terça-feira, 25 de março de 2008

O próximo movimento (25/03)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (25/03/2008) no Correio Braziliense.

No Brasil, o mais emblemático tsunami eleitoral ocorreu em 1974, quando o Movimento Democrático Brasileiro (MDB, oposição) esmagou a Aliança Renovadora Nacional (Arena, governo) em plena ditadura

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Um importante atributo na política é a capacidade de antecipar o próximo movimento. Vale para os políticos e para quem, como os jornalistas, ganha a vida trabalhando com a matéria-prima por eles produzida. A arte está em enxergar perturbações onde tudo parece tranqüilo, em detectar pressões hoje invisíveis e que amanhã vão resultar em transformações dramáticas. Em projetar cenários futuros a partir de informações fragmentadas e aparentemente pouco importantes. Não é coisa trivial. Não é esporte que se pratique para ganhar sempre. Se você acertar uma ou outra, dê-se por satisfeito.

Vejam, por exemplo, o caso de Barack Obama. Alguns meses atrás eram poucos os analistas que apostavam nele as fichas na disputa pela Casa Branca. Raciocinava-se de um modo convencional. Há o cansaço com os republicanos de George W. Bush, há o domínio da máquina democrata pelos Clinton e o marido de Hillary deixou boa lembrança quando passou pelo cargo. Logo, é natural que a senadora ocupe um dos pólos na disputa deste ano pela cadeira de presidente dos Estados Unidos.

Onde estava o erro? Pela enésima vez na análise política, subestimou-se o efeito das ondas de renovação que ciclicamente varrem o cenário, na maior parte das vezes sem dar sinal prévio, como que vindas do nada. Como tsunamis gerados silenciosamente a partir da movimentação de placas tectônicas escondidas sob o fundo do mar da opinião pública. Obama já é um tsunami, mesmo que hoje não se possa prever com precisão qual será o seu alcance. E, quando as pessoas são expostas a tsunamis, como a outras situações limite, acabam por revelar o que vai nos cantos mais escondidos da alma.

Os Clinton, por exemplo, têm uma imagem de progressismo e tolerância, construída cuidadosamente ao longo da última década e meia. Diante do tsunami Obama, porém, exibem cada vez mais traços racistas e intolerantes. É um fenômeno conhecido. Há políticos que se julgam proprietários do voto alheio. Especialmente quando o eleitor “cativo” pertence a grupos sociais ou étnicos desfavorecidos. Quando algo dá errado, reagem de modo ressentido contra uma suposta ingraditão do eleitor. Sob pressão, a antes favorita Hillary Clinton vê agora sua candidatura escorregar para as zonas de sombra do incentivo ao preconceito racial. E o marido dela chega ao ponto de colocar em dúvida o patriotismo do rival democrata. O mercado eleitoral é mesmo cruel.

No Brasil, talvez o caso mais emblemático de tsunami eleitoral tenha ocorrido em 1974, quando o Movimento Democrático Brasileiro (MDB, oposição) esmagou a Aliança Renovadora Nacional (Arena, governo) em plena ditadura. Na década que se seguiu, a onda emedebista capilarizou-se pelos estados e municípios, e o PMDB até hoje se beneficia da horizontalidade adquirida então.

Os anos 90 assistiram à emergência do PSDB e do PT como pólos de poder, sem que entretanto nenhum dos dois tenha conseguido a capilarização obtida antes pelo PMDB. Talvez por causa da fragmentação do quadro partidário — o que as rígidas regras do regime de exceção impediam na época em que o MDB/PMDB se fez. Os tucanos passaram uma década mandando em Brasília sem que isso tenha resultado em ganhos significativos na esfera municipal, com exceção de São Paulo. E o PT conseguiu a façanha de ancorar duas vezes no Palácio do Planalto sem nunca ter conquistado, por conta própria, o governo estadual em São Paulo, em Minas Gerais ou no Rio de Janeiro. Nos municípios, então, nem se fala. De todos os partidos que um dia chegaram ao poder no Brasil, o menos municipalista de todos é o PT.

