segunda-feira, 28 de abril de 2008

Fome de comida e de argumentos (28/04)

A crise nos alimentos, com a elevação global do preço da comida, pegou de supresa os políticos adeptos do agronegócio, seus ideólogos na universidade e seus muitos amigos na imprensa. Como descrevi em Dá para criar gado no pré-sal?, a reação tem sido descoordenada. Catam-se os argumentos mais à mão e tenta-se vencer o debate pela imposição de um consenso artificial. O presidente da República, por exemplo, aproveitou a crise para sacar do bolso do colete a crítica contra os subsídios que os países ricos dão a seus agricultores. Criticar os subsídios europeus e americanos dá ibope no mundo em desenvolvimento, ainda mais porque o mecanismo revela o caráter limitado e cínico da pregação liberal. Mas, infelizmente para Lula e auxiliares como o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, os subsídios do Primeiro Mundo não explicam a alta planetária dos preços da comida. Por uma razão simples. Subsídio é dinheiro que o governo de um país tira do Tesouro e repassa ao agricultor para que este possa colocar seu produto no mercado a preços mais baixos, e mesmo assim consiga cobrir os custos e ter lucro. Ou seja, o subsídio é um mecanismo que contém os preços da comida para o consumidor. Há um argumento para combater esse ponto. Se os países em desenvolvimento pudessem ter acesso livre ao mercado europeu e norte-americano, teoricamente a oferta cresceria para atender à maior demanda. Isso seria verdade como solução para os problemas atuais se o impasse mundial estivesse na falta de demanda (por comida) fora da Europa e dos Estados Unidos. Ou seja, se vivêssemos num mundo em que países pobres não conseguissem desenvolver a sua agricultura por falta de mercado. Mas não foi o próprio Lula quem admitiu que a inflação se deve em primeiro lugar ao excesso de demanda? Não disse o presidente que o fator a pressionar os preços dos alimentos são os milhões de chineses, indianos e latino-americanos que finalmente passaram a comer? Então, por que diabos os agricultores do mundo em desenvolvimento não crescem sua produção de modo a atender à demanda de seus irmãos da China, da Índia e da América do Sul? No final do texto voltaremos a esse ponto essencial. Outro argumento é que a fome na periferia se deve à falta de renda, e não de comida. E que o biocombustível traria renda a quem não a tem. Caímos no caso anterior. Se a oferta mundial não atende à demanda é porque falta produto, não consumidores dispostos a comprá-lo. Se a cultura de plantas para produzir biocombustível propiciar a elevação da renda nas populações pobres da África (o que é uma miragem, mas partamos da premissa de que será assim), a demanda crescerá ainda mais. E se não houver o crescimento da oferta de comida o problema se agravará. Também afirma-se que a elevação dos preços do petróleo pressiona o custo dos fertlizantes e que isso tem implicações no preço final dos alimentos. Se é verdade, trata-se então de produzir mais petróleo. Alguém poderá dizer que a substituição por biocombustível talvez fizesse "sobrar" mais petróleo para produzir fertilizantes. Sem fazer contas é difícil discutir. Até porque também é necessário fertilizante para plantar cana-de-açúcar, milho e outras matérias-primas do álcool combustível. O que neutralizaria a tese. Argumento vai, argumento vem, percebe-se que o desafio é um só: produzir mais comida. Produzir muito mais comida do que se produz hoje. No que a produção de biocombustíveis pode ajudar nessa tarefa? Na melhor das hipóteses, em nada. O Estado de S.Paulo publicou neste domingo um belo conjunto de reportagens. Clique aqui para ler. Um trecho:

O Brasil é hoje o único país que tem potencial para resolver no curto prazo a crise mundial de alimentos. O País pode incorporar aos 47 milhões de hectares usados para produzir comida 50 milhões de hectares de pastagens subaproveitadas e com aptidão para agricultura de grãos. Com isso, é possível dobrar a área com grãos e ampliar em duas vezes e meia o volume da safra de alimentos, atingindo 350 milhões de grãos, sem derrubar uma única árvore, segundo projeções do ex-ministro da Agricultura e presidente do Conselho do Agronegócio da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Rodrigues. Nessa conta, ele considera o crescimento da safra não apenas pela expansão da área, mas também pelo aumento da produtividade, que, segundo ele, na média das lavouras brasileiras, é baixa.

