sexta-feira, 14 de março de 2008

A limpeza étnica de cada um (14/03)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (14/03/2008) no Correio Braziliense.

Se o sonho petista-tucano do bipartidarismo deu as caras nos fracassados debates sobre a reforma política e a cláusula de barreira, é agora, nos preparativos para a eleição municipal, que ele se apresenta com mais viço

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Em cerimônia oficial dois dias atrás, o ministro Patrus Ananias (Combate à Fome) lembrou de uma antiga diferença entre o PT, seu partido, e o PSDB. Patrus criticou a privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), vendida no governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). Retomou a acusação, feita à época, de que o preço pago pela empresa ficou abaixo do que deveria. O assunto, aliás, está ainda por ser decidido na Justiça.

A referência a essa divergência histórica não deixa de brilhar como um raio em céu azul, numa época em que mesmo o observador atento tem dificuldade para encontrar diferenças programáticas entre as administrações petistas e tucanas. Aliás, entre administrações em geral no Brasil. Para o bem ou para o mal, consolidou-se entre nós um tipo de governo baseado em responsabilidade fiscal e programas de redistribuição de renda por meio do Estado. A primeira perna do modelo foi imposta pela lei e pela vida. A segunda, pelo pragmatismo eleitoral.

Essa convergência administrativa completa-se com a reabilitação do investimento público, que ao longo dos anos 90 era visto como dispensável para o crescimento. Com o tempo, concluiu-se que não seria bem assim. Agora, administradores em todos os pontos do espectro político cuidam de comparecer com as alavancas sem as quais o setor privado não se anima e entrar com a parte dele.

Não que tenham desaparecido as diferenças. Elas persistem, por exemplo, na ênfase dada aos programas sociais e, como se viu no discurso do ministro Patrus, no modo de olhar as privatizações. Ainda que o próprio governo do qual o ministro faz parte tenha acelerado, por exemplo, as concessões de rodovias federais, numa modalidade de venda que abriu mão inclusive do dinheiro que a União teoricamente deveria receber dos compradores.

Nesse cenário, era mais que natural alguém afinal perguntar: ora bolas, se PT e PSDB podem convergir administrativamente, por que não estender a convergência à política? E assim naturalmente se deu. E só podia mesmo ter aparecido em Minas Gerais. Lugar onde a conciliação já faz parte da cultura política, especialmente nas ocasiões em que essa mesma conciliação pode servir com eficácia aos projetos de poder das correntes hegemônicas no estado de Tiradentes.

É visível que PT e PSDB têm dificuldades para lidar com a novidade, a aliança entre o governador tucano Aécio Neves e o prefeito petista de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, na sucessão municipal. O desafio maior é responder ao “por que não?”. Até o momento, as objeções que podem ser expostas em público repousam no terreno da ideologia. Daí sua fraqueza. A ideologia como vetor principal de alianças eleitorais no Brasil é coisa do passado, ao menos para PT e PSDB. E há muito tempo.

Mas, se a convergência entre adversários históricos é um dado novo desta eleição municipal, um outro aspecto desperta curiosidade, ainda que chame menos a atenção até agora. Cada um a seu modo (e cada um do seu lado), PSDB e PT promovem, silenciosa mas sistematicamente, uma limpeza étnica em seu respectivo território. Se o sonho petista-tucano do bipartidarismo deu as caras nos fracassados debates sobre a reforma política e a cláusula de barreira, é agora, nos preparativos para a eleição municipal, que ele se apresenta com mais viço. De norte a sul, de leste a oeste, ambos cuidam, em primeiro lugar, de limpar a própria área. Enquanto o PT estende ao PMDB o tapete vermelho e busca evitar a consolidação eleitoral do bloco PSB-PDT-PCdoB, o PSDB, mais desenvolto, parece especialmente empenhado em fazer sangrar o Democratas.

O ex-PFL tem suas jóias da coroa em duas capitais, Rio de Janeiro e São Paulo, esta herdada do PSDB e administrada em condomínio. Pois bem, todos os movimentos tucanos destinam-se a eliminar do mapa esses dois pilares do poder do suposto aliado. Claro que há razões regionais e a luta interna dentro do próprio PSDB, mas não deixa de ser intrigante — e intelectualmente estimulante. A um observador distraído, poderia parecer à primeira vista que o desejo íntimo do PSDB é simplesmente neutralizar o Democratas como alternativa eventual de poder. Com mais discrição, mas igual denodo, o PT faz o mesmo com os que, paradoxalmente, insiste em classificar em seus documentos como “aliados estratégicos”.


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3 Comentários:

Anonymous marcosomag disse...

Para mim, nunca haverá uma aliança mais abrangente entre PT e PSDB. São partidos muito diferentes. No caso do PSDB, um partido de cúpula herdeiro político, ideológico e com base social da antiga UDN, tal aliança seria mais fácil de ser operada. Porém, o PT é um partido basista, e as bases certamente vão pulverizar qualquer liderança que venha com essa ideía esdrúxula. O trapalhão Aloísio Mercadante pode dizer adeus à candidatura para o governo de São Paulo em 2010, se prosseguir com esta pataquada de acordo com o PSDB.A atuação do PSDB em relação ao DEM nas cidades é defensiva, pois o PFL foi destruído em suas bases rurais pelos programas sociais do governo Luís Inácio Da Silva, o "Lula", e agora está disputando o apoio da burguesia e da camada média que é seu apêndice ideológico com o PSDB.Esse rompimento do velho acordo burguesia/oligarquias que vem desde os anos 30 (UDN/PSD) até o final do governo FHC (PSDB/PFL) foi a maior vitória política de Lula.Os acenos do PT para um impossível acordo com o PSDB poderiam servir para esticar a corda entre PSDB e DEM. Jamais seriam "para valer", pois significariam jogar a bóia para salvar o PSDB/UDN, inimigo da democratização da sociedade brasileira.

sábado, 15 de março de 2008 16:32:00 BRT  
Blogger Leonardo Bernardes disse...

Alon, você não acha que a aproximação é também uma estratégia para enfraquecer o PSDB paulista e, por consequência, o PSDB nacional em 2010? Se PT e PSDB estiverem amarrados num pacto de qualquer natureza, o discurso da segunda legenda terá que manter-se um tom abaixo do que o de costume. Além de jogar Minas contra São Paulo (ou melhor, de acirrar uma disputa que já se perfaz nessa oposição).

Dê uma olhada nessa notícia também, vê se ela não reforça a idéia:

Wagner admite que a candidatura de Imbassahy (PSDB) faz parte da base

domingo, 16 de março de 2008 20:44:00 BRT  
Anonymous Artur Araujo disse...

Alon, há uma diferença de fundo, real, ainda que mascarada pelo "pensamento único" na macroeconomia. É o viés distributivista, é a firme convicção no potencial do mercado interno de massas - via do aumento de emprego formal e da massa salarial/salário médio - que provou-se, nos últimos anos, um caminho muito mais seguro e perene que a mera "economia internacionalmente integrada" pela via das exportações.
Ainda que para vários "petistas" esta tenha sido uma "conseqüência nã prevista" seu sucesso determina uma clivagem real.

segunda-feira, 17 de março de 2008 11:52:00 BRT  

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