terça-feira, 11 de março de 2008

Menos ideologia, mais negócios (11/03)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (11/03/2008) no Correio Braziliense.

No terreno político, a derrota do PP espanhol significa um alívio momentâneo para os governos da Venezuela, da Bolívia e do Equador, identificados com orientações étnico-nacionalistas bem pronunciadas

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) derrotou o Partido Popular (PP) e conquistou mais um mandato à frente do governo. No que se refere ao Brasil, há pelo menos dois aspectos a considerar. O primeiro é o revés político da Igreja Católica, que deu apoio tácito aos conservadores espanhóis, em oposição ao viés modernizante do PSOE no terreno dos costumes, especialmente no debate em torno da legalidade do aborto. O segundo é que o Estado espanhol nas mãos do PP poderia servir como alavanca de tentativas ainda mais ostensivas de desestabilização de governos étnico-nacionalistas na América do Sul.

No primeiro item, é inevitável o paralelo com o cenário brasileiro, onde no momento a hierarquia católica emprega todas as forças para barrar as pesquisas e a terapia com células-tronco embrionárias. Na Espanha e no Brasil, a Igreja mostra-se alinhada com a estratégia do Papa Bento 16: prefere perder adeptos a transigir em matéria de princípios. Ali e aqui, porém, é inevitável que a sociedade questione por que, afinal, deve a Igreja Católica ter ascendência definitiva sobre o Estado, já que este abrange católicos e não-católicos.

Religião é assunto privado. Ao Estado, cabe em tese garantir a liberdade de cada um procurar, e eventualmente encontrar, Deus segundo os caminhos da preferência de quem procura. Desde que esteja respeitado o limite do bom senso e da convivência social civilizada. Mas quem define esse limite? A própria sociedade, por meio de sua representação político-institucional no Executivo e no Legislativo.

O caso das células-tronco embrionárias é emblemático. Por que deveria um não-católico deixar de ter acesso aos avanços da ciência apenas porque Roma considera que a vida começa na concepção? E se houver uma igreja que marque o início da vida no momento da produção dos gametas? Ou outra religião que só considere a existência de vida após o nascimento? O uso da camisinha deveria ser considerado crime? O aborto deveria ser permitido a qualquer momento da gestação?

Nada disso é novo na discussão. A novidade, tanto no caso espanhol como no brasileiro, é que a maioria da sociedade não parece disposta a dar poder de veto a grupos religiosos, por mais representativos e hegemônicos que se pretendam. Uma atitude libertária que traz efeitos colaterais preocupantes. Um deles é o enfraquecimento da influência moral da Igreja Católica sobre a sociedade e a família. Que, como se sabe, é o elemento central a fortalecer na luta contra a atração que a transgressões e o crime exercem sobre a juventude.

Já no terreno propriamente político, a derrota do PP espanhol significa um alívio momentâneo para os governos da Venezuela, da Bolívia e do Equador, identificados com orientações étnico-nacionalistas bem pronunciadas. Como se recorda, a polêmica sobre o papel dos políticos do PP na tentativa de golpe de estado contra o venezuelano Hugo Chávez, em 2002, foi o estopim do célebre bate-boca que acabou no “por que não te calas?” que o rei espanhol dirigiu ao presidente da Venezuela em Santiago.

Os capitais espanhóis têm desempenhado nos últimos anos importante papel na absorção de ativos estatais repassados, a custos convidativos, à iniciativa privada na América do Sul. Funcionam como “barriga de aluguel” de fundos americanos. E as condições amplamente favoráveis encontradas em nossas terras já há tempos levam as operações sul-americanas a brilhar nos balanços consolidados das empresas globalizadas que ostentam marcas espanholas na fachada.

Em alguma medida, o protagonismo do PP na tentativa de barrar a onda nacionalista em nosso continente mantém relação com isso. É uma resistência à potencial perda de ótimos negócios, que garantem gordo retorno aos felizes acionistas peninsulares. Mas é perceptível também que há, na ação da direita espanhola, um vetor ideológico, a operar com certa autonomia em relação à realidade material que o gerou.

Nesse aspecto, o PSOE é reconhecidamente mais pragmático. O governo socialista espanhol, assim como o governo petista brasileiro, reagiu de maneira moderada à nacionalização da indústria petrolífera boliviana, onde ambos tinham e têm forte presença. Já nos desdobramentos da polêmica entre o rei e Chávez, o premiê socialista da Espanha cautelosamente submergiu. Mais negócios e menos ideologia parece ser a saudável linha do reeleito José Luis Rodríguez Zapatero para a América do Sul.


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17 Comentários:

Blogger Kleyn disse...

" Ali e aqui, porém, é inevitável que a sociedade questione por que, afinal, deve a Igreja Católica ter ascendência definitiva sobre o Estado, já que este abrange católicos e não-católicos. "

Isso se discute agora, mas e quando a Teologia da Libertação e personagens como Frei Betto e outros militavam e lideravam a esquerda? Nessa época ninguém reclamou da intromissão da Igreja...

terça-feira, 11 de março de 2008 12:15:00 BRT  
Anonymous Mauro disse...