Aí está. O problema a ser enfrentado é a baixa produtividade média da agricultura brasileira. E não há como fazê-lo sem atacar a concentração da propriedade fundiária. Trata-se de uma questão clássica das revoluções burguesas. O que diz o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues? Que o Brasil tem de "pastagens subaproveitadas e com aptidão para agricultura de grãos" uma extensão de terras maior do que a atualmente utilizada "para produzir comida". Outro trecho das reportagens do Estadão de domingo ajuda a entender melhor o problema:

Guilherme Cassel [ministro do Desenvolvimento Agrário] diz que hoje a agricultura familiar é responsável por 70% de todo o alimento que o brasileiro consome. Arnoldo Campos, secretário de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário, fornece os dados: feijão, 70%; mandioca, mais de 90%; leite, mais de 50%; aves e suínos, mais de 60%; trigo, mais de 50%; hortigranjeiros, mais de 90%. “A agricultura empresarial é responsável por quase 70% da produção de bovinos, arroz e soja; e 51% do milho, além de predominância quase total na cana-de-açúcar.”

Infelizmente, Lula e o PT abandonaram o programa agrário democrático como saída para aumentar a produtividade no campo. Recusam-se, por exemplo, a atualizar os índices de produtividade para acelerar a reforma agrária. O assunto foi perguntado ao presidente da República na entrevista que o Correio Braziliense publicou ontem:

CB - O senhor tem dito que o biocombustível e a cana-de-açúcar não pressionam a produção de alimento porque o Brasil tem muita terra, especialmente pastos degradados que poderiam ser utilizados. Se está sobrando terra para plantar cana, por que está faltando para a reforma agrária?

Lula - Não está faltando terra para a reforma agrária. No governo passado, em oito anos, eles distribuíram 22 milhões de hectares de terra. Nós, em cinco anos, distribuímos 35 milhões de hectares de terra. Qual é a divergência que tenho com o movimento dos sem-terra? É que acho que o problema não é assentar mais gente. O problema é fazer as pessoas que já estão na terra se tornarem mais produtivas. O que não pode é ficar colocando gente num canto, e eles continuarem tão miseráveis quanto estavam ontem. Precisamos aperfeiçoar a produtividade, a assistência técnica, o equilíbrio dos preços para quem já tem terra. Desse drama eu não sofro. O dado concreto é que estamos vivendo um bom desafio, e o Brasil não pode ter medo do bom desafio. O ruim seria se o mundo estivesse precisando de alimento e o Brasil não tivesse terra, tecnologia e conhecimento.

Está claro que para o nosso presidente hoje em dia produtivo mesmo é o latifúndio capitalista modernizado. Já Roberto Rodrigues, um latifundiário e líder de latifundiários, admite a baixa produtividade média dos campos brasileiros. A tragédia é que os adversários de ontem dos latifundiários hoje se tornaram seus melhores aliados e porta-vozes. Não vou me meter a discutir aqui o porquê, mas é fato. Dos muitos e muitos discursos que o presidente da República fez ao longo de cinco anos e meio de mandato, quantos foram dedicados à necessidade de aumentar a produção de comida? Basta comparar com o volume de pronunciamentos em defesa do biocombustível. Quais são os programas de governo destinados a implementar a expansão racional da fronteira agrícola com base na agricultura familiar? Qual é a prioridade dada à infra-estrutura para estocagem e escoamento da produção agrícola, especialmente para garantir renda ao pequeno e médio agricultor, para que este não fique à mercê do capitalista do agronegócio? A verdade é que o Brasil foi pego de calças curtas pela crise. E o Brasil é elemento-chave para a solução dela. Mas para isso precisaria iniciar internamente uma verdadeira revolução agrária. Uma necessidade no Brasil, no resto da América Latina e na África. Revolução para a qual faltam ainda as idéias, os líderes e a organização da energia social indispensável para quebrar a hegemonia secular do latifúndio. Se até Lula, o mais forte líder político da esquerda mundial, vai a África (como recentemente em Gana) para vender não a democratização da propriedade territorial, mas a modernização do latifúndio, pode-se deduzir o tamanho do problema.

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13 Comentários:

Anonymous Ricardo Melo disse...

A PERGUNTA DO ALON:
"Então, por que diabos os agricultores do mundo em desenvolvimento não crescem sua produção a taxas que atendam a essa pressão da demanda de seus irmãos da China, da Índia e da América do Sul?"

