sábado, 19 de abril de 2008

Lave as mãos, presidente, e deixe o Supremo corrigir o erro que o senhor cometeu - ATUALIZADO (19/04)

O mundo caiu porque o general Augusto Heleno Pereira espinafrou a política indigenista brasileira. Muitos protestaram argumentando que o general não deveria ter o direito de contestar uma linha de governo, por ser subordinado ao presidente da República. Grossa bobagem. Todo dia alguém do governo esculacha as orientações do Banco Central e ninguém se incomoda. Luiz Inácio Lula da Silva governa assim, com gente de sua equipe contestando publicamente medidas governamentais. Acontece, por exemplo, com os juros e com os transgênicos. É a bagunça institucionalizada. Por que a política de criação de gigantescas reservas indígenas nas fronteiras não pode ser contestada? O general Heleno, comandante militar da Amazônia, contestou-a. Fê-lo de maneira respeitosa e sem afrontar a autoridade presidencial. Entre outras coisas, disse o general que

Nós, militares, não queremos ser presença solitária em várias regiões da selva brasileira. Precisamos que os demais organismos estatais e privados se juntem a nós para integrar e desenvolver a Amazônia, sem prejuízos ao meio ambiente, mas sem abrir mão de usar o que é nosso.

Eis a essência do problema. A política indigenista brasileira baseia-se na formação de reservas étnico-territoriais com estatuto especial em relação às leis brasileiras. A projeção dessa estratégia para o futuro faz prever um cenário de desagregação territorial e política do país. Chegará o dia em que nações indígenas considerarão mais adequado adquirir soberania plena, com o controle do solo, do subsolo, da defesa e da política externa. Certamente receberão apoio de fora, se se considerar que a Amazônia brasileira é a maior reserva mundial de água doce e um gigantesco estoque de biodiversidade e recursos naturais não-renováveis. Eu sei que pontos de vista como o meu são tratados em determinados meios supostamente bem-pensantes como delírios nacionalistas. Não são. Basta olhar para Kosovo, para o Tibete e para Santa Cruz de la Sierra. Países continentais como o Brasil, se quiserem manter-se como tal, precisam adotar políticas ativas de integração de minorias e popular suas fronteiras sem necessariamente estabelecer correlação entre etnias e territórios. Imaginem o que seria do Tibete se não tivesse havido nos últimos anos um crescimento consistente da população Han. Sobre isso, aliás, o Dalai Lama disse outro dia que não quer a independência para o Tibete, só autonomia. E explicou o que seria: autonomia nas políticas externa e de defesa. Mais ou menos como a Ucrânia e a Geórgia, que caminham para integrar-se à Otan e se tranformar em plataformas militares contra a Rússia. O Brasil tem graves problemas sociais relacionados a diferenças étnicas. O caminho para solucioná-los é a integração ativa de todos os grupos étnicos ao Estado e à civilização. A política de quotas, por exemplo, é um mecanismo ativo de integração dos pretos (chamo de "pretos", e não de "negros", já que os brancos são chamados de brancos). Precisamos é disso: integrar com vigor as populações indígenas à sociedade brasileira. Às Forças Armadas, às universidades, à política partidária. E colonizar racionalmente, com base numa política fundiária democrática, nossa fronteira norte. É o que disse o general Heleno: fronteiras vazias são um convite à cobiça estrangeira. Não é principalmente a presença militar que garante a soberania sobre determinado território. É o povo. Há cinco séculos, os europeus aqui chegaram e progressivamente foram tomando as terras que eram dos índios. Ou seja, houve uma guerra e os índios perderam-na. Hoje, dentro governo e fora dele, há quem deseje reverter esse processo. Ora, ele só pode ser revertido com o sacrifício da nação brasileira como a entendemos. É o que vai acontecer se não se puser fim à política indigenista implantada pelo governo de Fernando Collor e aprofundada por Fernando Henrique Cardoso e Lula. E o mais impressionante é que esse apartheid índio, com a formação de bantustões indígenas na selva brasileira, é vendido à sociedade como algo "progressista". O presidente Lula não deveria ficar chateado com o general Heleno. Em meio à profusão de áulicos, bajuladores e aproveitadores que constumam infestar os palácios, o príncipe deve ter especial cuidado para manter perto de si quem possa lhe dizer as coisas como são. Ao bater duro contra o entreguismo travestido de "defesa dos povos indígenas", o chefe militar da Amazônia mostrou-ser, antes de tudo, leal ao comandante supremo das Forças Armadas. O melhor que Lula pode fazer agora sobre o assunto da reserva indígena Raposa/Serra do Sol é manter distância dos maus conselheiros, ficar quietinho na dele e deixar o Supremo Tribunal Federal resolver o imbroglio, transformando a demarcação contínua em descontínua.

