sexta-feira, 7 de março de 2008

Como o sr. Chicola pode ajudar (07/03)

Vejam se não é uma preciosidade o que eu encontrei, claro que com a ajuda do Google. Folha Online, às 23h13 de 18 de outubro de 2000:

EUA pedem que Colômbia negocie com esquadrões da morte

Bogotá (Reuters) - Um diplomata dos EUA disse hoje que grupos paramilitares não podem ser ignorados nos esforços para alcançar um acordo negociado entre o governo colombiano e as guerrilhas. Philip Chicola, chefe de assuntos andinos do Departamento de Estado dos EUA, disse que os temidos esquadrões da morte deveriam ter reconhecimento político, ou ainda participar de negociações entre o governo da Colômbia e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias)."Em algum ponto, os paramilitares terão que participar do processo", disse Chicola em uma entrevista para a Radionet, durante sua visita de dois dias à Colômbia. "O governo e a sociedade colombiana vão ter que decidir como eles vão lidar com os paramilitares", acrescentou.

Clique para ler a reportagem completa. Pela data (outubro de 2000), você já percebeu que a notícia é do final do governo de Bill Clinton. Quando a política americana para a Colômbia orientava-se pela busca de uma saída negociada que pusesse fim à guerra civil. Ou seja, antes do 11 de setembro e do acirramento das tensões entre a Casa Branca e Hugo Chávez, a diplomacia dos Estados Unidos considerava uma alternativa plausível a negociação com grupos que constavam do index terrorista, se o objetivo fosse a paz. Talvez isso ajude a compreender melhor por que os papagaios nativos (Nós e a transição cubana) nunca exigiram dos governos brasileiros anteriores a Luiz Inácio Lula da Silva que declarassem as Farc como "terroristas". Desde o fim do regime militar, passaram pelo Palácio do Planalto José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Nenhum deles adotou posição radical contra as Farc. Já registrei aqui no blog, em De volta ao americanismo, um trecho de reportagem da revista Veja em março de 2003 a respeito do assunto:

O governo de Fernando Henrique Cardoso também manteve distância do conflito colombiano. Vez por outra, deixava vazar críticas ao Plano Colômbia, como é chamada a estratégia de combate ao narcotráfico financiada pelos Estados Unidos.

Os mesmos que hoje incham a jugular para advertir sobre o apocalipse que resultaria da leniência com o "terror comunista" agiram, quando no governo, de maneira cuidadosa em relação à guerra civil do vizinho. O que teria mudado no cenário para justificar essa guinada? O caráter e os objetivos das Farc não mudaram. Se são "terroristas" hoje, já eram antes. Ora, o que mudou desde 2000 foram a linha política dominante no governo colombiano e a estratégia dos Estados Unidos. Mas a política externa brasileira e a nossa posição diante de conflitos em outros países não pode flutuar ao sabor dos humores em Washington ou nos aliados dos americanos. Por mais que alguns se incomodem com isto, nós somos um país soberano (leia À espera de uma orientação da Casa Branca). E um detalhe chamou minha atenção. O Philip Chicola ctado na reportagem da Folha Online de outubro de 2000 é o que aparece também naquela reportagem do NYT (Crisis at Colombia Border Spills Into Diplomatic Realm), citada neste blog, como contato do governo americano com Raul Reyes e as Farc na administração Clinton. Relembro:

For instance, in 1998 a Clinton administration official, Philip T. Chicola, then the State Department’s director of Andean affairs, had a clandestine meeting with Mr. Reyes in Costa Rica in an effort to establish a way of communicating with the FARC during times of crisis. The meeting was described in a diplomatic cable written by Mr. Chicola in January 1999 and declassified in 2004.

O que faz hoje o sr. Chicola? É vice-embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Dêem uma olhada no currículo dele. Alguns trechos:

Entre 1984 e 1986, foi vice conselheiro político na Embaixada dos EUA na Guatemala. De 1988 a 1993 serviu como conselheiro político e Embaixador Adjunto na Embaixada dos EUA em San Salvador. Durante seu tempo ali, o ministro Chicola teve atuação marcante nos esforços dos Estados Unidos em apoiar a inscipiente democracia Salvadorenha e em facilitar um fim negociado para a guerra civil naquele país. (...) Depois de um ano no War College (Escola de Guerra), o ministro Chicola serviu como conselheiro político e econômico na Embaixada dos EUA em Santiago, Chile, durante a conclusão da transição do regime de ditadura militar para um governo civil eleito. Em 1996 retornou a Washington como diretor interino do Escritório de Planejamento e Coordenação do Escritório de Assuntos das Américas. Um ano mais tarde, sua experiência em lidar com conflitos civis o levou a ser nomeado Conselheiro Sênior para o Administrador Temporário da Slavônia, Croácia. A partir de julho de 1998, serviu como Diretor do Escritório de Assuntos Andinos na Divisão de Assuntos do Hemisfério Ocidental. Nessa posição lidou com alguns dos desafios mais significativos na área, inclusive: o desenvolvimento da Suplementação do Plano Colômbia de $1,3 bilhões de dólares, a iniciativa Andina de $900 milhões de dólares, e subseqüente financiamento para a região de cerca de $800 milhões de dólares por ano. Outros desafios que confrontaram seu escritório incluem: o fim da era Fujimori e a transição do Peru para a democracia; administração dos desafios que o novo Presidente Hugo Chavez da Venezuala representa às nossas políticas regionais: coordenar esforços bem sucedidos de restaurar a democracia no Equador depois do golpe de janeiro de 2000; e garatir que a democracia boliviana sobreviveria à renúncia do presidente Gonzalez de Lozada no outono de 2003.