A RESPOSTA AO ALON: os agricultores dos países pobres não aumentam a sua produção porque não conseguem preço adequado para a sua produção, apesar do aumento da demanda.

UM EXEMPLO: não adianta o produtor de milho mexicano querer matar a fome chinesa por grãos, o preço do milho continua baixo por causa do subsídio pago pelo governo dos EUA.

O QUE O ALON AINDA NÃO ENTENDEU: subsídio é um valor pago para que NÃO se produza mais alimentos, e não o contrário.

UM LEMBRETE AO ALON: a fome mundial está concentrada em um grande número de agricultores sem condições de produzir. Não comem porque não têm para quem vender.

UMA QUESTÃO QUE RESTA: a inflação dos preços agrícolas vai estimular o aumento da produção? Acho que não, apesar do aumento da demanda, os preços aumentaram TAMBÉM por causa da especulação com os alimentos. E não devemos esquecer o peso do aumento do preço do petróleo no aumento dos preços.

OU SEJA: mesmo que os preços dos alimentos aumentem, talvez os produtores continuem com pouca margem. O lucro, via de regra, não se realiza no lugar da produção.

segunda-feira, 28 de abril de 2008 18:42:00 BRT  
Blogger Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Eu pensei em comentar o quanto difícil é você mudar de opinião. Provavelmente você iria responder perguntando se eu mudo fácil. Eu iria responder que sim desde que o argumento contrário tenha qualidade e portanto, seja convincente. Você, então diria que o mesmo acontece com você. Então acho melhor mudar de assunto.
Bem, Alon, com esta oportunidade de ouro que você teve nesse fim de semana, por que você não perguntou ao Presidente da República sobre a probabilidade da dobradinha José de Alencar e Lula em 2010? Ou você faz parte do grupo que prefere ocultar esta alternativa para que ela possa surgir com mais força na véspera da eleição, como vingança pelo fato da direita não deixar passar a trieleição?
Eu não precisaria voltar a questão dos preços dos alimentos, pois o Ricardo Melo no comentário acima disse tudo que era necessário. Mas sempre há aquela coceira. Em relação aos preços dos alimentos, eu fiz um comentário para o texto do Alberto Dines “A mídia comeu mosca” no Observatório da Imprensa. É na mesma direção do que eu venho insistindo aqui no seu blog. A elevação do preço dos alimentos deve-se a emissão desenfreada do dólar. Os países pobres devem agradecer à invasão do Iraque.
Sou a favor da reforma agrária, mas não tenho a ilusão que lhe parece acometer. Trata-se de um instrumento apenas para desafogar a pressão do aglomerados urbanos e será momentâneo. Daqui a cinqüenta anos deverá ser reiniciado o êxodo rural, evidentemente em bases mais racionais. Mas no mundo todo o meio rural está diminuindo a população e a sua importância no PIB. É claro que um dos fatores foi a desvalorização do preços dos produtos agropecuários a partir do final dos anos 70. Agora, com a retomada dos preços, e estando os Estados Unidos praticamente impossibilitados de aumentar o juro, certamente esta reversão nos preços tão favorável ao meio rural deverá ser mais duradoura. Mas o setor agrícola no mundo todo tem uma baixa taxa de retorno e a melhora é do nada para coisa alguma. Sou filho de fazendeiro já falecido e nos últimos sete anos tenho investido tudo que eu ganho. Provavelmente não recupero metade do que investi. Crio o que denomino déficit privado. Você gasta mais do que a sua receita. Isso é bom para o Brasil na medida que se está fazendo investimento, mas cria problema para a concorrência, pois os outros estão concorrendo com quem pode levar prejuízo. E eu não sou o único a agir desse jeito em uma atividade sem muita margem de lucro. Mudei alguma coisa. Quando meu pai faleceu havia um só empregado com carteira assinada. Agora são seis. Como são quatro fazendas para oito irmãos e minha mãe, são necessários oito agregados. Se fosse uma só bastariam quatro agregados e, portanto, a produtividade seria maior. Por isso a tendência mundial é de concentração. Se houvesse mais cuidado com a produção, armazenamento e distribuição de alimentos provavelmente a produção atual seria suficiente (eliminando alguns gordos do caminho). Não sou especialista em agricultura, mas lhe garanto que estas informações que estou lhe repassando correspondem ao que ocorre na realidade mundial.
Você gostaria que Lula fizesse mais do que ele tem feito. Eu também gostaria, mas acho impossível. Lula nunca teve essa força para implementar as políticas mais transformadoras. Teve um tanto de sorte para conseguir tudo que conseguiu. Conseguiu tanto que até tornou ridículos os críticos do “nunca dantes”.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 28/04/2008

segunda-feira, 28 de abril de 2008 21:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pergunta do CB:
"Se está sobrando terra para plantar cana, por que está faltando para a reforma agrária?"
Na minha opinião, pergunta sem sentido. A terra que está "sobrando" tem dono e não está abandonada. O que se disse é que ela pode ser utilizada para alimentos.

