sexta-feira, 7 de março de 2008

Paz necessária, mas improvável - ATUALIZADO (07/03)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (07/03/2008) no Correio Braziliense.

A moderna guerra civil na Colômbia não começou por obra de grupos comunistas, mas devido a disputas no seio dos partidos dominantes, o Liberal e o Conservador, em meio à pressão de massas populares urbanas em busca de inclusão econômica e política

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A Anistia do início dos anos 80 do século passado abriu as portas para a reconciliação do Brasil, pois permitiu criar um ambiente político pacificado. Especialmente depois que a medida alcançou os membros das organizações que haviam adotado a luta armada contra o regime militar. Anistiados, eles integraram-se à vida institucional normal, trocando os fuzis e metralhadoras pelos microfones e pelo voto na urna.

O Brasil é mesmo um país de sorte. Entre nós, o recurso à violência para resolver disputas políticas é coisa do passado. Por justiça, parcela importante do mérito deve ser creditada na conta do último general-presidente, João Baptista de Oliveira Figueiredo, o que pediu que o esquecêssemos. Se Ernesto Geisel ficou na História do Brasil também por esmagar a linha-dura militar com mão de ferro, o sucessor dele, voluntária ou involuntariamente, acabou matando a linha-dura de inanição, de asfixia.

A abertura democrática no Brasil não foi um mar de rosas. Que o digam as explosões das bombas no Riocentro e na OAB. É verdade que Figueiredo não quis ou não pôde ir até o fim na caça aos terroristas de direita enquistados nas Forças Armadas, mas é fato também que em nenhum momento notou-se no presidente qualquer movimento para interromper a transição, apesar de todas as pressões de segmentos da caserna.

Hoje, felizmente, políticos brasileiros de direita e de esquerda não apenas convivem de modo civilizado, mas encontram ambiente até para tecer alianças nas disputas do Executivo e do Legislativo. Esse é um patrimônio político inestimável. Ou melhor, cujo valor pode ser estimado quando nos comparamos à situação de nosso principal vizinho a noroeste, a Colômbia.

Em meados dos anos 80, na mesma época das mudanças democráticas no Brasil, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) criaram um braço político-eleitoral, a União Patriótica (UP). Só no período entre 1985 e 1988, cerca de 500 candidatos e políticos da UP foram assassinados. Segundo um relatório divulgado na época pela Anistia Internacional (AI), a responsabilidade pelas mortes recaía especialmente sobre o governo do então presidente Virgilio Barco (liberal) e sobre as Forças Armadas colombianas.

Ao relatar a respeito da situação da UP, a AI denunciava a existência de uma “política deliberada de assassinatos políticos”. Mas seria injusto limitar-se a dizer que a violência frustrou, em meados dos anos 80, a tentativa de integração da guerrilha à vida institucional na Colômbia. O problema vem de antes. De muito antes. As diferenças políticas na Colômbia são resolvidas à bala desde a independência. Ainda que um episódio em particular tenha marcado a história recente do vizinho, deixando cicatrizes aparentemente irremovíveis.

O episódio é conhecido como La Violencia, período de nome auto-explicativo desencadeado em 1948 pelo assassinato do liberal Jorge Eliécer Gaitán, que se tivesse chegado ao poder teria sido uma espécie de Perón, ou um Getúlio Vargas colombiano. Eis um detalhe importante: a moderna guerra civil na Colômbia não começou por obra de grupos comunistas, mas devido a disputas no seio dos partidos dominantes, o Liberal e o Conservador, em meio à pressão de massas populares urbanas em busca de inclusão econômica e política.

Este espaço é curto para especular por que a Colômbia não consegue alcançar a paz. O mais provável é que a conta do impasse interminável deva ser lançada na rubrica da economia real gerada pelo narcotráfico. Agora mesmo, com a defensiva estratégica imposta pelo governo de Álvaro Uribe às Farc, o espaço deixado vem sendo preenchido pela reaglutinação dos esquadrões paramilitares de extrema-direita, que junto com os militares preenchem o vácuo da guerrilha no fornecimento de segurança e proteção para o crime.

