sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O princípio da precaução e a Vale do Rio Doce (01/02)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (01/02/2008) no Correio Braziliense.

Imaginem o imbróglio que seria algum estrangeiro comprar a CVRD e depois os tribunais brasileiros decidirem que a privatização deve ser anulada. Estaria criado um gravíssimo abacaxi diplomático

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O conceito que está no título desta coluna é caro aos ambientalistas. Segundo o princípio da precaução, ou de sua interpretação mais estrita, você não deve fazer nada que possa ter sobre o meio ambiente conseqüências ainda não previsíveis, e portanto não preveníveis. Mas a tese não se aplica apenas ao ambientalismo. Ainda que informalmente, o princípio da precaução rege, por exemplo, a política das grandes potências para seus recursos naturais não renováveis.

Um caso de precaução é a atitude dos Estados Unidos em relação ao petróleo. Sempre que possível, os americanos preferem consumir o petróleo dos outros enquanto preservam o seu. Para defender essa estratégia, se preciso vão à guerra. Na pátria operacional do liberalismo e da economia de mercado, a idéia de um mundo que se auto-regula pela lei da oferta e da procura também tem os seus limites.

Mesmo com o petróleo a US$ 100 o barril, e com todas as conseqüências que o patamar de três dígitos possa ter sobre o crescimento da maior economia mundial, não se vêem os Estados Unidos inundando o mercado com o óleo proveniente de suas reservas, para tentar baixar o preço. Faz sentido. Os americanos não podem mesmo estar à mercê de outros países em questões estratégicas. Não podem admitir ficar na mão de algum governante insensível, ou maluco, que certo dia decida fechar uma torneira e com isso paralisar a única superpotência do planeta.

O exemplo de Saddam Hussein está aí para demover os incautos. Depois que ele invadiu o Kuwait, no começo dos anos 90 do século passado, tudo deu errado. Uma coisa boa nos Estados Unidos, para os americanos, é que invariavelmente os governos americanos defendem o interesse dos Estados Unidos. Mesmo quando, como é o caso do petróleo, precisam mandar às favas a ideologia. Já que o grande país no norte das Américas é um exemplo de nação que deu certo, talvez seja o caso de copiá-los nesse particular.

A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), simpaticamente reapelidada de “Vale” em sua nova paginação, realiza movimentos para adquirir a anglo-suíça Xstrata. Em teoria, trata-se de uma empresa brasileira ganhando posições no mercado mundial de mineração. Na prática, é preciso saber com alguma margem de certeza se a compra não é, na verdade, o primeiro capítulo de uma venda lá na frente.

No dia em que os felizes acionistas controladores da CVRD conseguirem passar adiante sua fatia no business, terão realizado um dos mais fantásticos negócios da história do capitalismo, já que a empresa hoje vale (sem trocadilhos) algumas dezenas de vezes o preço obtido por ela na privatização. Considerando que um dos principais donos atuais da CVRD é um banco, e que o negócio dos bancos não é mineração, mas entrar e sair de negócios ganhando um bom dinheiro, ninguém poderá condenar o acionista da CVRD se ele considerar seriamente a possibilidade de fazer tal magnífico upside.

Nessa hipótese, estaríamos diante de um típico caso em que o interesse nacional não se confunde com o interesse de uma empresa, por mais importante que seja ela. Por uma coincidência temporal, a realidade deste começo de século 21 acabou colocando os produtores de commodities em situação privilegiada no panorama econômico do planeta. Agradeçamos às centenas de milhões de chineses que não cessam de entrar no mercado de consumo. E cuidemos bem do que é nosso. Por mais entristecidos que possam ficar os acionistas da CVRD.

Até porque há outro problema no caso da CVRD. A própria venda da companhia pela União, uma década atrás, é contestada na Justiça. Imaginem o imbróglio que seria algum estrangeiro comprar a CVRD e depois os tribunais brasileiros decidirem que a privatização dela teve problemas que imponham a anulação da coisa toda. Estaria criado um gravíssimo abacaxi diplomático entre nós e um (ou mais de um) país desenvolvido. Que certamente viria para cima do Brasil, e com tudo.