segunda-feira, 28 de abril de 2008 23:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ricado:

1) Preço do milho baixo? Em que mundo você vive?

2) Subsídio para a comida ficar mais cara? Em que mundo você vive?

Diante das suas respostas os argumentos do Alon só ganham mais força.

terça-feira, 29 de abril de 2008 10:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

No RGS, quando retornei, depois de 16 anos, já adulto, via quanto de pouca vegetação nativa havia, pois era muito usada, principalmente na serra. Hoje, está toda tomada por vegetação natural. Os que produzem, são mais horticultura e vinicultura. O básico que havia, antes, como feijão, arroz, trigo e milho, foi tanto desestimulado que os colonos acabaram se mudando para a cidade, onde se ganha mais.
Exmplo que me lembro, pois meu sogro é colono no interior de Santa Catarina, lá por 1998: na entre-safra, saco de milho, 25 reais. Isso estimulava para que se plantasse. Na safra, o FHC autorizava a importação Argentina e o preço caia para 5 reais. Ganhava, como sempre, o atravessador que podia estocar.
Acredito que o discurso do Presidente, como é com informações anterior a falta de alimentos, agora tende a mudar para responder as novas demandas.

terça-feira, 29 de abril de 2008 10:44:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

UM "ANÔNIMO" FEZ TRÊS PERGUNTAS, então vamos às respostas:

1) Preço do milho baixo? Em que
mundo você vive?

RESPOSTA:o preço do milho subisidiado dos EUA é baixo em comparação ao preço do milho mexicano, que não é subsidiado.
Esse "probleminha" está arrasando o campesinato do México, que é fundamentado no tradicional cultivo do milho. Nunca o México viu um êxodo rural tão forte como o atual, nunca o país viu uma crise social tão profunda.

2) Subsídio para a comida ficar mais cara? Em que mundo você vive?

RESPOSTA: É isso mesmo. O subsídio é feito para favorecer produtores dos países ricos, para fechar os ricos mercados consumidores dos países ricos.
Estou torcendo para que algum "lunático" venha aqui afirmar que os subsídios agrícolas são uma estratégia humanitária dos países ricos para diminuir a fome no mundo. Espero sentado.

MAS O QUE IMPORTA É:
Mesmo com vantagens naturais, os agricultores dos trópicos não conseguem "chegar no preço" dos produtos subsidiados nos países ricos. E, para cada hectare subsidiado nos EUA, vários outros deixam de ser cultivados nos países pobres.
Duvida? Vide o caso dos agricultores miseráveis e falidos do milho no México, vide o caso dos produtores falidos de algodão na África.

SOBRE O MUNDO EM QUE EU VIVO: estou no planeta Terra. E, apesar de anônimo, em que planeta você está?

terça-feira, 29 de abril de 2008 13:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Ricardo Mello já deu uma aula, mas preciso dar um pitaco:
-nos tempos do combate à inflação (governos Figueiredo e Sarney, ppalmente), houve tentativas de revogar a lei da oferta-demanda. Quando o preço dos alimentos subia, o governo vinha com congelamentos, importações desastrosas (comprando comida subsidiada dos países ricos) e outras práticas ruinosas. Isso destruiu finaceiramente os pequenos e médios produtores. Essa oposição entre preço de venda e remuneração do agricultor é o grande problema a resolver. A intenção oficial é de prover comida de baixo preço para todos (lembro: o Brasil já tem mais de 70% da população nas cidades). Como o poder aquisitivo melhorou, mas continua baixo, os produtores rurais nunca conseguem uma remuneração adequada para seus produtos. Alguns optam por produzir itens de uso não-alimentício, como biocombustíveis, que não sofrem essa pressão baixista. Ao mesmo tempo, há quem queira defender a pequena propriedade familiar para porduzir alimentos. A estes só se pode recomendar que aprendam a fazer contas. A margem de lucro é sempre baixa (se aumenta o preço, tome importação), portanto, quanto menor a produção, menor a renda do produtor. Sem renda, é melhor vender o sítio e trabalhar de pedreiro na cidade.
Sds.,
de Marcelo.

terça-feira, 29 de abril de 2008 14:38:00 BRT  
Anonymous Tenório Bastos - Limeira (SP) disse...