Atualização, às 9:07 de 21/04/2008 - Leia o artigo Integrar não é discriminar, de Mauro Santayana, hoje no Jornal do Brasil.

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21 Comentários:

Anonymous Ruy Acquaviva disse...

Este seu comentário, Sr. Alon, é um ataque aos direitos dos já tão rpejudicados e perseguidos povos indígenas e uma defesa da mesma política que provocou o genocídio desses povos em todo o território nacional.
A política indigenista deste governo é acertada e é necessário proteger os poucos remanecentes das culturas indígenas do abuso do poder econômico, que infelizemnte tem defensores disfarçados de intelectuais, como é o seu caso.

sábado, 19 de abril de 2008 22:03:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Só discordo chamar a política de raças como integracionista. Ela é exatamente o oposto: trata o "preto" como "diferente", sendo que ele não é diferente de ninguém. O Índio também tem que ser tratado como um igual, e por isso, as políticas devem ser as mais universais possíveis.

sábado, 19 de abril de 2008 22:38:00 BRT  
Anonymous Hugo Albuquerque disse...

Alon,
Respeito seu ponto de vista ao mesmo tempo que discordo dele.
Comparar as criticas de um general ao governo ou a forma como se conduz a política indigenista não é o mesmo que um governista criticar a política econômica; O princípio básico das Forças Armadas é a hierarquia cujo mais alto posto é ocupado pelo Presidente da República, portanto, não cabe a um general fazer críticas ao governo, pois isso não lhe cabe, seria o mesmo que um coronel fizesse críticas a um general.
Outro ponto é que não vejo sob aspecto algum as reservas indígenas ou a política indigenista como ameaça a segurança nacional. Vou mais adiante: Se alguma coisa ameaça o Brasil isto é as próprias forças armadas do país que deram o golpe em 64 em prol do interesse americano como bons colaboracionistas. Reitero, foram os militares, não os índios.
Quanto a essa questão de integrar os indigenas a "civilização", descupe-me, mas isso parece discurso positivista da última década do século 19°, essa crença em um Estado técnico-cientifíco governado por "puros" e "iluminados" que os miliares brasileiros absorveram resultaram nos anos do bode preto e ainda alimentam nosso subdesenvolvimento.
Os militares brasileiros d ocupar com maior enfâse as fronteiras do país, desde que fosse para defende-las, coisa que essas forças armadas aí nunca fizeram, não fazem e nunca farão.

sábado, 19 de abril de 2008 23:42:00 BRT  
Anonymous Marcio disse...

Discordo totalmente. Se não houvesse uma politica protecionista para os indios, atualmente eles seriam massacrados, principalmente por grileiros. O General em vez de criticar o que vem dando certo, deveria propor ações para que se aproveitasse os índios para defender as fronteiras. Para mim, isso é um preconceito disfarçado.

domingo, 20 de abril de 2008 08:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Já assinei a petição em favor do comandante Heleno, que está coberto de razão./Além de entreguista, a política indigenista do governo Lula é pautada por ONGs alheias à realidade brasileira./Além de atentarem contra a soberania nacional, essas entidades querem preservar nossos índios como bichos de zoológico, impedindo-os de se integrarem à civilização. Ou seja: é meio caminho para que sejam realmente banidos da sociedade brasileira, como aconteceu com boa parte dos índios norte-americanos. Temos de tratar nossos índios cada vez mais como iguais. Não é por aderirem aos benefícios da civilização que eles deixarão morrer suas tradições mais importantes. E por outro lado, precisam abandonar práticas bárbaras, como o infaticídio por exemplo, que não tem mais lugar no século XXI, como defendem muitos dos intelectuais humanistas e suas bizarras idéias de auto-determinação dos povos.
Abs.
Fernando José - SP

domingo, 20 de abril de 2008 09:21:00 BRT  
Anonymous Fernando Rizzolo disse...