O princípio da precaução recomenda que o país e o governo fiquem de olhos bem abertos diante dos movimentos dos acionistas controladores da CVRD e dos potenciais financiadores do negócio com a Xstrata. Não vai ficar bem para Luiz Inácio Lula da Silva e o PT assistirem passivamente à desnacionalização da CVRD. Mesmo que hoje ambos saboreiem a auto-suficiência característica do poder, sempre é prudente (olha aí de novo, o tal princípio) lembrar que sobre o futuro há uma única coisa certa: ele sempre chega.


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8 Comentários:

Anonymous taq disse...

Bom dia Alon,

Durante a privatização da vale, que eu saiba o governo ficou com uma chamada golden share, alem de ainda ser direta ou indiretamente um dos maiores acionistas da companhia.
Em resumo esta operação so sai com aval do governo, e isto já havia sido previsto durante a privatização, portanto fica realmente o alerta ao governo não para impedir a negociação, mas para manter o poder que hoje possue, embora não faça parte do controle da companhia.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008 17:22:00 BRST  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Alon,
A versão lá fora é de "fusão" das empresas. Veja em

http://www.observatoriodoagronegocio.com.br/page12/page12.html
e
Brazil’s Vale Confirms Talks to Merge With Xstrata
By JULIA WERDIGIER
Published: January 22, 2008
The world’s largest producer of iron ore, Companhia Vale do Rio Doce of Brazil, said it was in talks with a rival, Swiss-based Xstrata, about a merger

em:http://www.nytimes.com/glogin?URI=http://www.nytimes.com/2008/01/22/business/worldbusiness/22mining.html&OQ=_rQ3D1Q26scpQ3D1Q26sqQ3DValeQ26stQ3Dnyt&OP=79ed2912Q2FGe@vGxRQ3EDVRRQ2BnGnpplGpdGnnGv8DQ3FQ2F@DDGeRVsxv8DQ3FQ2F@DDGnnQ27Q3FQ2FQ3FQ2F,Q23YQ2BQ27s

Bom carnaval
Abração

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008 23:24:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Tão importante quanto, seria ficar de olhos abertos para a manutenção da Petrobras, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Correios, como empresas públicas. Defendidas contra loteamentos e influências políticas em sua administração.

sábado, 2 de fevereiro de 2008 08:47:00 BRST  
Anonymous sergio g disse...

Quando se quer rachar uma madeira grande e dura, insere-se uma cunha.
Pequena, geometricamente preparada, dura e inexorável.
O que era tronco.
Fica lá. Ancestral, inerte e dividido.
Perde a identidade em multifacetas de tabuinhas e tabuinhas.
Até que se reúna num móvel, num lambril ou que seja.
Servirá a ambientes outros.
Mas jamais, se porventura re-reunido, será aquela majestosa árvore ou aquele belo tronco.

domingo, 3 de fevereiro de 2008 16:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Mais um favor que o fhc fez ao povo brasileiro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008 01:47:00 BRST  
Anonymous Marcelo disse...

Dez anos passados, as consequencias sociais no entorno da planta industrial das instalações da Vale foram duramente sentidas, por populações vizinhas, e administrações municipais. Agora, se isso que tu anteves aqui acontecer, o impacto terá dimensões globais. Resta saber se a Justiça Federal permanecerá cega.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008 14:09:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pela natureza da atividade da empresa, os efeitos das externalidades positivas ou negativas seriam sentidas sendo ela estatal ou como agora privada. O controle do desmatamento, por exemplo, cabe ao governo e ocorre o que ocorre. De todo modo, não parece ser de real interesse promover um plebiscito sobre como deve ser o capital da empresa. Tal escrutínio não traria qualquer benefício. Quantos cidadãos poderiam avaliar adequadamente valores de minas ou de seus produtos, ou a conveniência ou não de associar-se a outras empresas? Aprenderiam isso tudo através de assembléias populares? Ademais, se empresa era boa enquanto estatal e continua boa enquanto privada, qual é o problema? Ademais, como já lembrado, se o Governo tem golden share, por que necessitaria de plebiscito? Por que não explicam, então, sobre a abrangência do instrumento da golden share e da participação de órgão estatais no capital da empresa? Seria mais útil.
Sotho

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008 16:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A Vale foi dada, isto é, vendida a um preço absurdamente abaixo do que valia. Este foi o projeto de desnacionalização e desmonte promovido pelo PSDB na época do FHC. Hoje seus lucros são do capital estrangeiro e não ficam no país.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008 14:11:00 BRST  

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