E não há solução fácil à vista. Apenas um processo firme de reconciliação nacional poderia gerar a massa crítica politicamente necessária para fechar a chaga da violência e enfrentar o narcotráfico. Mas há interesses poderosíssimos contra essa saída. Ainda mais depois que o governo da Colômbia passou a ser peça fundamental na estratégia norte-americana de se precaver contra a perda do controle sobre o petróleo venezuelano.


Atualizado, às 12:25 - Um amigo envia-me texto do Le Monde Diplomatique de maio de 2005 sobre o extermínio dos políticos da União Patriótica. Clique no link para ler A história de um massacre. Vale a pena.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O texto enfoca bem as origens dos conflitos internos na Colômbia e uma convivência entre as forças políticas no Brasil. Apesar de fortes divergências, depois da democratização, há alternância de poder e a recorrência às armas para fazer valer posições está afastada. Talvez não seja sorte, mas maturidade.
Sotho

sexta-feira, 7 de março de 2008 11:51:00 BRT  
Anonymous Mauro disse...

Alon,


você está correto ao assinalar as origens remotas da violência em território colombiano e a ausência de uma tradição de disputa pacífica pelo poder. Na Colômbia os atores políticos se habituaram ao enfrentamento pelas armas e não pelo voto. É verdade também que os primeiros movimentos de guerrilhas que posteriormente deram origem as Farc surgiram como uma resposta legítima à violência institucional, e que na década de 80 centenas de membros da União Patriótica foram assassinados.

Mas a reconstituição desse contexto histórico, se ajuda bastante a explicar como as coisas chegaram a esse ponto, de modo nenhum sustenta qualquer tentativa de apoiar as Farc ou condescender com seus crimes. A verdade é que as condições que poderiam algum dia ter justificado o apóio às Farc (e entre essas condições eu incluo a possibilidade de crer com sinceridade que uma organização que se auto-define como marxista-leninista pode oferecer qualquer outra coisa diferente de opressão política e atraso econômico... ) não existem mais, e as próprias Farc se degeneraram a tal ponto que hoje não são mais do que uma aberração inexplicável, uma seita de dementes que perambulam armados pelas selvas, vendem drogas, se distraem explodindo oleodutos, massacram camponeses e mantêm um campo de concentração com 800 prisioneiros que eventualmente são torturados ou estuprados, conforme relatos dos reféns liberados.

Como você bem lembra num post anterior, há muitos exemplos de grupos armados que posteriormente se transformaram em partidos legais e conseguiram chegar ao poder por meios pacíficos. Mas o paralelo que você faz entre o caso brasileiro e o caso colombiano ajuda pouco, dadas as enormes diferenças entre as histórias dos dois países e dadas as “idiossincrasias” das Farcs...

Pergunto: Não é certo que nesse momento a transformação das Farc em partido político legal depende fundamentalmente de um gesto das próprias Farc? O que as impede de simplesmente anunciar ao governo colombiano e ao mundo que desejam libertar todos os reféns, depor as armas em troca de uma anistia e concorrer às eleições em um processo monitorado por organismos internacionais? Em minha opinião, o que as impede é a circunstância desagradável de que seus chefes teriam de abrir mão da industria bilionária da extorsão, do seqüestro e do narcotráfico – que rende valores estimados entre 200 e 400 milhões de dólares anualmente – em troca de nada, visto que suas perspectivas de chegar ao poder através de eleições são nulas... Ou não são? De acordo com as pesquisas, os índices de rejeição às Farc pelos colombianos beiram os 90%, número só um pouco maior do que o dos colombianos que aprovam o governo de Uribe... Ou seja, em termos bem prosaicos, os narcoterorristas não podem depor as armas nesse momento apenas porque, sem armas, não lhes restaria outra alternativa senão a de procurar um emprego...