Qual será a onda, qual será o movimento novo na eleição municipal deste ano? A presença no governo federal e o bom momento na economia vão, finalmente, enraizar o PT no interior? Haverá uma onda petista nos pequenos e médios municípios e nas regiões metropolitanas? Ou o PT será vítima, novamente, de sua tendência ao isolamento político? Neste último caso, vão se dar bem os outros partidos da base do governo, especialmente o velho PMDB de guerra.

Será que a onda vai ser de renovação política? Menos mensurável nas conquistas partidárias propriamente ditas e mais detectável na emergência de lideranças políticas novas e modernas, adaptadas à era da informação abundante?

De todas as possibilidades, a menos provável é que assistamos em outubro a uma onda oposicionista. As condições materiais, objetivas, não favorecem. Ainda que os genes exclusivistas do PT sempre possam agir no sentido de criá-las.

Se tivesse que apostar, diria que o mais provável é a segunda opção. A da renovação. Mas é só uma aposta. Que cada um faça a sua.


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6 Comentários:

Anonymous Eliana de Freitas disse...

Olá Alon

Só hoje conheci o seu blog e adorei. Quanto as apostas para as eleições municipais, não acredito em qualquer renovação efetiva, em qualquer oposição de fato, estamos numa simbiosidade política, cujo objetivo maior é o proveito mútuo dos políticos. O povo substrato precisará desta década quase inteira, nas minhas previsões, para identificar ou criar uma nova liderança que coloque o poder púbico ao seu serviço.
Parabéns pelo seu trabalho, um abração, Eliana.

terça-feira, 25 de março de 2008 14:35:00 BRT  
Anonymous Hugo Albuquerque disse...

Alon ,
Você levanta algumas teses interessantes neste post.
Eu penso que uma delas é essa falta de comunicação dos partidos nas esferas municipais, estaduais e federal e de como o eleitor e os próprios partidos tratam de maneira tão diversa as estratégias para a ação em cada área.
O PT, por exemplo, tem uma tendência muito grande em se voltar para os temas nacionais em detrimento dos temas municipais e estaduais.
O Fenômeno do PSDB em SP é outro assunto. Acima de tudo por conta do desmonte das estruturas conservadoras clássicas e o desinteresse do PT paulista pelo estado, acabou ocorrendo um domínio brutal dos tucanos na cena política de SP tanto no âmbito estadual quanto nos municípios, de tal maneira, o PSDB hoje parece cada vez mais com um partido paulista apenas, incorporando a cultura e os desejos do estado muitas vezes em detrimento dos interesses do próprio país.
Isso que está acontecendo com o PSDB é ruim para o partido e ruim para o país; O fato de um partido ser muito forte num determinado estado e fraco ou mediano no resto do Brasil é insustentável no médio prazo.
No quer tange as eleições municipais, reitero o que eu disse em cima, a forma como os eleitores e os partidos enxergam o processo eletivo nas cidades é diverso e não raro desconexo da política nas esferas maiores; O fato de ser situação no goveno federal não faz muita diferença, os resultados se darão fragmentadamente, cidade a cidade como sempre foi, logo, os resultados serão um total mistério.

terça-feira, 25 de março de 2008 17:02:00 BRT  
Blogger Roberto disse...

Concordo com todos os seus comentários, menos com sua aposta numa renovação política nas próximas eleições. Não enxergo um paralelo entre o tsunami Obama e uma possível renovação nas próximas eleições por dois motivos:
1-a internet e outras fontes de informação estão mais entranhadas nos EUA do que no Brasil, ainda.
2-a imprensa é constantemente discutida nos EUA mas não é discutida no Brasil. Isto deixa o eleitor americano mais crítico.

