sexta-feira, 25 de abril de 2008

O realismo no pessimismo (25/04)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (25/04/2008) no Correio Braziliense.

Todas as análises políticas supõem, corretamente, que Lula tem boas chances de chegar a 2010 como um grande eleitor. Mas convém ficar de olho na economia. Os pessimistas, mesmo quando politicamente orientados, podem ter lá a sua utilidade

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O desempenho econômico tem sido o maior trunfo de Luiz Inácio Lula da Silva ao longo destes pouco mais de cinco anos no Palácio do Planalto. A comida barata, por exemplo, é um ativo valiosíssimo na relação política de Lula com os mais pobres. O presidente prometeu lá atrás que ao longo de seu mandato todos os brasileiros passariam a comer pelo menos três refeições diárias. A promessa foi cumprida. Para isso contribuíram principalmente os programas sociais de complementação de renda e o crescimento vigoroso do emprego e do salário mínimo, que quadruplicou, em dólar.

Mas o efeito não teria sido o mesmo caso o governo do PT não tivesse perseguido, desde o início e obsessivamente, manter a inflação sob estrito controle. Para tal, o presidente usou simultaneamente as três âncoras clássicas: a monetária, a fiscal e a cambial. O Banco Central jamais hesitou em aumentar os juros diante da menor ameaça, real ou imaginária, de descontrole nos preços. O superávit primário atingiu níveis inéditos, patamares que os governos anteriores, por falta de convicção ou de força política, nunca haviam imposto ao país. Para completar, ao real foi permitido flutuar para cima sem qualquer limite.

As últimas semanas, porém, assistem a uma acumulação de nuvens cinzentas nesse horizonte de céu azul. Qual é o cenário? Os juros brasileiros continuam altos, entre os mais altos do mundo. Em conseqüência, a valorização do real não dá sinais de ceder, mesmo com o declínio dos resultados da balança comercial. O superávit primário permanece vigoroso, não havendo o mínimo indício de que o governo federal esteja propenso a afrouxar as rédeas do gasto público. Mesmo com tudo isso, porém, a inflação preocupa. Especialmente a inflação da cesta básica, incluída a comida tão cara (sem trocadilhos) ao núcleo duro do eleitorado de Lula.

O Brasil tem um colchão de quase US$ 200 bilhões de reservas, o que garante certa tranqüilidade, inédita em nossa História. Mas suponhamos que o balanço de pagamentos projete uma tendência negativa de longo prazo. Isso sinalizará que o processo de acumulação de divisas se reverteu e que as reservas serão queimadas. Qual será o efeito desse sinal no fluxo de moeda estrangeira? Como se sabe, a única entidade econômica que tem livre trânsito no planeta é o capital financeiro. Que costuma analisar a conjuntura com os pés. Do mesmo jeito que vem correndo, pode dar no pé quando assim lhe aprouver.

Num outro cenário, o governo poderia buscar recompor os saldos da balança comercial por meio de políticas ativas de desvalorização monetária. Isso teria impacto imediato na inflação, justamente numa época em que os preços dão sinais de desassossego. Ou seja, não é uma saída para Lula. O presidente até estimula o debate econômico, mas na hora decisiva costuma invariavelmente fechar com Henrique Meirelles e a turma do Banco Central (BC).


Tudo porém tem limite. Nos últimos tempos, Lula exibe desconforto com a possibilidade de o denodo antiinflacionário do BC afetar o crescimento econômico e, portanto, a criação de empregos. Bem agora que, segundo Lula, o governo está gerencialmente engrenado e os projetos começam a sair do papel.

Ou seja, o presidente e o governo estão com pouca ou nenhuma margem de manobra na macroeconomia. Tanto que vem aí uma política industrial orientada a alavancar as exportações. É a tentativa de buscar uma saída ao mesmo tempo não convencional e agressiva para fugir da armadilha que liquidou a administração de Fernando Henrique Cardoso a partir de 1999, ano em que o colapso da âncora cambial levou à desvalorização do real e à incineração do capital político de FHC. Cujo segundo mandato resumiu-se, em boa medida, a uma dolorosa espera pela hora de passar a faixa.

Todas as análises políticas supõem, corretamente, que Lula tem boas chances de chegar a 2010 como um grande eleitor. Mas convém ficar de olho na economia. Os pessimistas, mesmo quando estão politicamente orientados, podem ter lá sua utilidade. Parece mesmo evidente que Lula está sem gordura para queimar na macroeconomia. Os pessimistas dizem que essa pouca folga poderá nos levar a um desastre. Ainda que estejam errados, convém o governo abrir o olho, para tentar descobrir o que –e quanto– pode haver de realismo nesse pessimismo.


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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Só para constar:
Um pessimista é apenas um otimista bem informado.
Saludos,
de Marcelo.

sexta-feira, 25 de abril de 2008 10:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mas existe uma saída, que seria um corte significativo de despesas do Governo Federal.

Está mais do que provado que o desperdício de dinheiro nas esferas federal, estadual e municipal é enorme.

