segunda-feira, 31 de março de 2008

Leia o Helio sobre o Tibete - ATUALIZADO (31/03)

O Helio Shwartsmann, colega da Folha de S.Paulo, discorda de um monte de coisas que escrevo aqui. A recíproca é também verdadeira. Mas leia o artigo dele sobre o Tibete e veja que o buraco no caso é bem mais embaixo. Reproduzo fragmentos:

Longe de mim justificar a ignominiosa ocupação chinesa do Tibete, mas, sempre que uma questão desponta como virtual unanimidade planetária --caso da independência tibetana--, é lícito supor que a história esteja mal contada. (...) O que não se menciona tanto é Tenzin Gyatso [o Dalai Lama] chegou a ser o monarca de uma teocracia absolutista que, até 1951, ainda mantinha o regime de servidão. Segundo o tibetólogo Melvyn Goldstein, com exceção de cerca de 300 famílias nobres, todos os tibetanos eram servos ("mi ser") ligados a terras pertencentes a aristocratas ou monastérios budistas. Tampouco se alardeia que o 14º dalai-lama, que assumiu seu posto em 1950, tentou compor com os comunistas para preservar-se no poder nem que, uma vez destituído, após a revolta anticomunista de 1959, passou a receber mesada da CIA para levar adiante a partir do exílio a luta pela independência. Também não é verdade que a China trata o Tibete como uma colônia, limitando-se a extrair suas riquezas sem dar a mínima para a população local. O PIB per capita dos tibetanos que habitam a República Autônoma do Tibete (RAT) cresceu 30 vezes quando comparado a 1950, enquanto a população mais do que dobrou, passando de 1,2 milhão para 3 milhões hoje. De acordo com o Birô de Estatísticas Chinês, a média dos salários pagos na RAT é a segunda do país, perdendo apenas para a região de Xangai, mas superando a de Pequim. A China também criou toda a rede de ensino secular da Província (antes só havia educação religiosa), e instalou todos os 25 centros de pesquisa científica. Sob o domínio de Pequim, a mortalidade infantil caiu de 430 por mil nascidos vivos em 1950 para 35,3 por mil em 2000, sempre segundo dados oficiais. É uma melhora substancial, mesmo considerando que as taxas tibetanas são ainda bem maiores (mais ou menos o triplo) do que as verificadas para outras etnias. No mesmo período, a expectativa de vida saltou de 35,5 anos para 67. (...) E, por falar em matizes, é difícil até afirmar com todas as letras que o Tibete já foi uma nação independente. Poupo o leitor dos meandros do debate, que pode adquirir caráter bastante técnico. De forma resumida, porém, podemos afirmar que as histórias do Tibete e da China estão fortemente imbricadas uma à outra. Os tibetanos chegaram a constituir um império, mas isso ocorreu entre os séculos 7º e 11. Do século 18 para cá, o Tibete esteve invariavelmente sob jugo chinês, ainda que gozando de períodos de maior autonomia. Foi num deles, entre 1914 e 1950, quando a China e as potências coloniais estavam mergulhadas em seus próprios e graves problemas (1ª Guerra Mundial, 2ª Guerra Mundial e Revolução Chinesa), que a província chegou a sentir o gostinho da independência. Mas, assim que Mao Tsetung, conseguiu estabilizar-se no poder, despachou seus soldados para reassumir o controle do platô. Pelo menos no mundo da diplomacia, o "statu quo" não é contestado. Nem a Índia, que serve de sede para o governo tibetano no exílio, reconhece o Tibete como país independente. O próprio dalai-lama já renunciou a esse pretensão, numa entrevista concedida em 2005.
Clique aqui para ler o texto do Helio.

Atualização, 01.04.2008 às 12:59 - Leia também Cinco preguntas sobre el levantamiento del Tibet, do rebelion.org.

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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Onde piorou, no Mundo, quando se compara os anos 50 com os dias de hoje?

Só onde houve guerras que perduraram por anos.

Até na Antárdida a vida humana melhorou muito quando se compara números dos anos 50 com os de hoje em dia.

segunda-feira, 31 de março de 2008 13:40:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Perguntinha singela (que eu gostaria que o blogueiro respondesse):

Se é assim, por que então a China não faz um plebiscito sobre a independência, no qual o povo tibetano, agradecido a Pequim, e conhecendo a crueldade passada dos monges, certamente votaria para continuar fazendo parte do território chinês?

segunda-feira, 31 de março de 2008 14:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, sejamos pragmáticos:
O Tibete tem time competitivo em futebol, volei ou basquete? Tem atletas que podem ganhar medalha?
Se tiver time competitivo, sou contra a independência porque pode nos atrapalhar. Se tiver atletas que podem "sangrar" a China na competição de medalhas, sou a favor da independência.