Caro Alon,
Parabens pelo comentário, ótimas colocações !
Fernando Rizzolo

domingo, 20 de abril de 2008 11:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ao menos fica claro o caminho que as políticas devem seguir: todos -índios, negros, brancos e os miscigenados - são brasileiros, em território brasileiro e devem estar sujeitos aos direitos e deveres preceituados ao arcabouço legal brasileiro. Se há desequilíbrios, por fatores diversos, no entendimento, aceitação e submissão ao arcabouço legal, pela forma como foi gerado e é aplicado, ai é que deve morar o problema. O desafio é não permitir o esgarçamento do tecido social e político em função disso.
Sotho

domingo, 20 de abril de 2008 11:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mesmo que concordasse que a política indigenista é errada, não dá pra achar essa declaração apoiada pelo PFl, coisa normal: "que o presidente não se atreva a tentar negar-lhe (ao general Heleno) o sagrado dever de defender a soberania e a integridade do Estado brasileiro (...). Caso se realize tal coação, o país conhecerá o maior movimento de solidariedade, partindo de todos os recantos deste imenso país, jamais ocorridos nos tempos modernos de nossa História"."

Criticar o Lula e passar alheio a isto não é comum a quem defende o estado de direito.

Wilson Cunha Junior

domingo, 20 de abril de 2008 12:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon: Muito bom.
Um abraço do Augusto

domingo, 20 de abril de 2008 12:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eduardo Viveiros de Castro é talvez quem mais entenda de índio no Brasil. Antropólogo, professor em Paris e no Rio de Janeiro, conhece a terra ali no norte do Brasil, e cada tribo, como ninguém. Ele foi entrevistado por Flávio Pinheiro e Laura Greenhalgh para o Estadão de hoje.

Existe risco para a soberania nacional na reserva Raposa Serra do Sol, como crê o general?

Existe, sim, uma questão de soberania do governo ao ser contestado publicamente por um membro das Forças Armadas. O general polemiza com uma decisão que, como todo mundo diz, não se discute, apenas se executa. A argumentação de que a reserva indígena represente um problema de soberania está mal colocada.

Por quê?

Há outras reservas em terras contínuas, em fronteiras. É o caso da Cabeça de Cachorro, no município de São Gabriel da Cachoeira, no Estado do Amazonas. E o Exército está lá, como deveria estar. A área indígena não teria como impedir a presença dos militares. O que a área indígena não permite é a exploração das terras por produtores não-índios. Dizer que o Exército não pode atuar é um sofisma alimentado por políticos e fazendeiros que agem de comum acordo, numa coalizão de interesses típica da região. Roraima é um Estado que não se mantém sozinho, ou melhor, que depende do repasse de recursos federais. Um lugar onde 90% dos políticos nem sequer são nativos. Onde o maior arrozeiro, que está à frente do movimento contra a reserva, arvora-se em defensor da região, mas veio de fora. É um gaúcho que desembarcou por lá em 1978, e não há nada de mal nisso, mas combate os índios que justamente servem de “muralha dos sertões”, desde os tempos da colônia. Os índios foram decisivos para que o Brasil ganhasse essa área, numa disputa que houve no passado com a Guiana, portanto, com a Inglaterra. Dizer que viraram ameaça significa, no mínimo, cometer uma injustiça histórica. Até o mito do Macunaíma, que foi recolhido por um alemão, Koch-Grünberg, e transformado por um paulista, Mário de Andrade, foi contado por índios daquela área, os macuxis, os wapixanas. Eles são co-autores da ideologia nacional. […]

Há o jogo político. Disseminam-se inverdades, como a de que a área da reserva ocupa 46% de Roraima, quando apenas ocupa 7%.

http://pedrodoria.com.br/2008/04/20/eduardo-viveiros-de-castro-e-o-que-ha-com-os-indios-da-raposa-serra-do-sol/


Fernando César de Oliveira, de Curitiba.

domingo, 20 de abril de 2008 12:50:00 BRT  
Blogger JBL disse...