O Alon mostra ter razão, à luz dos argumentos do Ricardo e do Marcelo. Não faz sentido dizer que o preço baixo está desestimulando a produção de milho se o problema é exatamente o oposto: a explosão no preço mundial do milho. E, sobre os subsídios, se ambos, Marcelo e Ricardo, dizem que esse mecanismo mantém os preços de marcado artificialmente baixos, num dumping que afasta a aconcorrência dos produtores dos países pobres, os dois reforçam exatamente o que o Alon disse: que o subsídio pressiona o preço para baixo, não para cima. Mas isso é secundário. O que ninguém respondeu ao Alon até agora é por que o Brasil não se oferece para saciar a fome crescente de comida no mundo, já que, segundo o governo, temos terra sobrando para isso. E sobre a agricultura familiar, dizer que ela é menos eficiente do que o latifúndio modernizado é desconhecer que todos os países desenvolvidos chegaram onde chegaram graças a uma reforma agrária, em que o Estado alocou terra a quem tinha condição de nela produzir, em vez de garantir o direito de propriedade de quem a usava apenas como reserva de valor. Para concluir, não há dúvida de que nos ramos intensivos de mão de obra a agricultura familiar á superior ao agronegócio de grande escala. Por isso é que ela sobrevive. Até porque acaba subordinada ao grande capital. Mas sobrevive. Simplesmente porque produz a custos menores, ou seja com mais produtividade do capital.

terça-feira, 29 de abril de 2008 16:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Tenório,
se vc. me apontar três exemplos de produtores minifundiários de soja que sejam economicamente autossuficientes, eu mudo de opinião.
Além disso, acho que vc. fez uma pequena confusão. Os subsídios existem para viabilizar a produção em situações nas quais ela não seria competitiva. O subsídio banca a diferença entre custos+lucro e o preço de mercado dos produtos. Claro que isso gera superprodução nos países que oferecem esses subsídios, normalmente países ricos do primeiro mundo. E esse excedente é repassado para outros mercados a preço vil, ajudando países bangunçados como o nosso a evitar alta no preço de alimentos, mas desestimulando a produção local. Quando acontece uma calamidade climática, ou aparece uma oportunidade para produzir outra coisa mais atraente (hoje dia os tais biocombustíveis), eles simplesmente deixam de produzir esses artigos subsdiados. Porém, os demais países já abandonaram essas safras, porque eram inviáveis. Aí o preço sobe, e muito. Então todo o mundo resolve produzir isso que está com preço bom (lembro que cultivos de cereais demoram de 120 a 150 da decisão de plantio à colheita). Na colheita, como há execesso de oferta, todos perdem dinheiro (menos os subsidiados). É uma confusão. Simplificando: preço baixo afasta oferta adicional. Por isso (e também pelo etanol americano), o preço do milho está alto hoje. Daqui a uns seis meses, pode ser que esteja sobrando milho e o preço cairá.
Ao contrário do que vc. imagina, há latifúndios nos países desenvolvidos. O Texas está cheio deles. Na Austrália também. Até na Europa, aproveitando os subsídios, há investidores que possuem grandes áreas (nem sempre contínuas) de produção agrícola. Aliás, onde anda o José Bové? A Newsweek perguntou isso mesmo numa de suas capas no mês de março. A resposta: os prçeos altos dos rpodutos agrícolas acabaram com a sua popularidade. Ninguém quer saber dele na França e em lugar algum da Europa.
Sds.,
de Marcelo.

terça-feira, 29 de abril de 2008 17:58:00 BRT  
Anonymous Tenório Bastos - Limeira (SP) disse...