Uma atitude séria de corte de despesas desnecessárias seria um excelente sinal para os agentes econômicos de que o Governo está focado no combate à inflação.

Infelizmente, a necessidade de atender aos anseios da chamada "base governista", que se sustenta à base de verbas federais desviadas, impede uma ação verdadeiramente séria nesse sentido...

sexta-feira, 25 de abril de 2008 14:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muitas análises, bem antes de começar a crise de inflação nos alimentos, advertiam que a apreciação do Real poderia gerar uma armadilha difícil de ser desmontada e que o governo adiava o ajuste necessário. Talvez esta seja a mais grave crise econômica mundial, a testar a solidez da política econômica. Pois, pode contaminar, internamente, o lado real da economia. O dilema possível é o de, depois de gerar expectativas muito favoráveis quanto ao crescimento, ter de ajustar para fazer a economia pousar suavemente dos cerca 5% a.a. atingidos em 2007.
Sotho

sexta-feira, 25 de abril de 2008 15:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É bom acrescentar que na política de elevar juros, estes não têm nenhuma influência direta sobre preços de bens importados.
Sotho

sexta-feira, 25 de abril de 2008 15:27:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

O empresário brasileiro precisa aprender a produzir com o dólar mais baixo, porque isso não é um fenômeno brasileiro, e sim externo.
Em 2003 o Euro valia 1,1 dólar, hoje vale 1,56. O Real é que passava por uma desvalorização irreal por causa da situação de crise.
Pelas regras de mercado, para valorizar o dólar o BC tem que comprar, para comprar tem que emitir títulos da dívida.
Ou seja, todo brasileiro teria que arcar com o custo de uma espécie de protecionismo cambial para exportadores.
Outra solução é intervir, para controlar a saída de capitais evitando a entrada. Isso o IOF já surtiu algum efeito. Certamente novas medidas virão se necessárias.

sexta-feira, 25 de abril de 2008 20:23:00 BRT  
Blogger Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Eu coloquei dez comentários para o texto do Rolf Kuntz, intitulado “Os juros, a inflação e o comício” do dia 22/04/2008 no Observatório da Imprensa de nº 482. Os cinco primeiros tratam do artigo de Cristiano Romero intitulado “A inflação sobe, com ou sem alimentos” publicado no Valor Econômico na véspera da decisão do Copom sobre o juro. Todos os comentários foram elaborados para demonstrar que a imprensa faz o jogo do governo ao dizer que o Banco Central é independente, mas que, se se observa a semelhança da política de juro adotada no período 2003/2004 com a adotada no período de 2007/2008, sendo que tanto 2004 como 2008 são anos de eleições municipais, verifica-se um Banco Central bastante servil aos ditames do governo.
No entanto, há razão para ver realismo no pessimismo, pois parece que os preços dos produtos agrícolas começam a sair fora do controle. Há duas formas de mitigar os problemas causados pela alta de alimentos no mercado internacional. Uma seria a taxação da exportação das commodities da nossa pauta de exportação. E a outra seria a compra com as reservas pelo governo brasileiro de produtos como trigo e arroz e a venda subsidiada no mercado interno. A taxação das commodities agora seria fora do tempo. O momento certo seria em 2003, com o dólar na estratosfera. Trata-se, entretanto, de política de difícil implementação como mostra a dificuldade que Kirchner no comando do maior partido da América Latina (muito disso pela fraqueza dos seus adversários) está enfrentando na Argentina. Mesmo assim, sou obrigado a concordar um pouco com o blogueiro Frank que fez um comentário para o seu texto “Entre o udenismo e o adesismo”, de 15/04/2008, e reconhecer que talvez fosse mais fácil conseguir isso com um governante mais coordenado com as forças da direita. Mas não se pode esquecer que o Serra pertencia ao governo que esposou a desoneração das exportações de produtos primários e semi-elaborados patrocinada por Kandir, parlamentar do partido dele.
A outra alternativa, comprar produtos agrícolas com as reservas, precisa da seguinte advertência. As reservas são uma grande enganação, ou melhor, são para inglês ver, pois não podem ser usadas. Esta é a grande segurança dos Estados Unidos, pois se a China usasse as suas reservas de mais de um trilhão de dólares ela quebraria os Estados Unidos e isso não é de interesse dela. Embora não possam ser usadas, creio que o aumento de reservas só é feito por governos competentes ou circunstâncias favoráveis (Itamar e primeiro mandato de Lula). E só as destroem governos incompetentes (Eurico Gaspar Dutra e primeiro mandato de FHC), salvo situação de comoção, como uma quebra total de uma safra. Esta situação de comoção, entretanto, nunca aconteceu. A questão é avaliar se a utilização das reservas pelo governo Lula configuraria a situação de comoção ou de incompetência.
Vale um esclarecimento. Dizer se um governante é ou foi competente ou incompetente é tarefa para a qual nós humanos ainda não estamos capacitados. Alguns dizem que só gerações na frente teriam esta capacidade. Nem isso eu creio que seja válido. A avaliação que fazemos de qualquer líder político é de uma subjetividade autônoma (os valores que adotei) e heterônoma (os valores que a sociedade adota) da qual não temos como fugir. Eu escolho alguns indicadores (saldo na balança comercial, crescimento econômico, distribuição de renda individual e a espacial (as regiões mais pobres crescendo a uma taxa maior do que as regiões mais ricas, nível de emprego, nível das reservas) para avaliar um governante e vejo como ele se encaixa. Apesar de presa a indicadores, a minha avaliação é subjetiva, pois a escolha dos indicadores foi subjetiva (por que o saldo na balança é bom e o déficit é mau?).
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/04/2008

sábado, 26 de abril de 2008 14:58:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