Aron,

reforço a recomendação do Anônimo: http://pedrodoria.com.br/2008/04/20/eduardo-viveiros-de-castro-e-o-que-ha-com-os-indios-da-raposa-serra-do-sol/

Normalmente concordo com tudo o que você escreve, inclusive nos temas de soberania nacional. Mas desta vez não me parece razoável entrar na canoa dos que dizem que uma reserva indígena impede que o governo excerça suas atribuições determinadas pela constituição. Que o governo participe junto às comunidades indígenas na exploração econômica da biodiversidade amazônica (e provendo educação, saúde e segurança) deveria ser uma obrigação , inclusive na defesa da soberania nacional contra a ação de ONGs de objetivos duvidosos. Como você mesmo sempre argumenta, manter árvores em pé só será uma realidade quando derruba-las não represente uma vantagem econômica. Mas para alcançar este objetivo o apoio do governo será fundamental e monocultores de arroz certamente não trabalharão a favor disso.
Da mesma forma que você lembra dos ex-guerrilheiros colombianos que quando entram na política são perseguidos e assassinados, deveria também considerar a perseguição de povos nativos em seu discurso. Ou as FARC têm mais motivos para defender o seu território do que os indígenas?
Um abraço,
Julio

domingo, 20 de abril de 2008 21:01:00 BRT  
Blogger maria fro disse...

Para Hugo Albuquerque bravíssimo, QED!

Indico a leitura da entrevista do presidente da Funai, lúcida e que esclarece esta questão explicitando exatamente do que se trata, indico também a leitura do relatório do CIMI, voltamos a matar os povos indígenas como se fazia no século XIX, que tristeza...
seguem os links:
Entrevista com o presidente da Funai

Relatório do Cimi

segunda-feira, 21 de abril de 2008 11:52:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Caro Alon,
Até o Mauro Santayana caiu na pegadinha da Arkos Biotech.

Essa empresa foi inventada em jogo virtual, parte de campanha publicitária do guaraná Antarctica, onde a Arkos é uma empresa vilã.

O sen. Arthur Virgílio chegou a fazer discurso inflamado no Congresso, e depois dos esclarecimentos foi convidado a participar do jogo. O Governador Requião também caiu na pegadinha.

Isso mostra o quanto está se escrevendo sobre o assunto com falta de informação fidedignas e com preconceito, sim.

Gosto muito do Mauro Santayana, assim como de você, mas este debate precisa ser mais elevado e responsável.

Os índios são brasileiros, as terras da união, destinadas ao uso nativo respeitando sua organização social vigente durante séculos, assim como posseiros brancos conseguiram a posse de fazendas na Amazônia.

Índios não tem o conceito de propriedade privada como um fazendeiro, enxergam seu habitat como um ecossistema onde eles são parte integrante e não propriamente donos.

Não vejo sentido (a não ser ganância econômica) na intolerância contra comunidades que vivem de forma coletiva, e querer convertê-los à força em fazendeiros, ao individualismo do modo de vida capitalista baseado propriedade privada da terra. A longo prazo é isso que está em jogo. Quem não se converter em fazendeiros serão expulsos da terra.

O Brasil é diverso, multicultural, e temos que entender que a integração se dá respeitando o modo de vida e organização social de comunidades nativas diversas.

Há críticas pertinentes sobre a política indígena, mas é preciso respeitar o protagonismo dos índios também, não só dos não indíos, que vêem neles um mero estorvo ao expansionismo capitalista.

Nós também temos o quê reaprender com as origens índígenas: eles não exaurem a natureza, consomem responsavelmente, e trabalham o necessário (livres do conceito de "mais repressão" de Hebert Marcuse).

O Estadão marcou um gol quando publicou uma entrevista com o presidente da Funai, mostrando minimanente o outro lado (é a entrevista que se refere Maria Fro acima).

O Exército certamente defenderia uma fazenda em território nacional se fosse invadida por tropas ou guerrilheiros estrangeiros. Devem defender reservas indígenas brasileiras da mesma forma.

segunda-feira, 21 de abril de 2008 13:46:00 BRT  
Anonymous Paulo Bastos disse...

Esqueçam da pegadinha. Repondam ao conteúdo do artigo do Mauro Santayana. Respondam aos argumentos dele.

segunda-feira, 21 de abril de 2008 14:54:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Paulo Bastos,
Os argumentos estão do meio para o fim de meu comentário anterior.

Se um índio chegasse à presidência da República, você não gostaria de ter seu modo de vida imposto à moda indígena. Você gostaria de ter seus valores culturais, sociais e econômicos respeitados.

Da mesma forma, as populações nativas devem ser integradas de forma natural, levando-se em conta e respeitando a vontade deles também, sem imposições sócio-culturais nem econômicas.

