sexta-feira, 4 de abril de 2008

Pode correr, mas não pode fugir (04/04)



Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (04/04/2008) no Correio Braziliense.

Alguém pegou as despesas secretas de FHC pela mão e as levou para passear. Como se sabe agora, elas chegaram a dar até uma voltinha com um senador tucano. Quem diz é o próprio governo Lula. Então que diga também quem foi

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Diante das dificuldades políticas vividas pela ministra Dilma Rousseff, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alterou seu comportamento habitual. Em vez de tomar distância do problema, de dizer que é necessário esperar pelo resultado das investigações, de adotar atitude cautelosa, o presidente saiu de peito aberto na defesa incondicional da chefe da Casa Civil. Os críticos dirão que Lula apenas protege a candidata preferida à sucessão (se ele não próprio não puder concorrer). Já os de boa vontade (com o presidente) responderão que Lula resolveu blindar Dilma porque está convicto da inocência dela no episódio.

Vamos então dar um crédito a Lula, afastar a primeira hipótese e ficar somente com a segunda. O presidente da República tem elementos que lhe permitem garantir ao país que a ministra não ordenou a feitura de um dossiê com informações constrangedoras de gastos durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso (FHC). Então é razoável que esses elementos, que ajudaram o presidente a formar convicção, sejam colocados à disposição de todos. Assim, nenhuma dúvida pairará sobre a ministra e ela poderá, mais forte do que antes, continuar a cuidar do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Mas, como conseguirá Lula convencer-nos de que devemos, como ele, concluir que a ministra é somente vítima do episódio? Permitam voltar ao tema, já abordado em coluna anterior, mas o único jeito de isso acontecer é o Palácio do Planalto apontar o responsável pela manipulação anti-republicana de dados oficiais submetidos a sigilo. É o que se espera do governo. Ainda mais depois que o ministro das Relações Institucionais e o líder de Lula no Senado garantiram, publicamente, que o dossiê foi montado por gente que desejava criar dificuldades políticas para a atual administração.

Ora, não faz sentido que se tolere em palácio a presença de alguém com acesso a informações estratégicas e que esteja empenhado em fabricar constrangimentos para o governo. Alguém dedicado a produzir uma crise potencialmente capaz de engolir a ministra Dilma, que tem nas mãos o leme das ações mais vitais de uma administração que trabalha, dia e noite, para colocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento sustentado.

É disso que se trata. Infelizmente, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) não tomou quando poderia tê-lo feito as devidas providências em relação ao dossiê que lhe caiu em mãos lá atrás, antes mesmo de a imprensa entrar no assunto. Deveria ter acionado a Polícia Federal e o Ministério Público. Deveria ter denunciado quem lhe aprouvesse (a imunidade parlamentar garante o direito), Deveria ter exigido explicações do governo. Deveria, em resumo, ter feito bem mais barulho do que fez.

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Cartões Corporativos chegou aparentemente a um impasse. Antes, perdia-se em questiúnculas e gastava o tempo saboreando sorvete de tapioca. Quando deveria ter agido, não foi capaz de colocar o foco sobre os desperdícios com os cartões, especialmente com os saques em dinheiro. Agora, paralisou-se pela natural resistência da base aliada diante das pressões para que funcionários do governo sejam arrastados ao Congresso para depor.

O situacionismo garante que a blindagem é somente para evitar que a CPI seja usada na luta política. Dizem que agem para impedir que a possível convocação da ministra da Casa Civil ou de subordinados dela acabe paralisando as vitais atividades desenvolvidas por Dilma e equipe. Pode ser. Nesse caso, porém, é preciso que a base faça ver ao Palácio do Planalto que o assunto precisa ser esclarecido, com a localização dos eventuais culpados e a adoção das providências cabíveis, nos planos administrativo e criminal. Se for o caso.

Afinal, não é necessário ser um expert em informática para saber que registros de bancos de dados eletrônicos não saem por aí passeando à toa, à espera de que alguém os selecione e imprima para uso próprio. Alguém pegou as despesas secretas de FHC pela mão e as levou para passear. Como se sabe agora, elas chegaram a dar até uma voltinha com um senador tucano. Quem diz é o próprio governo Lula. Então que diga também quem foi esse alguém. Disso o Palácio do Planalto pode até tentar correr. Mas, como diz o ditado, vai ser difícil fugir.