PS: Talvez você ainda tenha a oportunidade de expor melhor suas impressões sobre o papel dos EUA nessa história toda. Em minha opinião, os EUA desejam apenas que a Colômbia alcance a paz, persevere na democracia e pare de produzir cocaína para ser vendida em território norte-americano, nada mais do que isso...

sexta-feira, 7 de março de 2008 12:46:00 BRT  
Blogger maria fro disse...

Oi Mauro onde estão as pesquisas desse índice de aprovação a Uribe?
Em todas as fontes que vejo na América Latina, porque a imprensa brasileira só trabalha com desinformação e estereótipos, é exatamente o oposto.
com esse índice de aprovação porque os Colombianos pararam ontem mais de 20 cidades (nem aula teve) incluindo bogotá para marchar contra os desmandos das milícias de extrema-direita para-militares?
Porque membros da Anistia Internacional não apontam essas atrocidades que vc aponta para as FARC, porque os médicos sem fronteiras, as legiões humanitárias, os representantes dos Direitos Humanos todos são unânimes em apontar o governo de Uribe como um governo que permite a ação dos para-militares de extema direita e não respeitam nem os acampamentos das legiões humanitárias?

sexta-feira, 7 de março de 2008 14:15:00 BRT  
Anonymous Hugo Albuquerque disse...

Alon,
Não entenda isso como puxa-saquismo, mas sou obrigado a dizer que o seu texto foi sensacional, ótimo, estupendo, fantástico e por aí vai.
Infelimente vivemos um momento de tal degenerescência na mídia nacional que simplesmente não dá levar a sério o que se fala e se escreve sobre a Colômbia.
Felizmente há pessoas como você, capazes de fazer uma analíse equilibrada sobre o conflito levando em contas todas as variáveis e fugindo ao maniqueísmo sectarista doentio.
No fim das contas não dá para escrever nada sobre o tema porque você já disse tudo.
Meus parabéns!

sexta-feira, 7 de março de 2008 22:29:00 BRT  
Anonymous Mauro disse...

Maria,

se eu fosse colombiano eu também marcharia em protesto contra as milícias de extrema-direita... As pesquisas a que eu me refiro são do Instituto Gallup. Uribe foi eleito e reeleito com a promessa de enfrentar militarmente a narco-guerrilha e pacificar o país, e é hoje o presidente com o maior índice de aprovação na América Latina. Em minha opinião, afirmar que Uribe “permite a ação dos para-militares de extema-direita”, simplesmente com base no fato de que esses grupos continuam atuando, faz tanto sentido quanto afirmar que Uribe permite a ação das Farc. Em todo caso, eu penso que o povo colombiano está em melhor posição do que nós para avaliar o desempenho de Uribe no combate as milícias de direita. Ao contrário do que você diz, há dezenas de casos de massacres, violência sexual e atos de crueldade praticados pelas Farc registrados nos relatórios da Human Rights Watch (www.hrw.org) e Anistia Internacional (www.amnesty.org). Os recentes relatos dos prisioneiros libertados também não deixam dúvidas sobre os procedimentos bárbaros dessa organização. As Farc, é bom lembrar, são classificadas como grupo terrorista pela ONU e pela União Européia.

sábado, 8 de março de 2008 03:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sr Mauro, quem sabe o senhor traga de onde saíram estas coisas ditas? Porque no Alon e no Azenha, que postou as informações abaixo, eu confio:

"...Alguém aí sabe dizer o motivo pelo qual o acordo comercial entre Estados Unidos e Colômbia ainda não foi aprovado? Isso não deu na Globo. A Miriam Leitão teve amnésia em relação a este assunto. Não foi aprovado porque a oposição democrata no Congresso americano recebeu pressões de sindicalistas e entidades de direitos humanos denunciando violência contra líderes sindicais na Colômbia, por parte de paramilitares ligados ao governo e a duas grandes empresas americanas.