Lembre-se que aquelas terras são da União e os nativos fazem parte desta terra. Os fazendeiros é que são invasores. A resistência dos indígenas é justamente pelo histórico de ilícitos de muitos destes fazendeiros contra sua gente.

Os próprios indígenas desenvolvem atividades econômicas, como o próprio plantio de arroz. Dentro da reserva há cidades. Hão há porque enxergar essa área como não sendo parte integrante do Brasil. O que existe lá é disputa econômica pela posse terra, entre nativos e descendentes que lá vivem durante séculos, e imigrantes interessados em expandir a fronteira agrícola a qualquer preço.

Imagine se algum fazendeiro inventar de criar uma área de cultivo dentro do Parque Nacional do Itatiaia (no Sudeste, eixo Rio-São Paulo). O exército irá removê-lo imediatamente.

segunda-feira, 21 de abril de 2008 15:46:00 BRT  
Blogger Nélio disse...

Alon:
Como colaboração ao seu blog, por favor leia isso.

JB On-Line, 21 abr 08

Fronteiras e limites

Sérgio Paulo Muniz Costa,

Consultor empresarial e historiador

Causou repercussão nacional a palestra do Comandante Militar da Amazônia, general Augusto Heleno, proferida no Clube Militar, no Rio de Janeiro. Dela, foram pinçados os termos "lamentável" e caótica", aplicados à política indigenista brasileira. Não há novidade alguma aí, pois experimenta-se diariamente o caos nacional em diversas frentes, ao qual o brasileiro vai se acostumando bovinamente. A novidade é que dessa vez foi um general de quatro estrelas a apontá-lo. Os brasileiros, informados distantemente sobre os problemas no extenso arco limítrofe do País com dez vizinhos, agora se deparam com uma modalidade nova de problema fronteiriço. Eles são criados pelo Brasil, de dentro para fora.

Vozes apressadas já tentam questionar as palavras do general, sob o argumento falsamente civilista de que os militares não devem se pronunciar em público sobre assuntos polêmicos, em nome da sua subordinação ao poder civil. Não é a fala do general - dirigida a militares em uma agremiação que tem longa tradição no debate das questões nacionais - que deve causar sobressalto, mas sim o fato de não ter ocorrido também nos fóruns políticos onde a sociedade espera que seja deliberado o interesse do Brasil. Neutralizado por uma política suicida, o Congresso foi ultrapassado pelos acontecimentos nesse e em outros assuntos cruciais para a Nação, reduzindo-se a mero espectador da cena que deveria ser sua. Interveio, mais uma vez, o Superior Tribunal Federal que vem acompanhando de perto os acontecimentos políticos nacionais e preservando a constitucionalidade do País.

Em uma sociedade onde se abrem tantos espaços a especialistas em Defesa, a fala dos seus profissionais não deve surpreender, pois, a exemplo de outras atividades sensíveis, é impossível separar o pensamento da palavra e da ação. Esperar que os militares não pensem e não falem sobre o seu dever de ofício quando se avizinha uma crise na esfera de suas competências é garantir que não a impeçam. A não ser que surja um outro problema mais grave e inusitado - alguém com responsabilidade de governo afirmar que o assunto não diz respeito aos militares. Mas não se deve esperar tamanha insensatez.

O tema é de interesse nacional, cuja abordagem demanda coragem, em qualquer área, porquanto se sobrepõe aos interesses, conveniências e aparências do momento. A sociedade espera que seus militares formados na escola da coragem, defendam-na. Em contrapartida, eles esperam que a sociedade tenha a coragem de ouvi-los, institucionalmente. Os estados democráticos educam seus militares na ética da obediência, onde a disciplina é uma disposição interior para submeter-se voluntariamente às normas e a lealdade é a obrigação moral de, na posição de sentido, falar tudo. Parece simples, mas não é, nem aqui nem pelo mundo afora.

Antes da Segunda Guerra, os franceses não ouviram De Gaulle, os ingleses ignoraram Fuller e Stalin fuzilou parte da elite do exército soviético, facilitando, por anomia política, caduquice institucional ou delírio ditatorial, o trabalho de Hitler. Seis anos atrás, o poderoso secretário de Defesa Donald Rumsfeld deu bilhete azul ao general Shinzeki, chefe do Estado-Maior do Exército, quando este insistiu que não seria possível, com as tropas disponíveis, manter a paz no Iraque após a invasão já então decidida pelo governo e imposta pelo rolo compressor do Pentágono. Muitos generalatos depois, o desastre virou tema de campanha presidencial e polarizou uma audição no Congresso americano.