Na minha opinião o BC pode ajudar muito a oposição com esta atitude mais que suspeita de aumentar ainda mais os já estrastofericos juros pago pelo país.
Esta inflação não se resolve com juros e sim com mais oferta de alimentos.
Se os juros forem para 30% o preço do barril de petroleo vai baixar, a soja vai baixar, o arroz, o trigo, etc, etc... claro que não. O melhor para o Brasil hoje era Lula dizer ao Meirelles e seus capachos no BC: A porta da rua é serventia de casa.

sábado, 26 de abril de 2008 16:04:00 BRT  
Anonymous Blogueiro disse...

Tento compreender qual seria a utilidade do pessimista.

sábado, 26 de abril de 2008 18:45:00 BRT  
Blogger Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Eu coloquei dez comentários para o texto do Rolf Kuntz, intitulado “Os juros, a inflação e o comício” do dia 22/04/2008 no Observatório da Imprensa de nº 482. Os cinco primeiros tratam do artigo de Cristiano Romero intitulado “A inflação sobe, com ou sem alimentos” publicado no Valor Econômico na véspera da decisão do Copom sobre o juro. Todos os comentários foram elaborados para demonstrar que a imprensa faz o jogo do governo ao dizer que o Banco Central é independente, mas que, se se observa a semelhança da política de juro adotada no período 2003/2004 com a adotada no período de 2007/2008, sendo que tanto 2004 como 2008 são anos de eleições municipais, verifica-se um Banco Central bastante servil aos ditames do governo.
No entanto, há razão para ver realismo no pessimismo, pois parece que os preços dos produtos agrícolas começam a sair fora do controle. Há duas formas de mitigar os problemas causados pela alta de alimentos no mercado internacional. Uma seria a taxação da exportação das commodities da nossa pauta de exportação. E a outra seria a compra com as reservas pelo governo brasileiro de produtos como trigo e arroz e a venda subsidiada no mercado interno. A taxação das commodities agora seria fora do tempo. O momento certo seria em 2003, com o dólar na estratosfera. Trata-se, entretanto, de política de difícil implementação como mostra a dificuldade que Kirchner no comando do maior partido da América Latina (muito disso pela fraqueza dos seus adversários) está enfrentando na Argentina. Mesmo assim, sou obrigado a concordar um pouco com o blogueiro Frank que fez um comentário para o seu texto “Entre o udenismo e o adesismo”, de 15/04/2008, e reconhecer que talvez fosse mais fácil conseguir isso com um governante mais coordenado com as forças da direita. Mas não se pode esquecer que o Serra pertencia ao governo que esposou a desoneração das exportações de produtos primários e semi-elaborados patrocinada por Kandir, parlamentar do partido dele.
A outra alternativa, comprar produtos agrícolas com as reservas, precisa da seguinte advertência. As reservas são uma grande enganação, ou melhor, são para inglês ver, pois não podem ser usadas. Esta é a grande segurança dos Estados Unidos, pois se a China usasse as suas reservas de mais de um trilhão de dólares ela quebraria os Estados Unidos e isso não é de interesse dela. Embora não possam ser usadas, creio que o aumento de reservas só é feito por governos competentes ou circunstâncias favoráveis (Itamar e primeiro mandato de Lula). E só as destroem governos incompetentes (Eurico Gaspar Dutra e primeiro mandato de FHC), salvo situação de comoção, como uma quebra total de uma safra. Esta situação de comoção, entretanto, nunca aconteceu. A questão é avaliar se a utilização das reservas pelo governo Lula configuraria a situação de comoção ou de incompetência.
Vale um esclarecimento. Dizer que um governante é ou foi competente ou incompetente é tarefa para a qual nós humanos ainda não estamos capacitados. Alguns dizem que só gerações à frente teriam esta capacidade. Nem isso eu creio que seja válido. A avaliação que fazemos de qualquer líder político é de uma subjetividade autônoma (os valores que adotei) e heterônoma (os valores da sociedade) da qual não temos como fugir. Eu escolho alguns indicadores (saldo na balança comercial, crescimento econômico, distribuição de renda individual e a espacial (as regiões mais pobres crescendo a uma taxa maior do que as regiões mais ricas, nível de emprego, nível das reservas) para avaliar um governante e vejo como ele se encaixa. Apesar de presa a indicadores, a minha avaliação é subjetiva, pois a escolha dos indicadores foi subjetiva (por que o saldo na balança é bom e o déficit é mau?).
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/04/2008

domingo, 27 de abril de 2008 09:40:00 BRT  

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