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17 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Você ainda tem aquele post sobre a Chef Sudbrack? Republique.

sexta-feira, 4 de abril de 2008 07:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Do blog do Alon Fewerwerker:
"por que a oposição não quer que se investigue o suprimento de fundos no período de Fernando Henrique Cardoso (FHC)? Já que vão fazer uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que se devasse tudo. Até porque, convenhamos, será importante verificar se houve mudanças no perfil das despesas da corte. Sabe-se, por exemplo, que Luiz Inácio Lula da Silva tem sua despensa abastecida por bons produtos. Nem nisso ele é original. Vejam o que disse, dia desses, Roberta Sudbrack, a gaúcha que FHC levou para comandar a cozinha presidencial, em entrevista ao site smartdiet.com.br (Cyber Cook):"

sexta-feira, 4 de abril de 2008 08:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, o assunto sempre remete à ausência de algo que possa colocar as coisas no lugar, que seria a salvaguarda das instituições, as mais atingidas, mais uma vez, em tudo isso. Porém, olhos de cidadão comum podem perscrutar apenas a quase total impossibilidade disso vir a ocorrer. Exceto a terra arrasada como o prato mais apetitoso, aspecto às vezes contraditado por algumas poucas vozes tentando formas de apaziguamento. A situação passa por um esgarçamento dos tecidos políticos, brechas pelas quais podem vir a passar quase tudo. Menos algo do que se possa vir a ter orgulho no futuro. Pena.
Sotho

sexta-feira, 4 de abril de 2008 10:22:00 BRT  
Blogger Wagner disse...

Alon,

quem disse que foi a fonte da veja foi o senador, nem o governo nem a base aliada acusaram o Senador Alvaro Dias. Reagiram à confissão dele ao Bob Fernandes. Quem tem que explicar o suposto dossie é o senador Alvoro Dias.
Dizer que é responsabilidade do Governo é no míno inverter o onus da prova.

sexta-feira, 4 de abril de 2008 10:26:00 BRT  
Anonymous Paulo Pinheiro disse...

A impresa diz que:"Uma cópia de arquivo extraído diretamente da rede de computadores da Casa Civil mostra que o dossiê com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, da sua mulher, Ruth, e de ministros tucanos saiu pronto do Palácio do Planalto" Espera ai!!!Como a impresa Obteve essa cópia?? .Sim, Claro, Uma fonte de dentro da Casa civil entregou aos jornalistas.Essas informações são sigilosas quem as repassa está cometendo crime.Tai o espião que, conforme noticiado por jornalista de grande meio, entregou as informações ao Senador Alvaro Dias.Se os jornalistas não podem entreguar a fonte o senador pode e deve expor este criminoso.

sexta-feira, 4 de abril de 2008 10:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Sen. Álvaro Dias não deve ter querido nem incomodar a PF, decerto ainda ocupadíssima com as não resolvidas investigações do Dossiê dos Aloprados, e tampouco o agora silencioso MP, certamente engajado com os fatos zelosamente levantados durante o governo FHC.

sexta-feira, 4 de abril de 2008 10:55:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Obrigado, anônimo. A menção à chef está em:

http://blogdoalon.blogspot.com/2008/02/uma-concesso-ttica-uma-comparao.html

Parece que alguém leu e em vez de abrir tudo às claras na CPI resolveu fazer uma compilaçãozinha e jogar só nas sombras. Deu-se mal, como evidencia a manchete da Folha de hoje.

sexta-feira, 4 de abril de 2008 11:01:00 BRT  
Blogger Paulo disse...

Alon escreveu: "Mas, como conseguirá Lula convencer-nos de que devemos, como ele, concluir que a ministra é somente vítima do episódio?"

Não está havendo aqui uma inversão do ônus da prova?

Não cabe a quem acusa provar que a Ministra Dilma Roussef é culpada?

A inocência não deve ser sempre presumida?

sexta-feira, 4 de abril de 2008 12:00:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Concordo com Wagner. Mas sejamos sinceros: um dos objetivos do tal dossiê está sendo plenamente atingido. Ou não estamos falando dele? Olha a situação do Serra e veja a maravilha do silêncio que se dá sobre o mesmo fato.
Eu, ao contrário do Alon, não tenho dúvidas que as informações contidas naquele documento já eram de conhecimento da oposição. No mais, 2010 está cada vez mais perto. E é só isso que se trata.

sexta-feira, 4 de abril de 2008 13:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Há uma confusão em alguns pontos do que seja um controle interno de contas e dossiê.