Alon,

ao afirmar, quase en passant, que “[a família] é o elemento central a fortalecer na luta contra a atração que as transgressões e o crime exercem sobre a juventude”, você quis dizer que a desestruturação familiar e a erosão de valores são as principais causas da criminalidade violenta em nosso país? Se for esse o caso, concordamos completamente, mas eu acho que seus leitores de esquerda ficarão um tanto decepcionados com você...

terça-feira, 11 de março de 2008 12:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Seria interessante você comprovar que o controle efetivo da Telefônica e da Repsol pertence a fundos americanos. Qual é a sua fonte de dados?

terça-feira, 11 de março de 2008 14:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Apenas complementando o que disse o Klein: também na época em que a Igreja Católica Brasileira defendia os presos polítcos, ninguém reclamava de intromissão indevida nos assuntos públicos, nem alegava que o estado era laico.
Quando D.Claudio cedeu as instalações da Igreja para uma reunião do Sindicato dos Metalúrgicos (então sob intervenção), também foi, certamente, uma intromissão indevida nos assuntos polítcos laicos do País.
Interessante.
Sds.,
de Marcelo.

terça-feira, 11 de março de 2008 15:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A oposição ao aborto não é uma exclusiva da Igreja Católica, é a de toda Igreja cristã, que se alicerça nos princípios da moral e da ética, pouco conhecidos e menos praticados, especialmente entre as camadas dirigentes. O estado laico defende a liberdade religiosa e não a perseguição religiosa, como o Zapatero e seus asseclas, fazem lá na Espanha, especialmente contra a Igreja Católica. Em certos momentos, com desculpa da defesa dos D.H. se dão assas as minorias, ignorando os direitos da maioria, Isto não é descriminação? Sou espanhol e votei em IU.

terça-feira, 11 de março de 2008 17:33:00 BRT  
Anonymous Cfe disse...

Alon,

Leitura um tanto enviezada, pois o PSOE ganhou devido ao apoio maciço dos eleitores no País Basco e Catalunha. Foi claramente o fator determinante.

Claro que a oposição da Igreja Católica atrapalhou o desempenho do candidato do PSOE mas, por outro lado, tambem ajudou-o uma vez que este encarnou o papel de perseguido e defensor da laicidade do estado e ainda recebeu as simpatias de setores anti-clericais, muito atuantes na sociedade espanhola.

Quanto a questão da liberalização dos costumes garanto-lhe que não é consensual na sociedade espanhola: mesmo entre os não-cristãos. Seus colegas socialistas franceses questionaram o tendencionismo da decisão de instituir o casamento homosexual. Há muitos pais que estão contestando o incentivo, nas escolas públicas, de que seus alunos experimentem todos os tipos de comportamentos sexuais. A questão do aborto é outra que está sendo extrapolada, já que a atual lei é muito liberal. O próprio questionamento da transição pacífica que Franco preparou denota o mais puro ranço.

Dentro de muito pouco tempo teremos a emancipação de regiões de Espanha. E o acumular de tensões poderá levar a problemas graves dentro da sociedade espanhola.

terça-feira, 11 de março de 2008 18:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, até o idiota do Quico e do seu Madruga não caíram na esparrela da guerra Colômbia, Venezuela e Equador. Um ficaria sem comer, o outro sem vender. Tudo por causa de uns caras mortos no Equador?? Eu disse a eles, é a economia, estúpidos e, ambos concordaram. Não sei se com o primado da economia ou com o fato de serem estúpídos.
El Chavo del Ocho
PS eu que não tenho família tendo a concordar com você.

terça-feira, 11 de março de 2008 20:07:00 BRT  
Blogger TQ disse...

Apenas para esclarecer, não é apenas a Igreja que é contra a pesquisa de celulas tronco embrionárias, e os motivos não são apenas religiosos, mas também juridicos e cientificos. Veja quem defende os dois lados na propria disputa judicial e vc vera amplos motivos.
Reduzir o caso a uma disputa religião contra ciencia é muito triste, ainda mais vindo de você Alon.
Alias embora saiba seu orientação (esta no nome do blog) sempre o li por te achar bom argumentador, mas a cada dia que passa vejo que não é bem por ai.

terça-feira, 11 de março de 2008 20:17:00 BRT  
Anonymous Pitágoras disse...

TQ, qual o argumento do Alon com o qual vc nao concordou? Poderia especificar para que ele possa contra-argumentar?

quarta-feira, 12 de março de 2008 08:22:00 BRT  
Anonymous pitágoras disse...

Senhor Anonimo, o Alon nao afirmou que elas sao controladas pelos fundos. Ele disse que servem de barriga de aluguel. Veja o volume de acoes negociadas pelas empresas na bolsa de NY e voce tera a sua resposta. A velhinha do Tenessee esta com tudo nas companhias peninsulares. Sacou?

quarta-feira, 12 de março de 2008 08:26:00 BRT  
Anonymous Cfe disse...

