quinta-feira, 27 de março de 2008

Não farão falta (27/03)

A primeira Olimpíada que acompanhei, meio sem saber direito do que se tratava nos meus quase nove anos, foi a de Tóquio, em 1964. Depois vi pela tevê o México-68 com seus panteras negras, Munique-72 com Mark Spitz, Montreal-76 com Nadia Comaneci, Moscou-80 com o boicote americano por causa do Afeganistão, Los Angeles-84 com o boicote soviético em represália e Seul-88 com a última grande exibição de força da União Soviética. Em 92 fui com o Clóvis Rossi a Barcelona para cobrir os Jogos para a Folha de S.Paulo, mas uma crise renal acabou me deixando numa situação assim tipo meia boca, o que sobrecarregou meu colega. Que, sempre elegante, nunca reclamou da sobrecarga. Depois vieram Atlanta-96, Sidney-2000 e Atenas-2004. Que eu me lembre, em pelo menos três dessas ocasiões existia algum tipo de polêmica étnica ou nacional a incidir potencialmente nas competições. No Canadá havia e continua havendo uma grave ameaça de divisão protagonizada pela província francófona de Quebec. Na Espanha, a tensão relacionada às autonomias ganhava protagonismo pelo fato de os Jogos acontecerem na Catalunha, sem falar na sempre temida ameaça da basca ETA. E na Austrália havia a questão aborígene. Eu não me recordo de nenhum desses assuntos ter merecido a angulação editorial, a adesão apaixonada que se exibe hoje em relação às agitações teocrático-separatistas do Tibete. Por uma razão simples, que já expus em A teoria unificadora e em À espera de uma orientação da Casa Branca. Canadá, Espanha e Austrália são bons aliados dos Estados Unidos. Enquanto o Tibete faz parte da China, que é uma ameaça potencial à hegemonia planetária dos Estados Unidos. Daí que o separatismo tibetano receba uma acolhida que jamais será dada aos separatistas bascos. E não consta que a Europa e os Estados Unidos tenham ameaçado boicotar a Olimpíada na Austrália se ela não se comprometesse a negociar a devolução das terras tomadas dos nativos pelo colonizador europeu. Aliás, outro dia o novo premiê australiano, trabalhista, pediu descuplas aos aborígenes pela colonização. Foi um belo gesto, mas não vi qualquer referência a criar uma nação ou estado aborígenes em território australiano. Assim como ninguém exigiu a independência de Quebec para ir jogar, correr ou nadar em Montreal-76. Querem saber? Isso tudo me dá um certo enfado. Eu estou cansado de conversa fiada. Eu estou fechado com a posição oficial do Brasil, expressa em nota do Itamaraty. O Brasil e eu somos a favor da integridade territorial da China. Mas eu admito que haja quem pense diferente. São os mesmos que torciam pela resistência islâmica à presença soviética no Afeganistão, numa oportuna combinação de multiculturalismo e anticomunismo. Aí acordaram quando a Al-Qaeda enfiou dois aviões americanos de passageiros no World Trade Center em 11 de setembro de 2001 e hoje apóiam a intervenção ocidental no mesmo Afeganistão para combater o fundamentalismo que adulavam lá atrás. No caso do Tibete, a moda é cultuar o Dalai Lama. Eu nada tenho contra o líder religioso. Eu tenho muita coisa a favor do fim da teocracia e dos remanescentes feudais no Tibete. Espero que a China se dê melhor ali do que se deram os soviéticos em Cabul. Até porque ninguém de juízo perfeito tem coragem de defender abertamente a fragmentação da China. Ainda que seja esse o desejo secreto de quem sonha com a criação de um cordão sanitário em torno daquele país e da Rússia. Como faço há quase meio século, eu vou sentar na frente da tevê e assistir à Olimpiada de Pequim. Vai ser um espetáculo e tanto. Desfrutem vocês também. E quem não for ou não assistir deve ficar tranqüilo: não vai fazer a mínima falta.

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11 Comentários:

Blogger José Eduardo R. de Camargo disse...

Excelente análise! E que me perdoem os budistas, mas esse Dalai Lama é um picareta!
Um abraço!

sexta-feira, 28 de março de 2008 00:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

parabéns pela análise. Esquerdistas, como peixe, morrem pela boca...

sexta-feira, 28 de março de 2008 05:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ah Alon, você não!!
Quer dizer que vale descer o sarrafo até em monge budista em nome da luta contra o imperialismo ianque???!!!
Não, Alon, você não!!!!
Abs!
Fernando José

sexta-feira, 28 de março de 2008 09:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon , vai fazer falta sim senhor ;
o esporte olímpico (não o futebol
mafioso) é ainda uma das poucas
coisas boas , a serem vistas na TV.
No Brasil não vai fazer falta para muitos , que desconhecendo os
verdadeiros esportes , não os aprecia .
Ninguém pode gostar do que não
conhece , não conhecendo não procura a pratica daqueles esportes
tão em falta por aqui.
O resultado todo mundo sabe :povo
doente e o Brasil com participação
bisonha nos Jogos Olímpicos !