Acredito que uma renovação política e uma mudança do discurso dos políticos ainda não acontecerá nas próximas eleições. Estamos caminhando nesta direção e o tsunami virá mas não agora.

quarta-feira, 26 de março de 2008 03:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pelo que depreende-se, a próxima eleição terá uma forte tentativa de pegar uma onda de renovação baseada em discursos anti-políticos. Como em outras eleições, a tendência é o surgimento de pretendentes a cargos eletivos, políticos, tentando passar imagem de não-políticos. Ou seja, uma tentativa de descolar-se de uma imagem avaliada como negativa. E por via de conseqüência, procurando enquadrar todos os demais em uma sinuca: a de políticos tradicionais. Poucos ousarão colocar-se como o que foram toda a vida, ou seja, políticos. Isso não é bom, pois, o que precisa-se nesse momento é de políticos. Sem o chavão do "P" maiúsculo ou "p" minúsculo, outro chavão inútil. Não dá para vislumbrar onde e como serão forjados os estadistas senão na política. Assim, a renovação será uma falácia.
Sotho

quarta-feira, 26 de março de 2008 10:32:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

Alon, em 1 de janeiro você apostava em um post "Eleições muito municipais" na não federalização da eleição.
Quem viu o PAC caindo na boca do povo, com filas de 14.000 inscritos para trabalhar nas obras em favelas do Rio de Janeiro, vê que a federalização das eleições é inexorável.
Não por acaso, oposicionistas como Fernando Gabeira, que viram seu oposicionismo falir, já convertem seu discurso em conciliatório junto ao governo federal, e propostas colaboracionistas. Mas há espaço para conquistar votos assim? Se é para votar em quem apóia as políticas do governo federal, porque não votar em quem o faz de peito aberto e sempre o fez?
O fenômeno vem se repetindo em todas as capitais, por onde se lança obras do PAC.
Eu aposto em uma significativa renovação. O DEM deverá perder muitas prefeituras (O Rio é 99% de certeza na derrota do DEM, e São Paulo é grande a possibilidade de Kassab perdê-la). O PSDB e PPS também devem encolher. O PMDB deve ficar maior do que já é, o PSB é uma estrela em ascenção que pode tomar o lugar do PSDB.
PT deve recuperar posições que perdeu após 2000 e conquistar muitas prefeituras, inclusive em cidades pequenas, sobretudo do Nordeste, e PCdoB deve ampliar sua presença.
Ao contrário de muitos, acho que o discurso da solução dos problemas públicos pela política volta à moda, justamente pela comparação da diferença que faz políticas certas do governo Lula, com as políticas erradas do governo FHC.
O papel do Estado forte volta a ser reconhecido como caminho para solução dos problemas de desenvolvimento e qualidade de vida em um país em construção como o Brasil. Os "choques de gestão" que envolviam privatizações e demissões de servidores, estado mínimo, estão praticamente desmoralizados pela realidade.
Deve haver recorde de votos nulos para vereadores.

quarta-feira, 26 de março de 2008 16:30:00 BRT  
Anonymous João Sebastião Bar disse...

Caro Alon,
De uma olhadinha nessa artigo sobre a dama-bruxa Hillary de hoje do Carl Bernstein: Truth or Consequences.
Tradução de uma pequena parte pra galera:
“Hillary tem algumas admiráveis qualidades, mas sinceridade, esclarecimento, transparência e compromisso com os fatos estabelecidos não estão entre eles”.
“Uma mentirosa de nascimento”.

"Hillary Clinton has many admirable qualities, but candor and openness and transparency and a commitment to well-established fact have not been notable among them". ...“a congenital liar”.

http://ac360.blogs.cnn.com/2008/03/26/hillary-clinton-truth-or-consequences/#more-470

Como se vê não é só Latino que faz pastelão. A ambição e cara de pau dela agüenta mais do que isso.
Bem no estilo não ganho mas também estrago a festa do outro.
Sds,
JSB

quarta-feira, 26 de março de 2008 17:25:00 BRT  

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