O TQ tem razão pois são duas questões em separado:
1) o direito da Igreja Católica tentar influir na sociedade;
2) O considerar ou não vida os embriões;

Ao juntar as duas e afirmar, muito irresponsavelmente, que a visão da Igreja é puramente religiosa tentam desqualificar os argumentos desta e levar a questão para um disputa quase de arquibancada, com torcidas. Infelizmente há muitas pessoas caindo nessa armadilha. Dos dois lados.

quarta-feira, 12 de março de 2008 08:53:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Uma vez o Brizola disse, ao defender a reforma agrária, que "era tão a favor da propriedade privada que queria que todos a tivessem". A família é estruturante na sociedade, e nisso concordo com o Alon. E, parafraseando Brizola, acho que todos deveriam ter direito a poder constituir família. Pena que temas como união civil (que, devemos lembrar, NÃO é um substituto do casamento), casamento entre pessoas do mesmo sexo e adoção por casais homossexuais estão a anos-luz de serem discutidos no Brasil.

O problema da Igreja Católica nas eleições espanholas é que Ratzinger é quase fundamentalista em questões morais. E foi fazer fundamentalismo num país com sentimentos extremos pela Igreja Católica; a terra da Opus Dei é a mesma pátria de grandes anarquistas e anticlericais. Aí ficou fácil para o PSOE criar o "nós contra eles". Vamos ver nas eleições italianas de abril, onde a Igreja está com Berlusconi e não abre, se o efeito das eleições de domingo vai afetar a Igreja.

Quanto ao pragmatismo de Zapatero na América Latina, vamos lembrar que a lei espanhola é, ahn, generosa com lucros vindos do exterior, tão generosa que os eurocratas de Bruxelas já estão de olho. E aí, Zapatero, que não rasga nota de 100 euros, entendeu que arrumar briga com Chávez, Corrêa, Ortega, Cristina etc e fazer com que as empresas espanholas sejam chutadas da América Latina é uma péssima idéia.

quarta-feira, 12 de março de 2008 20:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alô! Alô! Só para esclarecer, o Alon está se referindo aos interesses da Igreja representada pelo ESTADO DO VATICANO.

A IGREJA referida pelo Alon defende seus interesses (e intere$$e$ também, logicamente) através de uma instituição SECULAR. O blogueiro está afirmando,nas entrelinhas, que ela não tem o direito de se intrometer nos interesses de outros Estados e muito menos na vida de cidadãos que não professam a mesma fé dos governantes do Vaticano.

Frei Beto e a Teologia da Libertação NÃO SÃO A IGREJA. Aliás, os dois foram reprimidos pela Igreja a que se refere o blogueiro. A Igreja ainda é contra a Teologia da Libertação.

(jose justino)

quarta-feira, 12 de março de 2008 20:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon , não se deve confundir alhos
com bugalhos ; não é porque a
Igreja erra ao condenar a camisinha,que ela esteja errada ao
condenar o uso de células tronco
embrionarias.
Também é consenso entre cientistas
sérios , que a vida começa na
fertilização do óvulo ; aliás se
não é vida (humana) o que é então ?

quarta-feira, 12 de março de 2008 21:58:00 BRT  
Blogger Rodrigo disse...

Acho que alguns comentaristas estão confundindo interferência no Estado com manisfestação. A Igreja pode se manifestar contra o aborto por achar que o embião é um ser humano do mesmo jeito que o pessoal da Teologia da Libertação e pessoal dos presos políticos se manifetou. Só não pode mandar para cadeia uma pessoa que não acredita nas crenças da Igreja. Se a Igreja é contra o aborto e a pesquisa com células tronco que não aborte e não use os tratamentos resultantes das pesquisas. Nada d ficar usando o estado para impor as crenças católicas a quem não acredita nelas.

quarta-feira, 12 de março de 2008 23:32:00 BRT  
Anonymous Cfe disse...

Um esclarecimento:

A Igreja não é "contra" camisinha.

É contra a propaganda centrada no seu uso, e defende a liberdade da família na questão sem interferências do estado. Da maneira como são feitas, as campanhas estimulam o ato sexual contrariando o suposto objetivo de combater a propagação de DSTs.

Eu até já vi Bispo dizendo que quem não vive uma vida sexual regular, com parceiro fixo que a use.

quinta-feira, 13 de março de 2008 12:55:00 BRT  
Anonymous Cfe disse...

Um esclarecimento:

A Igreja não é "contra" camisinha.

É contra a propaganda centrada no seu uso, e defende a liberdade da família na questão sem interferências do estado. Da maneira como são feitas, as campanhas estimulam o ato sexual contrariando o suposto objetivo de combater a propagação de DSTs.

Eu até já vi Bispo dizendo que quem não vive uma vida sexual regular, com parceiro fixo que a use.

quinta-feira, 13 de março de 2008 12:55:00 BRT  

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