sexta-feira, 28 de março de 2008 12:26:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Curioso. Canadá, Espanha e Austrália - democracias. China, ditadura. Será que isso não influencia um pouco a questão?

sexta-feira, 28 de março de 2008 16:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Esta é a segunda análise que leio sobre a defesa da China no caso do Tibete. Análise racional e sensata. Que se posiciona a favor da China e contra o divisionismo imperialista que quer dividir para poder mandar e espoliar. A outra análise que li favorável à China (no sítio do Vermelho)e contra a separação, diz que a séculos tibetanos e chineses fazem parte de uma mesma nação, eles têm tradições comuns, os dalais tibetanos eram representantes do Tibete na corte ou parlamento chinês. Com a Revolução Chinesa, os chineses começaram um programa social de acabar com as desigualdades aberrantes nas suas diversas províncias. No caso do Tibete, os monges tratavam toda a população tibetana como algo de terceira classe, talvez por este motivo o atual Dalai Lama tenha se revoltado contra a China por perder privilégios feudais. Hoje os que defendem o Tibete, defendem a continuidade de um estado teocrático e feudal, onde toda a população é propriedade dos nobres, pacatos e pacíficos monges budistas tibetanos.

sexta-feira, 28 de março de 2008 18:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Esta é a segunda análise que leio sobre a defesa da China no caso do Tibete. Análise racional e sensata. Que se posiciona a favor da China e contra o divisionismo imperialista que quer dividir para poder mandar e espoliar. A outra análise que li favorável à China (no sítio do Vermelho)e contra a separação, diz que a séculos tibetanos e chineses fazem parte de uma mesma nação, eles têm tradições comuns, os dalais tibetanos eram representantes do Tibete na corte ou parlamento chinês. Com a Revolução Chinesa, os chineses começaram um programa social de acabar com as desigualdades aberrantes nas suas diversas províncias. No caso do Tibete, os monges tratavam toda a população tibetana como algo de terceira classe, talvez por este motivo o atual Dalai Lama tenha se revoltado contra a China por perder privilégios feudais. Hoje os que defendem o Tibete, defendem a continuidade de um estado teocrático e feudal, onde toda a população é propriedade dos nobres, pacatos e pacíficos monges budistas tibetanos.

sexta-feira, 28 de março de 2008 18:03:00 BRT  
Blogger Rafael Kafka disse...

O povo tibetano tem o mesmo direito a autodeterminação que o iraquiano.

Não se pode adotar um princípio para um e se negar o mesmo princípio para o outro.

sexta-feira, 28 de março de 2008 22:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Boa, Alon.

Mais uma "alfinetada" na "hipocrisia universal".

Só me espantei pelo fato que, mesmo com todo o seu pragmatismo analítico, não tenha dado atenção às _riquezas minerais_ existentes no Tibete. Ouro, lítio e URÂNIO são _mais_ que bons motivos para que a região seja alvo de disputa. Adivinha para ONDE seriam destinados estes preciosos recursos no caso de uma inusitada independência do Tibete?

sábado, 29 de março de 2008 17:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon: Inteligente e sofisticado. Parabéns.
Um abraço do Augusto
P.S.: Só não posso te perdoar pelos comentários do Flamengo x Botafogo (chorão...)

domingo, 30 de março de 2008 22:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Gênioé,....quem descobre u óbio (quantos anos vc tem depois do assassinato de J.F. Kenedy?) Alcaida é o K7, sem condições para realiçar nem a metade do que foi feito, aquilo assim como o assassinato do J.F. é obra de gente de dentro e, como sempre; gostam de culpar os inimigos de plantão naquela tarde em texas eram os "cubanos" e um sindicato do dinheiro do jogo nos casinos de havana estavam metidos a facilitadores, más nada de Fidel intervir (os planos "deles" eram mais ambiciosos para fidel, que eram de criar na ilha uma escolinha do terror para inocular toda a latrinoamerica e justificar os a tomada do poder por salvadores coturnados)O objetivo?: multiplicar por dez a divida externa de todo e qqer pais às vistas de um povo massivamente subjugado e do qual, por nenhuma fronteira se achasse liberdade de expressão.Simples e óbvio viú? entendeu? pro 9/11 "eles" acharam o culpado em Sadan e suas ¿armas de destruição em massa? na verdade querem colocar um pé lá e de lambuja aumentar o preço do petroleo (que é deles pela força) no Tibete, mm coisa, o que dá em pirataria e ameaças, de um ou du outro lado, no fim, nenhum deles vale nada para nós.Y o que é mais cômico, nem eles tem armas atômicas, são só bombas "sujas". Hiroxima era uma vila de 10000 habitantes, e até hoje se sofre de câncer por lá, tanto material radiativo espalhado.

domingo, 19 de outubro de 2008 17:35:00 BRST  

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