Aqui vamos criando nosso desastre, devagar, como convém. Inviabilizamos economicamente um estado da federação situado numa fronteira sensível, desumanizamos essa fronteira e assinamos uma controversa declaração internacional que atribui responsabilidades a populações indígenas para as quais elas não estão preparadas, nem perante a Nação, nem perante elas próprias. Completando o quadro surrealista, um ministro de Estado, ao comparecer à assembléia indígena no Surumu, recusou-se a se fazer acompanhar pelo governador e pelos representantes federais e estaduais, todos eleitos, e pelo general comandante da brigada ali desdobrada.

A questão indígena na fronteira de Roraima é na verdade uma questão de limites, criados ou transpostos. Artificialmente, criam-se limites entre brasileiros por meio de uma política racial sectária e não nacional; criam-se limites que inviabilizam a ação integrada de órgãos e instituições do governo em prol da paz social; e criam-se limites à própria cidadania. Transpuseram-se os limites do bom senso.

As fronteiras do Brasil estão onde sempre estiveram desde que o Barão Rio Branco protagonizou e inspirou vitórias diplomáticas que dispensaram as armas para conquistá-las, mas que ele nunca duvidou que devessem estar lá para garanti-las. Para que se as preserve, em atendimento a supremo interesse nacional, observem-se os limites na política, nas relações internacionais e no funcionamento saudável das instituições nacionais, mantendo-se a ideologia ao largo. Afinal, uma vez iniciado o desrespeito, não há mais limites, nem mesmo para um aprendiz de ditador arvorar-se a mediador da questão. Esse pode ser o limite do ridículo, mas há outros mais graves que fariam Rio Branco tremer de indignação.

Nélio

segunda-feira, 21 de abril de 2008 16:49:00 BRT  
Blogger Nélio disse...

Alon:
Se o General não pode falar sobre os problemas que são da sua esfera de atribuição em um fórum adequado, no contexto de uma aula e para uma platéia seleta, como ele vai alertar a Nação brasileira dos equívocos de uma política de finalidades, no mínimo, duvidosas?
Ao que parece, no estabelecimento de diretizes para a política indigenista nas fronteiras do país, as FFAA não foram ouvidas. Ficará dificil depois cobrar as suas atribuições constitucionais.
Segundo boa parte da imprensa "nem-nem" e dos democratas de festim, ele deveria recolher-se a sua insignificância de meio-cidadão e prevaricar em sua destinação constitucional.
Saibam todos que subordinação não é sinônimo de subserviência. Na situação em que ele falou, e com as responsabilidades dele fruto da função que ocupa, não se concebe mentir ou omitir verdades inconvenientes. O país é que está desacostumado de ouvir verdades da boca de autoridades. Ademais, o recado foi dado: o Alto-Comando do Exército (o que significa que a opinião foi consensual dentro da Força) não serve a governos, e sim ao Estado brasileiro. Deste ponto de vista, algumas opiniões, por afrontarem o interesse nacional, soam irrelevantes.

Nélio

segunda-feira, 21 de abril de 2008 17:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

índio fala ao celular? Índio voa de helicóptero. O que é um índio voando de helicóptero e vendendo madeira pelo celular?

É o superhomem?

segunda-feira, 21 de abril de 2008 18:27:00 BRT  
Anonymous sidneig disse...

não entendi nada, o primeiro comentário que fiz, e fui "moderado"?

segunda-feira, 21 de abril de 2008 21:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"alguém do governo" não é o mesmo que "alguém das forças armadas".

segunda-feira, 21 de abril de 2008 21:36:00 BRT  
Blogger Ruy Acquaviva disse...

"deixar o Supremo Tribunal Federal resolver o imbroglio, transformando a demarcação contínua em descontínua"
A demarcação da reserva indígena Raposa/Serra do Sol é amparada pela lei, votada e aprovada no congresso. Não é função do judiciário alterar as leis, mas fazê-las cumprir. O que está sendo chamado de "imbroglio" neste tópico é a execução das determinações legais por parte do executivo.

quarta-feira, 23 de abril de 2008 22:56:00 BRT  

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