No controle interno, as contas são agrupadas por anos, gênero, especie etc, não deverá ocorrer num mesmo arquivo contas do governo atual e de outros, por uma simples razão quem analisa e julga as contas vai fazer pela gestão x.
Algum grupo de contas pode ser utilizado aleatoriamente ou escolher um critério, sim por que nenhum teste chega a 100%, apenas se houvesse fraude, e bota fraude nisso. Na verdade, você está testando o sistema e demonstrando que as práticas contábeis e administrativas estão sendo cumpridas.

Um dossiê é político, são informações comprometedoras de uma pessoa, os dados são escolhidos de forma a sempre embaraça-la.

Pergunta que fica é o levantamento mostrado no Noblat tem jeito de dossiê ou analise de controle?

Se afirmarem ser dossiê por que existe uma anexo até agora não demonstrado é uma coisa, mas as informações colhidas e divulgadas são o que era esperado ou não?

O que estão querendo fazer é chegar a um resultado esperado, levantamento em qualquer administração existe com testes de controle, essa parte técnica até o momento ninguém quiz explicar, como o Nassif é um dos poucos que entende, ele tem um pé tão atrás pelo que noto.

sexta-feira, 4 de abril de 2008 18:02:00 BRT  
Anonymous sueli pereira disse...

Na mosca ,Alon !

E vão descobrir...

passo todo dia aqui.
Abraço Sueli

sexta-feira, 4 de abril de 2008 18:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
Já que as coisas estão obscuras, a nós mortais só resta fazer lucubrações. Então vamos lá: quem retirou os dados da Casa Civil da Presidência da República, deve ser alguém muito valioso para a oposição política e midiática. Um espião enquistado dentro do Poder Central, que vem, há muito tempo, fornecendo informações comprometedoras e prejudiciais ao Governo Lula, mas favoráveis aos dem/tucanos e à mídia. Se os beneficiários revelarem o nome dessa(s) pessoa(s)estarão colocando um fim à fábrica de escândalos que têm à sua disposição. Isto explica o pacto de silêncio para proteger a sua galinha dos ovos de ouro.

sábado, 5 de abril de 2008 23:18:00 BRT  
Anonymous Reinaldo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

segunda-feira, 7 de abril de 2008 15:57:00 BRT  
Anonymous WIllian Gonçalves disse...

Existe agora uma situação surreal: Cobra-se do governo uma resposta que está acessível justamente a quem a exige. Se o "dossiê" foi entregue a um senador da oposição e circula por órgãos de imprensa de viés oposicionista, estes sabem quem o produziu e com que finalidade. Mas não querem entregar a fonte. Querem que o governo declare qual seja esta.
E mesmo na hipótese de que se descubra que o mesmo foi feita por pessoa ligada a algum partido de oposição, dirão que a culpa ainda é da Dilma, por ter ordenado a digitação dos dados e não ter providenciado segurança suficiente para que isso não ocorresse.
Infelizmente a grande imprensa nacional vem agindo de forma tão açodada que torna-se praticamente impossível uma revisão de suas afirmações bombásticas. Afinal, já se descobrira o culpado, basta lembrar as manchetes bombásticas de "Erenice ordenou a confecção do dossiê". Agora ninguém sabe mais onde essa história começou e vai acabar. A única verdade disponível agora é essa, e afirmar nesse momento qualquer coisa diferente é um risco. Ou será que voce sabe quem é o autor, e não quer nos contar, Alon?

segunda-feira, 7 de abril de 2008 16:32:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Willian,

Se eu soubesse, escreveria uma reportagem e ganharia um monte de prêmios.

segunda-feira, 7 de abril de 2008 16:39:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Alon, seu forte mesmo é o comentário político. Apesar de todo o seu esquerdismo, você não embarcou nessa de pré-inocentar a Dilma, foi malhado pelos seus leitores petistas, manteve a posição, e agora se prova correto. Se você não falasse de Stálin, Chávez e economia, seu blog seria imbatível na seara da qual você manja de fato

segunda-feira, 7 de abril de 2008 17:39:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Arranhaponte,

A realidade é que concordamos em algumas coisas e discordamos em outras. Isso nada tem a ver com estar certo ou errado no assunto A ou B. É possível até que possamos estar ambos errados em algo em que concordemos. A única observação que faço é que o método aqui é um só. Para os diversos assuntos. Um abraço.

segunda-feira, 7 de abril de 2008 18:33:00 BRT  

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