Com esse background, o sr. Chicola certamente não está entre nós só por causa do etanol. Se eu tivesse que chutar, eu diria que ele é bem mais do que um simples vice-embaixador americano no Brasil. Por que manter no Brasil, um país 100% em paz, alguém cuja carreira está toda voltada para ações em cenários de conflito e guerra civil? Mas isso não é uma crítica nem uma restrição. O sr. Chicola é muito bem-vindo. E é bom que a representação americana em Brasília possua alguém que conhece a fundo e que tenha participado da pacificação salvadorenha, que integrou plenamente a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) ao processo político regular. Seria o melhor modelo para as Farc (e a ELN) na Colômbia (clique aqui para ler). Quem sabe o sr. Chicola, já que está mesmo por aqui, não ajuda nisso?

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5 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

Sabe que eu li seu artigo e tive justamente a impressão contrária, de que o sr. Chicola foi propositalmente "escondido" aqui no Brasil? E que não deve ser ouvido nem pela cadeira dele?

sábado, 8 de março de 2008 10:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Talvez a não classificação das FARC como terrorista prenda-se, na época, à postura pacifista da Diplomacia brasileira em não colocar combustível na fogueira. Assim, credenciando-se como um possível mediador entre os grupos em conflitos internos em outros países, principalmente nos vizinhos. Hoje, a ação da Diplomacia, abre margem a interpretações mais diversas. Pelo que observa no Congresso, até apoiadores do governo brasileiro citam as FARC como terroristas, em contrafação às ações diplomáticas que não utilizam tal termo. Pode ser que ai resida a razão para manifestações mais agudas. Contudo, o que fica à mostra positivamente são as fotos onde os Presidentes da Colômbia, Equador e Venezuela cumprimentando-se na reunião do Grupo do Rio. O adubo do terreno para medrar guerra parece ter sido abandonado. Bom para os três e melhor para o Brasil. É de se desejar que alguma coisa tenha sido aprendida.

sábado, 8 de março de 2008 11:30:00 BRT  
Anonymous Mauro disse...

Alon,


um ponto importante que transparece na sua linha de argumentação é o de que a forma mais eficaz de pacificar a Colômbia não seria por meio da derrota militar das Farc, mas sim por sua integração à vida institucional do país. Uma questão imediata que surge é a de saber se isso seria possível sem institucionalizar o narcotráfico... É óbvio também que, não podendo antecipar os resultados das duas opções, a escolha entre negociar e combater pode bem ser caracterizada como uma aposta, mas eu acho que uma retrospectiva dos antecedentes históricos do conflito e dos dados mais recentes (incluindo as últimas baixas de lideranças importantes e as massivas deserções) oferece bons motivos para se apostar no enfrentamento.

O que complica de fato o debate é a divergência a respeito da natureza das Farc e da desejabilidade de que essa organização alcance o poder. Certamente, não é nenhum pouco razoável esperar que alguém com posições de esquerda e que vê os narco-guerrilheiros como uma organização popular e anti-imperialista deseje que a Colômbia seja pacificada precisamente ao custo da eliminação das Farc! Para alguém de direita, ou contrário, é difícil entender, por exemplo, como uma organização que pretende libertar o povo comece por oprimi-lo e massacrá-lo, e soa bizarro falar na criação de condições para que as Farc alcancem o poder legitimadas por um processo eleitoral.

Não pode haver acordo quanto aos meios enquanto houver desacordo sobre os fins, e esse desacordo resulta de um conflito entre diferentes visões de mundo. Um conflito sobre valores, portanto, não sobre fatos. É por isso que o debate ideológico é inevitável e urgente, embora seja tão difícil no Brasil que esse tipo de debate não degenere e resulte apenas em acusações, desconfianças e ressentimentos pessoais... Em minha opinião, chega a ser injusto que pessoas que um dia lutaram por um mundo melhor se sintam hoje obrigadas a encontrar argumentos para justificar narcoguerrilha, a ditadura de Fidel ou o Mensalão... No alto da página do blog você anuncia “um ponto de vista nacional, democrático e de esquerda”. Mas, afinal, alguém sabe o que é ser de esquerda hoje?

sábado, 8 de março de 2008 17:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

E na época as FARC ainda não haviam iniciado a onda de sequestros em larga escala, incluido a Ingrid Betancourt.

As FARC há muito deixaram de ser uma organização política, vide os contatos com tipos como Fernandinho Beira-mar. São apenas narcotraficantes, ajudando a inundar o país com drogas e fomentando a violência urbana. Só isso já deveria ser suficiente para o Governo se posicionar claramente contra as FARC, pelo menos até que elas depusessem suas armas e desistissem do narcotráfico.

Cumpridas estas duas etapas -- que devem necessariamente ser iniciativas das FARC -- pode-se iniciar um programa para incluí-las na vida política institucional da Colômbia.

Até lá, apoiar as FARC é apoiar o tráfico de drogas e contribuir para a violência das nossas cidades.

domingo, 9 de março de 2008 00:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É de se desejar que o Itamaraty assuma as negociações para credenciar o Brasil como mediador, tanto entre países litigantes, como entre grupos dentro desses mesmos vizinhos. A tradição do Itamaraty não é de conflito. Isso ajudaria também para clarear os debates internos sobre tais assuntos.
Sotho

segunda-feira, 10 de março de 2008 14:48:00 BRT  

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