Já pode ir mudando de opinião, Marcelo. No Rio Grande do Sul, agricultores familiares, pequenos e médios, plantam soja transgênica. Até o pessoal do MST planta.Omenor custo com agrotóxicos viabiliza e permite. Um abraço. Claro que não estamos falando de minifúndio. Quem é que falou em minifúndio aqui?

terça-feira, 29 de abril de 2008 18:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Conheço muitos latifundios que pertencem a uma só família. Isso também é agricultura familiar, certo? (Brincadeira)
Repito: produtos agrícolas têm renatabilidade baixa (em situações normais). Então, a renda depende diretamente da escala de produção. Com a mesma rentabilidade, um grande produtor passa bem, enquanto um pequeno passa fome. Só isso.
A gauchada é porreta, mas a região do Oeste catarinense e Noroeste gaúcho estão em situação de penúria há dois ou três anos (problemas climáticos e de preços ruins).
Pela definição, agricultura familiar é aquela que é feita pela produtor e susa família, sem o concurso de empregados (diaristas admitidos nos picos de serviço). Funciona bem nas hortaliças e fruteiras finas. Mas sempre há o risco de promover o trabalho infantil.
Sds.,
de Marcelo.
Com o resto do texto, tudo ok?

terça-feira, 29 de abril de 2008 18:40:00 BRT  
Blogger Ademário disse...

Prezado Alon,
Melhorou, mas ainda está confuso. Os comentários sobre o seu texto esclarecem (um pouco) melhor sobre a formação dos preços agrícolas, bem como sobre a questão do valor de safra e de entressafra, que acaba com quem não tem subsídio (brilhante análise, parabéns a quem escreveu). O milho é outra história: sua produção foi realmente desviada para a produção de álcool. O caso da cana pode até diminuir a disponibilidade de açúcar, o que pode até ser um bom negócio para diminuir a endemia de obesidade e diabetes que grassa no mundo. Mas isso é outra história.
Ou seja, misturar álcool de milho e álcool de etanol no mesmo saco de reportagem... acho que dá é 'ressaca braba'.