Não podemos ser simplistas e dizer que Álvaro Uribe é diretamente responsável. Mas o fato é que durante o governo dele foi criado um caldo de cultura em que 400 sindicalistas foram sumariamente eliminados. Não viu no Jornal Nacional? Nem vai ver.

O que vou reproduzir agora é o resumo de depoimentos dados por testemunhas convocadas pelo Congresso dos Estados Unidos para tratar do assunto:

Megan McFarland (Human Rights Watch):

O grupo monitora direitos humanos na Colômbia há duas décadas.
Antes de discutir o governo da Colômbia, a organização condena os sequestros promovidos pelas FARC.
A Colômbia tem a maior taxa do mundo de morte de sindicalistas:

A maioria dos assassinatos foi cometida por paramilitares.
400 foram mortos desde que Uribe assumiu.
Mas esse número caiu nos anos mais recentes, por dois motivos principais:
As FARC recuaram para área rurais mais remotas.
Mudaram as táticas dos paramilitares.
Durante os anos 90 os paramilitares estavam expandindo sua influência.
Desde 2000 os paramilitares começaram a consolidar o controle e deixaram de se expandir geograficamente. Isso resultou na redução do número de massacres e no número de sindicalistas mortos.
Ainda assim, os ataques não acabaram.
Os paramilitares agora empregam ameaças ou ataques contra parentes dos sindicalistas.
A impunidade é total, a maioria dos assassinatos nunca é esclarecida.
Os sindicalistas são estigmatizados como guerrilheiros esquerdistas.
Os paramilitares mantém influência política.
Foi nesse contexto que Uribe anunciou uma proposta para libertar os líderes desses grupos que estão presos.
Os paramilitares querem proteção contra a extradição para os Estados Unidos.
Alguns continuam suas atividades de dentro da cadeia.
Os Estados Unidos deveriam ajustar o tratado de livre comércio para as seguintes condições:
Produção, pela Colômbia, de sólida evidência de condenações pelos crimes cometidos contra sindicalistas.
O abandono, por Uribe, da proposta de anistiar os acusados de ligação com os grupos paramilitares.
Os comandantes que estão presos devem ser isolados de sua rede de comando.
Os líderes paramilitares deveriam ser extraditados para julgamento nos Estados Unidos.
Nossa mídia também não informa a você que o próprio governo dos Estados Unidos move uma ação federal contra a Chiquita, empresa de produção de bananas que sucedeu a United Fruit e é acusada de ter contratado a Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) para "limpar" a área na Colômbia, com pagamentos na casa dos milhares de dólares."

sábado, 8 de março de 2008 23:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

domingo, 9 de março de 2008 00:24:00 BRT  
Anonymous Mauro disse...

Ao comentador das 23h32min00s:

Sobre a fonte das minhas informações, prefiro o Washington Post, nos EUA, o Estadão, no Brasil, e recentemente tenho consultado o colombiano El Tiempo. Ficaria imensamente agradecido se você fizesse algumas sugestões de boas fontes de notícias.

Acho muito bom que Uribe seja pressionado a combater as milícias de ultra-direita. Como ocorre com todo governante democrático que tem satisfações a prestar aos seus eleitores e à opinião pública (sob risco de ser sancionado com insucessos eleitorais...), Uribe parece bastante sensível a pressões. Seria outro o caso se fosse um ditador, se censurasse a imprensa, se mantivesse os poderes judiciário e legislativo sob seu controle...

Ao contrário do que você diz, a impunidade não é total na Colômbia. Há dezenas de paramilitares condenados ou presos. Veja que coisa incrível: a imensa maioria dos homicídios no Brasil também não é esclarecida, mas eu não acho que Lula tenha alguma coisa a ver com isso.

Então você também está sabendo que o governo americano processa empresas acusadas de financiar ações ilegais?! Em minha opinião, é um belo exemplo a ser seguido pelos demais governos do mundo. Qual a sua opinião?

domingo, 9 de março de 2008 16:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ótima análise, buscando na história as causas da violência na Colômbia.

domingo, 9 de março de 2008 18:26:00 BRT  

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