exatamente a proposta deste blog. Diria que é mais um blog de divagações e digressões. De idas e vindas. Com franqueza, não estou nem aí para o quanto escrevo ou deixo de escrever. Como o blog é meu, escrevo o que e quanto me dá na telha. E quando me dá na telha. É a vantagem de ter um blog pessoal, certo? E, dada a sua aparente capacidade de síntese, minha sugestão é que você monte um blog seu, para postar nele pensamentos sintéticos como o que você colocou em seu comentário. Acho que vai fazer sucesso junto a um público que deseja profundidade mas não tem tempo a perder. E, como você afirma que concorda comigo "pela primeira vez", só posso concluir que nas demais vezes você discordou. O que significa que você leu, apesar da extensão dos textos. Obrigado pela paciência e pela decisão de investir seu tempo lendo o que escrevo. Quanto ao seu PS, não dá para eu ficar escrevendo no Planalto pois não sou setorista do palácio presidencial. Se fosse, escreveria de lá. Mas obrigado pela sugestão.

domingo, 11 de maio de 2008 01:19:00 BRT  

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