terça-feira, 29 de abril de 2008 23:59:00 BRT  
Blogger Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Sua análise concentra-se na não adoção pelo governo Lula de uma política de agricultura familiar e na crença de que o aumento do preço dos alimentos decore da opção mundial, em especial, do governo brasileiro pelo biocombustíveis.
No meu entendimento a prática da agricultura familiar deve ser recomendada, mas conhecendo algumas das suas limitações e também algumas das suas potencialidades. Ela tem diminuído no mundo nos últimos trinta anos. Creio que, com a recuperação dos preços dos alimentos, ela volte a assumir uma melhor posição na sua participação no mercado, mas dentro de certas limitações que a exploração da terra oferece. Além disso, ainda que não houvesse essa alta, a agricultura familiar deveria ser subsidiada para regularizar nos próximos 50 anos o grande problema das favelas nos grandes municípios brasileiros. Nesse caso, entretanto, dever-se-ia estar ciente que essa solução seria apenas um paliativo que mal mal conseguiria assegura uma vida digna para pouco mais do que 20% da população de favela e que daqui a 50 anos a população estaria voltando para casa, ou melhor, para os centros urbanos.
O José Eli da Veiga, em artigo de 08/02/2008, no Valor Econômico, intitulado “Reabilitar Georgescu” discorre sobre o pensamento do economista romeno Nicholas Georgescu Roegen (1906-1994), em especial, sobre a previsão de a humanidade ter que descartar a teoria do desenvolvimento econômico, exatamente por não se ter como atender a demanda de energia do setor industrial. Caso prevaleça essa visão, aparentemente idílica, mas que eu creio bem provável, talvez nem venha ocorrer esse rearranjo populacional em que depois de ir para o campo se voltaria para as cidades, pois na concepção do romeno haveria ênfase maior em uma vida mais saudável no campo, sem muito consumismo e coisas parecidas.
Por ser menos produtiva do que o latifúndio, a agricultura familiar iria necessitar de subsídio, como faz a Europa, e seria um subsídio benéfico, apesar da sua baixa produtividade, pela série de externalidades positivas que ele gera. Como é benéfico para os europeus e para os americanos e canadenses o subsído por eles recebido. O subsídio, é algo de bom, que os países mais desenvolvidos adotam há vários anos, mas cujo efeito principal, como enfatizou o Ricardo Bueno no primeiro comentário a esse seu texto, é a redução do preço. Isso desestimula a produção nos países mais pobres. Até que eles começam a descobrir alternativas como a produção de biocombustíveis. Agora os países pobres não precisam reivindicar que se acabe com os subsídios nos países ricos. Por uma, porque eles sabem que no futuro eles também serão forçados a utilizar o subsídio para melhor regular a sua produção e pelas externalidades positivas que o subsídio possa trazer. Por duas, por que o preço já está elevado. Assim, o governo quando combate o subsídio americano e europeu o faz baseado em antigas leituras e também como uma estratégia de luta. Os países pobres sabem que os subsídios sempre existirão.
Em comentário anterior para esse mesmo texto, eu fiz menção ao comentário que inseri ao artigo de Alberto Dines, intitulado "A mídia comeu mosca" no Observatório da imprensa nº 482 em que dizia que o aumento era decorrente da maior emissão de dólar. Tratei dessa emissão como se fosse a única causa da inflação nos alimentos, o que não é verdade, pois há outras razões. O aumento do consumo, secas que ocorreram( talvez em decorrência do aquecimento solar ou por outra razão no ano passado na Nova Zelândia e no Sul do Brasil e na Argentina), a destinação de terras próprias para a produção de alimentos para o plantio de eucalipto e de cana e de milho com finalidade de produzir álcool, o crescimento econômico mundial, tornando os países mais ricos e, portanto, com maior exigência de alimentos são exemplos de outros fatores, mas que devem ser considerados na sua magnitude, ou no máximo como a gota d'água, mas jamais como o fator preponderante no desencadeamento do aumento dos preços de alimentos.
Se considerarmos os últimos 30 anos, o aumento do consumo de alimentos foi inferior ao aumento da produção agrícola mundial. O problema de fome que tínhamos há 30 anos era decorrente da sua má distribuição e das perdas e não exatamente da falta de alimento para toda a humanidade. Por isso enfatizo que essa como as outras razões pouco influenciaram o preço de alimentos ou são de importância pequena, pois o aumento da produção de alimentos superou o crescimento populacional. Mas são fatores que servem como estopim. O crescimento da economia mundial em taxas mais altas do que a sua média histórica serviu para aumentar o consumo de petróleo (Alimento é diferente de petróleo, pois a demanda pelo petróleo cresce quase junto do crescimento do PIB, enquanto a demanda por alimento cresce com o crescimento populacional que atualmente está bem abaixo do crescimento econômico mundial. Alias a demanda de alimentos cresce em ritmo menor do que o aumento populacional, pois cada vez mais aumenta o percentual populacional de velhos e esses exigem bem menos alimentos do que os jovens). O aumento do consumo do petróleo e a sobra de dólares no mercado levaram ao aumento do preço do petróleo. O aumento do preço do petróleo trouxe como conseqüência um aumento do preço do biocombustível. Que levou a uma maior valorização das terras destinadas ao plantio de produtos agrícolas destinados à produção de biocombustíveis. Na seqüência há aumento das terras destinadas ao plantio de produtos agrícolas e pecuários alimentícios. Quando ocorre esses aumentos no preços dos alimentos há um outro fator a impulsionar para cima ainda mais o valor das terras destinadas à produção agropecuária. A maior demanda de terras transforma-a em reserva de valor – isso é mais comum nos processos inflacionários, mas creio quando há uma certa estabilidade nos preços esses aumentos localizados no setor alimentar gera o mesmo efeito. O aumento das terras repercute nos preços dos alimentos. Mas esse será um efeito mais momentâneo que dependendo do controle dos índices inflacionários pelo Banco Central não perdura muito na economia. De todo modo, o atual aumento no preço dos alimentos veio para durar e ainda tem uma margem de 100% que representa quanto houve de inflação nos Estados Unidos nos últimos 30 anos, período em que, nos extremos - agora e há trinta anos - os preços são os mesmos.
O que houve de ruim para os países pobres nos últimos 30 anos foi a desvalorização dos preços dos alimentos provocada pelo aumento do juro básico americano pelo presidente do FED Paul Volcker que assumiu a presidência ainda no governo Carter e, é claro, o subsídio. Com o aumento do juro, os países pobres, a maioria deles bastante endividada, foram obrigados a desvalorizar as suas moedas. Assim, um agricultor que vendia um cacho de banana a 100 (com um câmbio de 100), com uma desvalorização de 30% passava a vender a 110 ganhando mais, mas vendendo lá fora por um preço mais barato, cerca de 85 na moeda estrangeira. Lá fora o preço baixava, mas o produtor dos países ricos eram compensados pelo subsídio. O momento atual é benéfico para os países pobres, pois estão vendo suas commodities valorizarem no mercado.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/05/2008

sexta-feira, 2 de maio de 2008 15:04:00 BRT  

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