El Chavo del Ocho, countdowning to Beijing..

segunda-feira, 31 de março de 2008 16:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Por que,os tibetanos insurgiram-se neste exato momento?Véspera da
Olmpíada;crise econômica nos EUA, ascenção da potência rival chinesa ,neste mesmo quadro;curiosamente, 3/4 dos BRIC,situam-se naquela região:Rússia,Índia e China.Mais uma manobra diversionista, do Departamento de Estado Americano?
Diversas manifestações diante da embaixadas chinesas, em várias capitais,num curto espaço de tempo,levam a sugerir orquestração.Não seria a primeira vez. Basta lembrar o boicote às Olimpíadas de Moscou.

segunda-feira, 31 de março de 2008 16:29:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Arranhaponte,

Por que não fazer também um plebiscito no Rio Grande do Sul para saber se os gaúchos querem se separar do Brasil? Ou um em São Paulo? Ou um em Santa Cruz de la Sierra para saber se eles querem cair fora da Bolívia? Ou um no País Basco para saber se devem deixar a Espanha? Ou um na Irlanda do Norte para decidir se deixam a rainha para lá e vão cuidar da vida? Ou um na parte "holandesa" da Bélgica para resolver se se separam dos francófonos? Ou um em Quebec? A lista é interminável. Da minha parte, sou contra o separatismo. Mas posso ficar a favor, se você me convencer de que é uma boa. Um abraço.

segunda-feira, 31 de março de 2008 17:00:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Bem, eu não tenho nada contra fazer plebiscitos em todos os casos que você mencionou, mas o que acontece é que, na maioria deles, nesse momento atual, não existe nenhuma conflagração maior, nenhuma demanda por independência ou autonomia com massa crítica suficiente para que aconteça um plebiscito. Por exemplo, se eu e meia dúzia de malucos cismarmos de fazer um plebiscito para separar o Baixo Leblon do resto do Brasil, eu entendo que o Brasil não vai gastar tempo e energia organizando um plebiscito. Alguns dos lugares que você citou já chegaram próximos da conflagração que hoje existe no Tibete (Quebec, País Basco), e o que se viu é que, em países democráticos, os separatistas geralmente são tradados com uma consideração muito maior, com o governo do país dominante fazendo inúmeras concessões (veja a Inglaterra com a Escócia; a Irlanda do Norte é um pouco diferente, já que, os católicos lá são minoria, embora sejam maioria nas duas Irlandas juntas), paparicando o povo seccionista, buscando atraí-lo com a cenoura, e não dissuadi-lo com o porrete. É claro que isto não é uma história homogênea, e, no passado, às vezes até recente, houve também porrete nos casos mencionados. Mas, de maneira geral, quando a gente pega separatismos em países democráticos, a tendência é que a coisa evolua para algum tipo de negociação, com inúmeras concessões sendo feitas em troca de se manter a unidade nacional.

Agora, veja que nos casos de separatismos em ditaduras, ou em países que ainda são marcados por um forte traço autoritário de um passado bem recente, como China (Tibete), Rússia (Chechênia), Sérvia (Kosovo), o que acontece basicamente é que o país dominante procura neutralizar o separatismo quase que excluvisamente na base do porrete, e com o componente cenoura muito minimizado.

Não é à tôa que chechenos, tibetanos, kosovares tendem a odiar profundamente a maioria étnica (na falta de uma palavra melhor) à qual estão forçosamente agregados, enquanto que no caso de bascos e quebequenses a hostilidade foi se diluindo ao longo do tempo, e é muito provável que, em caso de plebiscito, a opção hoje fosse a de ficar dentro da união nacional.

Bem, não sou um estudioso destes assuntos, e estou escrevendo meio de orelhada e do que impressionistamente vou lendo aqui e ali. Se alguém tiver informações que me desmintam, lerei com interesse

segunda-feira, 31 de março de 2008 18:39:00 BRT  
Blogger Rafael Kafka disse...

O direito de um povo a autodeterminação não se confunde com separatismo.

Gaúchos são brasileiros, Bascos nunca serão espanhóis, sempre foram etnicamente Bascos.

Tibetanos não são e nunca serão chineses.

Logo não são separatistas, querem apenas seu país de volta.

segunda-feira, 31 de março de 2008 20:07:00 BRT  
Blogger Paulo disse...

De fato, o que se quer dizer com "Free Tibet"?
Um retorno à teocracia feudal?
Uma democracia ocidental, igualzinha à que temos no Iraque? rsrs

Bem, o Dalai Lama já renunciou ao discurso separatista a propõe autonomia.

Autonomia pra quê?

Bem, ocorre um genocídio cultural no tibete. O crescimento populacional se deve, em grande parte, à migração de chineses han.
Ativistas tibetanos afirmam que ocorre na "região autônoma do Tibete" e nas províncias de maioria tibetana (Sinchuan, Qinghai) um tipo de apartheid, que discrima os de origem tibetana e favorece os de origem han.
Aos tibetanos, escolas segregadas ou segregação nas escolas e um ensino inferior, logo, os piores empregos. Aos han, favorecimento para permanência, melhor estudo, logo, os melhores empregos.

Paulatinamente a língua tibetana desaparece e as manifestações tradicionais são reprimidas, restando-lhes apenas registros em festivais oficiais.

Ao genocídio cultural segue-se, num ritmo mais lento, um genocídio étnico, com a substituição populacional.

Bem, se de um lado falta clareza aos que defendem o "Free Tibet", de outro parece-me forçado atribuir ao Dalai Lama submissão à CIA.

Afinal, o próprio Dalai Lama já reconheceu que o Tibete é parte da China. O que ele quer é que o povo tibetano usufrua do desenvolvimento chinês, mas preservando uma identidade própria (coisa que o TIbete sempre teve, mesmo quando incorporado ao Império Chinês).

terça-feira, 1 de abril de 2008 14:26:00 BRT  

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